Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Têm-nas, Sr. capitão., têm-nas. Reparai nos que passam. Haveis de ver cada um com seu arcabuz. Os mascates fizeram e fazem larga distribuição delas por seus asseclas. O que me espanta é que ainda não se tenham lembrado de vir atacar este posto, tão fraco quão arriscado.

Mal tinha Antonio Rabelo acabado estas palavras, quando uma massa negra começou a aparecer no principio da rua. Deus queira que eu me engane. Mas, ao que parece, vem ali gente para nos dar que fazer toda esta noite – disse Antonio Rabelo.

E logo mandou dobrar as guardas, e à frente da cadeia estendeu o restante da força.

- Quereis ir ao encontro do bando, Sr. capitão? perguntou Diogo Maciel, impaciente por atirar-se ao tumulto onde mais tarde praticou atos de distinta bravura. - Não; agora não enfraquecerei este ponto com a minha ausência. Os rebeldes vêm direitinhos para cá.

De feito, não tomaram eles outra direção.

O bando, passante de cem homens, vinha preparado para entrar em fogo e era capitaneado por Jeronimo Paes e seus filhos. Sua intenção era a que já tinha sido prevista – a de soltar os criminosos.

Obra de cinquenta passos antes, Antonio Rabelo intimou-lhes que passassem de largo.

Jeronimo Paes, sem se importar com esta voz, deu ainda alguns passos para diante. Rabelo mandou distribuir cartuchos e carregar. Então a multidão fez alto a respeitosa distancia.

- - Que querem, bandidos? Perguntou fora de se Cosme Bezerra, mal podendo suster as rédeas ao cavalo, pela cólera que o tomava. Bandido sois vós – respondeu Jeronimo Paes.

- A esta voz, Cosme pôs as pernas ao cavalo, cravou-lhe as esporas com movimento nervoso e atirou-se para a frente da multidão. Quando parou a três passos de Jeronimo Paes, trinta bacamartes tinham as bocas voltadas para ele. A seu lado tinham arrancado como arrastados no ímpeto vertiginoso da sua carreira, Diogo Maciel à esquerda, Filipe Cavalcanti e Luiz Vidal à direita, e atrás deles cerca de dez ordenanças bisonhas, mas animosas.

- - Podeis assassinar-me – disse Cosme. É o mais que podeis fazer, porque é só o que sabeis, miseráveis. Mas ainda que corra perigo a minha vida, como se me achasse diante de feras bravias, nem por isso hei de deixar passar sem oposição a vossa rebeldia. Quem fala em rebeldia! disse Jeronimo. Rebelde és tu, mazombo infame! disse para Cosme um dos filhos de Jeronimo.

E cinquenta, oitenta, cem vozes gritaram:

Tu é que és o rebelde, tu é que és o perturbador da ordem. Fora, fidalgos! Fora. Quando esta alarida serenou, ouviu-se a voz de Cosme Bezerra. Tinha todos os tons de cólera mal sofreada.

Goianistas, goianistas, gera em mim extremo pesar este vosso procedimento! Eu não falo aos mascates, falo a vós, povo de Goiana, que meia dúzia de estrangeiros ingratos tem desnorteado e pervertido.

- - Cala-te, cala-te, mazombo. Não te queremos ouvir. Sai de nossa presença, se não te queres arrepender. Infame canalha! Exclamou fora de se Cosme Bezerra, desembainhando a espada, e dando mostras de quem queria investir. Cosme, contende-vos, disse Filipe Cavalcanti, entrevendo os perigos que levantava contra se por suas palavras e gestos o capitão das ordenanças.

Seu aviso já não produziu o efeito saudável. O magote atirou-se sobre todos eles como vara de porcos do mato salta sobre imprudente caçador. Alguns tiros foram disparados, mas nenhuma morte se seguiu a eles. Os que pretendiam tirar a vida ao destemido capitão, cedo tiveram a prova de seu engano, vendo Cosme de espada nua abrindo caminho por entre a multidão. Seu cavalo, esse tinha sido derrubado pela descarga.

Cerca de dez minutos durava já a luta desigual de treze homens contra cem, que os queriam enlaçar, quando ao lado do Carmo apareceu uma mó de gente que corria para o ponto do conflito. Era uma parte da escravatura de João da Cunha que, com ele à frente, vinha a socorro dos parentes e amigos. Os tiros tinham servido ao senhor-de-engenho de aviso da luta próxima. Acompanhavam-no o feitor e outros moradores. Lourenço ficara com Germano, já então no sobrado e o restante dos escravos no armazém, guardando a casa.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7475767778...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →