Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Nesse corredor, que comunica a enfermaria com a capela do Senhor dos Passos, vê-se, à mão esquerda de quem vai para a enfermaria, uma pequena chapa de cobre pregada na parede, indicando o lugar onde se acham os despojos mortais de frei Fabiano de Cristo, e tendo a seguinte inscrição:
Ut quondam oegris quoerebas, Fabiane, salutem, Nunc etian votis auxiliare tuis.
Mas por que na casa humilde assim tão manifestamente se exalta a memória desse finado? Por que nas sepulturas dos religiosos todas as lousas são mudas, e apenas duas, e dessas duas aquela que caiu sobre a cova desse pobre leigo, falam com a voz da inscrição, anunciando o nome do religioso cujo cadáver escondeu no jazigo?
A estas perguntas, que certamente nos estais fazendo, vou responder, contando a história de frei Fabiano, como aliás já vos tinha prometido algures.
É a lenda de um santo que me cumpre repetir, e fá-lo-ei reproduzindo fielmente o que se encontra em livros e manuscritos do arquivo do convento.
Achar-se-ão nesta história belos exemplos da sublime virtude da caridade, e além deles, prodígios que a fé pôde receber, e sobre os quais não se deve emitir opinião alguma.
Eu não discuto. Limito-me a relatar com verdade o que li em papéis que me foram obsequiosamente confiados.
Frei Fabiano de Cristo, religioso leigo do convento de S. Antônio da cidade do Rio de Janeiro, era natural do arcebispado de Braga, no reino de Portugal. Veio ainda muito moço para o Brasil, e aqui no Rio de Janeiro tomou o hábito de franciscano capucho, com o qual viveu piedosamente durante quarenta e um anos, empregando desses não menos de trinta e sete em servir de enfermeiro com uma admirável caridade, e dando sempre exemplo de singulares virtudes. Aos 71 anos de idade, pouco mais ou menos, e aos 17 de outubro de 1747, faleceu, enfim, no mesmo convento de S. Antônio, sucumbindo a uma hidropisia e com o corpo martirizado por algumas chagas.
Era um homem tão venerando e de costumes tão irrepreensíveis que todos os religiosos capuchos e ainda as principais autoridades da casa o tratavam com o mais profundo respeito.
Apesar da sua modéstia e do seu recolhimento, frei Fabiano era conhecido e amado em toda a cidade; e diz-se que, freqüentes vezes, vinham ao convento enfermos ricos e pobres pedir ao simples leigo a sua intervenção perante Deus para conseguirem o seu restabelecimento, acrescentando-se que as orações e as preces de frei Fabiano eram de ordinário atendidas, e que muitos doentes lhe deviam assim a terminação dos seus sofrimentos ou a vida.
Efeitos naturais ou favores do Céu, essas curas davam ao pobre leigo uma grande reputação de santidade.
Um fato tradicional no convento de S. Antônio exibe o mais seguro e incontestável testemunho das sublimes virtudes da paciência e da caridade do ilustre religioso e devotado enfermeiro, que tanto se elevava pela humildade.
Achava-se num dos leitos da enfermaria um velho frade impertinente por gênio, pela idade e pela moléstia, e de caráter irascível e violento. Em uma noite, e já muito tarde, desejou tomar um caldo, e chamou o enfermeiro pelo toque da campainha.
Frei Fabiano acudiu imediatamente, e atendendo ao pedido do velho doente, não querendo incomodar o ajudante e os serventes da enfermaria, que sossegadamente dormiam, correu ele próprio à cozinha, a fim de preparar o caldo.
Alguns minutos depois, o frade recebia a sua xícara de caldo. Provando-o, porém, e não o achando do seu gosto, atirou com a xícara cheia de caldo quente ao rosto do bom e zeloso enfermeiro.
Frei Fabiano ficou com a face ferida e queimada. Insensível, porém, à dor e cheio de angélica paciência, disse:
– Perdoe-me, meu padre. Eu vou preparar-lhe outro caldo.
O frade, confundido por um procedimento tão edificante, desfez-se em lágrimas e, esquecendo a moléstia, lançou-se fora do jeito, caiu de joelhos e exclamou:
– Perdão! Perdoe-me pelo amor de Deus a ofensa que acaba de receber!
Frei Fabiano levantou o velho religioso em seus braços e chorou com ele.
No dia seguinte, o prelado, vendo o enfermeiro com o rosto ferido, e não podendo conseguir que ele lhe revelasse a causa daquele dano, impôs-lhe o preceito da obediência e mandou-o falar. Mas frei Fabiano, cedendo ao dever que o obrigava a acusar o velho frade, pôs-se de joelhos aos pés do prelado, e com um crucifixo na mão, pediu e obteve o perdão do ofensor.
Realmente, só uma grande alma é capaz de tanta virtude!
Conta-se ainda que frei Fabiano, vendo-se perigosamente enfermo, alguns dias antes do seu falecimento, despediu, com suaves consolações, os religiosos que o cercavam e anunciou-lhes o dia e a hora do seu passamento, que exatamente veio a verificar-se, como ele o predissera, no dia 17 de outubro de 1747, pelas duas horas da tarde.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.