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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

A pergunta que fez não teve outro fim senão saber do motivo que determinara a deliberação do marido para melhor compenetrar-se dela. 

— Por que foi então que o despachou, sr. Campelo? 

— Porque atreveu-se a pedir D. Flor. 

— Não é costume? 

— Nossa filha, D. Genoveva, não é para ser pedida, como qualquer moça aí do mundo. Não foi para isso que nós a criámos. Eu tinha-me lembrado dêsse Fragoso, mas êle adiantou-se e com tamanha arrogância, que já se julgava noivo. 

Passava de meio-dia, quando o capitão-mór chegou com sua família à Oiticica. 

D. Flor dirigira o cavalo para baixo da árvore a fim de apear-se na sombra. Arnaldo a seguira, e saltando em terra, ofereceu-lhe o ombro como um escabêlo. 

A donzela estava então encantadora. A agitação do passeio e os raios do sol tingiam-lhe as faces de uns laivos de púrpura, os olhos tinham um brilho vivo, e as lindas flores escarlates entrelaçadas em suas negras e bastas madeixas, formavam-lhe um toucado gracioso. Dir-se-ia que não eram flores, mas os sorrisos feiticeiros de seus lábios de carmim, que lhe serviam de jóisas para a fronte e de broche para o seio do roupão. 

Arnaldo, vendo aquelas flores que ainda mais formosa tornavam a donzela, sentiu o coração traspassado. 

— Tire estas flores! disse êle, ajoelhado junto ao estribo e com a voz suplicante.

— Por quê? perguntou a donzela admirada. 

— Têm veneno! balbuciou o sertanejo. 

— Devéras! tornou D. Flor com um riso de mofa. 

Arnaldo ergueu-se de um ímpeto, e antes que pudesse dominar o violento impulso de sua alma, arrancara da cbeça e do seio da donzela as flores, que arrojou ao chão, e esmagou com a ponta da bota, como se fossem um réptil venenoso. 

D. Flor, que já apeava-se, foi tomada de uma surpresa dolorosa; e pasma com aquela audácia, racíu sôbre a sela. No primeiro assomo de sua indignação não se lembrou quem estava diante dela e não cia alí senão um homem que tivera a insolência de tocá-la. 

A haste do chicotinho, brandida por sua mão irritada, vibrou no ar; mas a donzela tivera tempo de dominar êsse ímpeto de cólera. Retraiu-se em uma altiva dignidade. 

— Arnaldo! 

O sertanejo permanecia imóvel, e sofreu em silêncio, impassível, mas resoluto, a repreensão que provocara. 

— Não esqueça o seu lugar, Arnaldo, continuou D. Flor com severidade. A ternura que tenho à sua mãe não fará que eu suporte estas liberdades. A culpa é minha, bem o vejo. Se não lhe desse confianças, tratando-o ainda como camarada de infância, não se atreveria a faltar-me ao respeito. Lembre-se, porém, que já não é um menino malcriado; e sobretudo que eu sou uma senhora. 

— Minha senhora?… disse Arnaldo, carregando nessa interrogação com acerba ironia. 

— Sua senhora, não, tornou D. Flor com um tom glacial; não o sou; mas também, a-pesarde nos termos criado juntos, não sou sua igual. 

Arnaldo ajoelhou-se de novo como para oferecer a espádua à moça; e disse-lhe provocando-a com o olhar. 

— Se a ofendí, castigue-me; não tem na mão um chicote? 

— Não, e arrependom-me de meu primeiro movimento. Mas, se outra vez esquecer-se do respeito que me deve, Arnaldo, eu me queixarei a meu pai, para que êle o corrija. 

Ditas estas palavras no mesmo tom severo e altivo, a donzela acabou de abater o sertanejo com um olhar de rainha e afastou-se, encaminhando o animal para a casa. Pouco adiante saltou da sela, e foi reunir-se à mãe que também acabava de apear-se. 

Esta cena passou-se rapidamente, com um aparte ao movimento geral da desmonta. Entretidos consigo, os outros não perceberam a súbita ação de Arnaldo ao arrancar as flores, e o incidente que sobreveio. 

Erguera-se o moço sertanejo com arrogância ao ouvir o nome do capitão-mór com que o ameaçou D. Flor, e acompanhou a donzela com um olhar de desafio, até que ela entrou em casa. 

Então Arnaldo saltando de novo no sela, meteu as esporas no Corisco e disparou da ladeira abaixo. 

Correu direito ao Bargado; ia resolvido a desafiar o Marcos Fragoso, matá-lo para vingar nele a humilhação que acabava de sofrer, e depois deixar-se matar para assim punir-se do crime de haver ofendido o melindre de D. Flor. 

A fazenda do Bargado estava deserta, e Arnaldo apenas alí encontrou a família de um vaqueiro inválido, que ficara para guardar a casa. Disse-lhe a mulher que o capitão Marcos Fragoso tinha partido uma hora antes para Inhamuns levando toda a sua comitiva e mais o José Bernardo com a gente da fazenda. 

Desconfiou Arnaldo dessa partida precipitada, e receou que ela escondesse algum novo embuste. Desde que um perigo ameaçava a tranquilidade da família a quem se devotara e a segurança de D. Flor, o sertanejo esquecia-se de si, para só ocupar-se com a defesa dos entes que estremecia. 

Seu primeiro cuidado foi dirigir-se ao lugar da emboscada. Já não havia alí viva alma; todos os bandeiristas haviam desaparecido; mas ainda viam-se pelo chão as peias de rêlho, cortadas a ferro. 

Eis o que sucedera. 

(continua...)

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