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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Enovelou-se-lhe na garganta um godilhão de soluços e Raimundo sentiu a necessidade de ajoelhar-se defronte do silêncio daquele túmulo.

Manuel afastara-se discretamente, tossindo, para disfarçar a sua comoção. O moço enxugava as lágrimas, agora abundantes e fartas; depois encaminhou-se para uma outra cova mais adiante, abrigada por uma frondosa mangueira. Estava já vazia e com a lousa fora do lugar. Naturalmente, os parentes do cadáver haviam retirado dali os ossos para alguma igreja da capital. A posição da lápida da árvore serviram de resguardo ao epitáfio; Raimundo passou o lenço por ama dele e conseguiu ler o seguinte: “Aqui jazem os restos mortais de Quitéria Inocência de Freitas Santiago, filha extremosa, esposa exemplar; Casou em l5 de dezembro de l845 e faleceu em l849. Orai por ela.”

— Não há dúvida que, além de bastardo, descendi de uma tremenda vergonha! Meu nascimento combina aproximadamente com estes algarismos...

E, tendo monologado estas palavras, chegou ao fundo do cemitério e achou-se defronte de uma capela. Entrou, galgando três degraus escalavrados. Uma coruja fugiu espavorida. A luz triste da lua filtrava-se já pelas aberturas do telhado, mas pelas janelas entrava de rojo o quente lusco-fusco do crepúsculo. Raimundo, ao chegar à sacristia, estacou e estremeceu todo: o vulto esquelético e andrajoso, que lhe aparecera à noite, como um fantasma, ali estava naquela meia escuridão, a dançar uns requebros estranhos, com os braços magros levantados sobre a cabeça. O rapaz sentiu gelar-lhe a testa um suor frio e conservou-se estático, quase duvidoso de que aquilo que tinha defronte de si fosse uma figura humana.

Todavia, a múmia se aproximava dele, a dar saltos, estalando os dedos ossudos e compridos. Viam-se-lhe os dentes brancos e descamados, os olhos a estorcerem-se-lhe convulsivamente nas órbitas profundas, e a caveira a desenhar-se em ângulos através das carnes. Ora erguia as mãos, descaindo a cabeça; ora fazia voltas, sapateando e dando pungas no ar.

De repente deu com Raimundo e precipitou-se para ele de braços abertos. Na primeira impressão o rapaz recuava com repugnância, mas, caindo logo em si, aproximou-se da louca e perguntou-lhe se conhecia quem morara naquela fazenda. A idiota olhou para ele, e riu-se sem responder.

— Não conheceste o José da Silva ou José do Eito?

A preta continuou a rir. Raimundo insistiu no seu interrogatório mas sem obter resultado algum. A doida o considerava fixamente, como que procurando reconhecer-lhe as feições; de súbito, deu um salto sobre ele, tentando abraçá-lo; o rapaz não tivera tempo de fugir e sentiu-se em contacto com aquele corpo repugnante. Então num assomo nervoso repeliu-a bruscamente. Ela caiu para trás, estalando os ossos contra os tijolos do chão.

Raimundo saiu de carreira para reunir-se a Manuel, porém a idiota alcançou-o, já no cemitério, e arremessou-se de novo contra ele. — Não me toques! gritava o moço, com raiva, levantando o Chico Manuel acudiu correndo:

— Não lhe bata, doutor! Não lhe bata, que é doida! Conheço-a! — Mas, se ela não me quer deixar!... Sai! Sai, diabo! Olha que te

Manuel mostrava-se agoniado e surpreso.

— Já! disse ele, intimidando a louca. Já pra dentro!

A preta retomou-se humildemente.

— Quem é ela? perguntou Raimundo, lá fora, tratando de montar. O senhor disse que a conhecia.

Essa pobre negra... respondeu Manuel hesitante, foi escrava de seu pai.

Vamos!

E puseram-se a caminho.

CAPÍTULO XII

Voltaram ambos impressionados da tapara. Manuel tentara por duas vezes uma conversa que não vingara no ânimo acabrunhado do companheiro; Raimundo respondia maquinalmente às suas palavras, ia muito preocupado e aborrecido. Na dúvida da sua procedência e com a certeza do seu bastardismo, vinha-lhe agora uma estranha suscetibilidade; não sabia por que motivo, mas sentia que precisava, que tinha urgência, de uma explicação cabal do que levou Manuel a recusar-lhe a filha. “Com certeza estava ai a ponta do mistério!”

Ele o que queria era penetrar no seu passado, percorrê-lo, estudá-lo, conhecê-lo a fundo; encontrara até então todas as portas fechadas e mudas, como a sepultura de seu pai; embalde bateu em todas elas; ninguém lhe respondera. Agora um alçapão se denunciava na recusa de Manuel; havia de abri-lo e entrar, custasse o que custasse, ainda que o alçapão despejasse sobre um abismo.

E, tão dominado ia pela sua resolução que, ao passar pelo cruzeiro da Estrada Real, nem só deu por ele, como pelo guia que logo se pusera a caminho.

— Ó meu amigo! gritou-lhe o tio Isto também não vai assim!... Despeça-se deste lugar!

E apeou-se, para depor aos pés da cruz um galho de murta.

Raimundo voltou atrás e, depois de um grande silencio, fitou Manuel e perguntou-lhe. externando um retalho do pensamento que o dominava:

— Ela será, porventura, minha irmã?...

— Ela, quem?

— Sua filha

O negociante compreendeu a preocupação do sobrinho.

— Não.

(continua...)

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