Por Aluísio Azevedo (1897)
E, convencido do que pensava, deu um novo curso ao seu raciocínio: Ainda não eram duas horas; o vapor só levantaria ferro às seis e meia... Às três podia ele estar de volta, já entendido com o cocheiro, e apto por conseguinte a tomar qualquer resolução enérgica contra o Melo. Se fosse preciso, podia até queixarse à polícia... ali andava com certeza grande abuso! o que convinha era prevenir Ambrosina que se acautelasse contra alguma armadilha... O Melo Rosa pagaria caro aquela brincadeira! mas, por então, urgia que Gabriel se entendesse com Jorge...
— Onde está o escaler?! perguntou ao velho.
— Ali mesmo, patrão. É só descermos um pouco... Aqui é costa...
— Mas, preciso de um portador para as Laranjeiras, observou o rapaz, escrevendo um bilhete a lápis, no qual relatava à Ambrosina as suas desconfianças e lhe aconselhava toda a cautela com o Melo. É verdade! o carro em que vim pode servir. Chame o cocheiro.
O bilhete foi expedido, e Gabriel acompanhou o catraeiro até à entrada da praia do Flamengo.
— Aqui está o bote! disse o velho, apontando para um escaler preso ao cais. Isto é decidido! Corre que nem um carapau!
A embarcação, nova e garbosa, balouçavase voluptuosamente na cadência da vaga.
Fazia um tempo abrasador e cheio de luz.
A baía reverberava ao sol. As montanhas erguiamse cruamente do seio das águas, que as refletiam por inteiro.
Havia dois homens no escaler. O velho entrou nele agilmente e, depois de ajudar Gabriel a embarcar, assentouse ao leme, e gritou para aqueles em voz de comando:
— Toca!
Abriramse os remos, e o bote ganhou a baía arrancando um galão farto de cada vigorosa braceagem dos tripulantes.
Em breve distanciaram da terra, deixando atrás a fortaleza de Villegaignon.
O velho ergueu então a cabeça. O seu primitivo ar de ingenuidade desaparecera de todo, substituído por uma áspera catadura de lobo do mar.
— Ao largo! disse ele com autoridade.
— Para onde diabo vamos nós? perguntou Gabriel.
Não lhe responderam.
— Onde fica a tal ilha?
O mesmo silêncio.
— Mas, com todos os diabos! você zombam de mim?!
O velho, sem desfranzir as sobrancelhas, tirou do peito uma carta e entregoua ao seu interlocutor.
Era de Melo Rosa e dizia o seguinte:
"Caro Sr. Dr. Gabriel.
"Ao ler esta, estará V. S. cheio de apreensões e receios. Dissolvaos — nada lhe sucederá, a não ser o malogro da partida com Ambrosina.
"V. S. recuperará a sua liberdade somente à meianoite, quando a referida senhora já se achará comigo em viagem para fora do Império. Os homens, que V. S. tem defronte de si e que o guardam à vista, são de confiança e estão pagos para não o deixarem fugir; escusa, por conseguinte, tentar qualquer meio que for de encontro ao que determinei.
"Sinto que isto o faça ficar desapontado; mas o que quer? Tenho paixão por Ambrosina; ela consentiu em acompanharme, e eu lancei mão dos meios que pude para conseguilo.
"Adeus e perdoeme, se não pude evitar o desgosto que lhe dou.
"Seu amigo e criado. — M. R.".
Quando Gabriel acabou de ler a carta, os remadores haviam já recolhido os remos, e o escaler permanecia no mesmo ponto, a jogar suavemente à mercê das ondas.
O amante traído sentiase estrangular pela raiva. Crescialhe na garganta um novelo áspero que sufocava.
Suas primeiras palavras foram para pedir água. O velho apresentoulhe uma ancoreta cheia dágua e uma garrafa de conhaque.
Gabriel bebeu de ambos e ergueuse.
— Querem você enriquecer hoje mesmo?! perguntou ele aos homens.
Estes voltaram apenas o rosto.
— Doulhes uma boa quantia, se me puserem já em terra!
O velho sorriu e meneou negativamente a cabeça.
— Raios os partam! Miseráveis! exclamou Gabriel a esmagar na mão fechada em soco o seu chapéu de feltro.
Consultou o relógio; marcava três e meia. Se aquele maldito velho quisesse, ainda havia tempo de alcançar Ambrosina!
Pense bem... disselhe em voz baixa. O Senhor está velho, precisa descansar... Eu sou rico... posso darlhe com que adoçar os seus últimos dias...
— Quanto?...
— Uns cinco contos de reis...
— É pouco!
Dez!
— Deixeme vêlos?
— Ah! não os tenho aqui comigo, decerto, mas doulhos em terra...
— Já não como araras com penas!...
— Jurolhe, sob palavra, que lhe dou o dinheiro
— Mais vale um pássaro na mão que dois a voar!...
— Afiançolhe que os meus dez contos são mais seguros que outro qualquer pagamento!...
— Pois então assine um depósito da quantia...
— Assino! anuiu Gabriel, procurando o seu lápis.
— Não, ocorreu o outro; tenho cá com que pôr o preto no branco... e as competentes estampilhas.
E sacou da caixa de popa uma escrivaninha perfeitamente guarnecida, que passou às mãos do rapaz.
— Seu nome? perguntou este.
O velho respondeu firmemente:
— Antônio Leão Cerqueira, para o servir.
Gabriel lavrou o documento de dívida.
— Aí o tem... disse, entregandoo ao carteiro.
Este leu e releu o escrito, dobrouo depois, meteuo na algibeira das calças.
— Torce pra terra! rosnou aos tripulantes. E o escaler virou de bordo.
— Depressa! gritou Gabriel. Não temos tempo a perder! Depressa!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.