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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Bem sei quanto valeis, senhora prima, tornou Cosme. Mas é que difere muito atirar em rolinhas e sanhassús de atirar em salteadores afeitos a torcer o corpo às balas e aos mais mortais golpes.

- Seja como for, Sr. Cosme. Guardem os negros o baixo da casa, que eu guardarei o alto. Mas receio por meu marido, porque sei quanto o odeiam os mascates e a plebe.

- Nada o há de ofender. Demais, vamos apenas dar uma volta pelas ruas mais agitadas, disse Luiz Vidal.

E estaremos dentro em pouco tempo de volta, acrescentou João da Cunha. Como a esse tempo estavam já prontos os cavalos, desceram a montá-los os cavaleiros presentes. Antes de sair, João da Cunha entrou no armazém.

- Todos estão ai, Roberto? Perguntou ele, Roberto era o feitor. Todos, menos Germano, que ainda não voltou do engenho.

- Tem cuidado, Roberto, enquanto volto.

Senhor sim. Não há de acontecer nada. Nesse momento, de um bando que passava pela frente do sobrado, partiu um grito insultuoso, que veio ferir o senhor-de-engenho no coração:

- Morra o assassino! Morra a escopeteira !

João da Cunha, a modo de gelado de cólera, mal pode ir ter com os amigos que à porta da casa punham os pés nos estribos.

- - Conhecestes aquela voz, Sr. João? Perguntou-lhe, já montado Cosme Bezerra, mal podendo conter a raiva que o assaltara. Há de ser de algum vendido ao dinheiro de Coelho ou de Paes.

- É a voz desse rábula infame que imagina fundar em Goiana uma republica ateniense. - Quem? O Belchior?

Ele mesmo, esse velhaco, essa pústula do foro, que vive especialmente de promover a alforria dos negros dos engenhos para passar as unhas no magro cobre deles e fazer pirraça aos senhores. ninguém ainda se inculcou tão amante da liberdade, tão independente, tão probo como ele: a verdade, porém, é que ele não passa de um saltimbanco audaz, um charlatão formado em tretas e torpezas que despertam nojo. Mal acabadas estas palavras, novo bando que vinha nas pisadas do primeiro, parou diante da casa e repetiu o pregão, que ainda soava aos ouvidos dos fidalgos:

- Morra o assassino! Morra a escopeteira!

- Quereis saber, Sr. Cosme? disse subitamente o sargento-mór. Ide vós a vosso destino, que eu fico. Há de vir terceiro grupo parar em frente de minha casa, e é preciso que eu esteja presente para dar-lhe a resposta que merecem. Roberto, Roberto? Gritou João da Cunha da porta que punha em comunicação o armazém com a entrada. Carreguem as armas e venham colocar-se todos vocês em seus postos. Ao terceiro insulto quero ouvir soar o fogo.

- Os cavaleiros partiram, enquanto o sargento-mór, quase fora de si, subia para junto de sua mulher. Por seu gosto estaria nas ruas, promovendo a reação ou a contrarevolta. Mas compreendia que naquele momento não lhe era licito arredar-se de casa. Preste atenção, Sr. João da Cunha, disse-lhe d. Damiana, chegando a uma das janelas da sacada onde estava o marido. Não ouvis ruído de pancadas contra as portas na Rua-direita?

- Estou ouvindo. Quem sabe se já não é o saque?

- O saque!

- Quando a plebe se solta, é aí que vai parar. Mas onde está e o que tem feito desde a tarde Antonio Rabelo com sua força? Oh não poder eu sair!

Enquanto assim falava o senhor-de-engenho, Cosme corria à Rua-do-meio a tomar o comando da pequena força que se achava sob as ordens do alferes Maciel. Seus grandes espíritos não se compadeciam com a reação morna e frouxa. De caminho, ele descavalgava aqui para dar uma ordem, ou combinar uma providencia; arrojava-se acolá temerariamente sobre os adjuntos e impunha-lhes que se desfizessem. Se era atendido, passava; se não era, empregava meios indiretos de o ser. Esses meios eram a brandura, a persuasão, a ameaça. Faltava-lhe gente para desempenhar satisfatoriamente o papel que teve nesse, como nos principais motins de Goiana; mas todas as faltas supria admiravelmente sua intrepidez por todos reconhecida de há muito e glorificada depois pelo historiador.

Logo que tomou o comando da força, encaminhou-se com ela à cadeia, para onde tinham ido Luiz Vidal e Filipe Cavalcanti a reunir-se com Antonio Rabelo, receosos de que os amotinados tentassem soltar os presos.

Antonio Rabelo foi de parecer que se não procurasse dissolver os ajuntamentos.

- Onde temos nós gente suficiente para dissolver essas multidões numerosas, Sr. Capitão? Perguntou ele a Cosme. Guarnecem a cadeia dezesseis praças unicamente. Se daqui arredarem o pé, o povo levantado virá abrir as prisões, e aumentará com os criminosos o seu numero e a sua ferocidade. Vós não tendes ai convosco mais de vinte ordenanças. Julgais que com tão pequena força poderemos bater os rebeldes e ficar senhores do campo?

- Basta uma corrida forte e violenta sobre os inimigos, para que, cobrando medo, se dispersem.

- Estais enganado. Eles são muitos e não lhes faltam armas. Armas? Não as têm.

(continua...)

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