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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 Eram quatro horas da tarde, quando um homem à pé e coberto de pó chegava à tronqueira da fazenda do Aguiar. 

 Da janela do sobrado, onde por um excesso de prudência se fora postar, avistou o Aguiar ao caminheiro, em quem os capangas, agrupados no pátio, já tinham reconhecido Jão Fera. 

 Ligeiro calafrio correu pela medula desses homens valentes e avezados ao perigo. 

 Abriu o Bugre descansadamente a tronqueira, e avançou com a costumada pachorra para o terreiro, como quem entrasse por sua casa. Aí chegando, saudou o fazendeiro e outras pessoas com um toque no chapéu. 

 - Tenham todos boa-tarde. 

 Tão surpresos ficaram os outros daquele sossego, que nem se lembraram de responder à saudação. 

 - Aqui estou eu, meus senhores, na forma do prometido, tornou o Bugre com um triste sorriso. 

 O Filipe trocou um olhar com o patrão e acenando à sua gente, avançou para o Bugre. 

 - Pois renda-se, homem, que é o melhor. 

 - Alto lá, camaradas! disse Jão Fera vendo os capangas se aproximarem com intenção de agarra-lo. Não se cheguem muito. 

 - Deixe-se de partes! 

 - Os senhores sabem se eu tenho palavra. Estou aqui por minha vontade; e do mesmo modo irei para onde quiserem. O ajuste foi entregar-me; e me entrego mesmo. Mas se algum me puser a mão, está tudo perdido. 

 Retraiu o Bugre o pé esquerdo; e os ombros agitaram-se com uma ligeira contração, enquanto nos olhos torvos fuzilava um relâmpago. 

 Os capangas hesitaram; e a um aceno do fazendeiro, que do sobrado assistia à cena, Filipe acomodou a coisa. 

 - Está bom, camaradas, não zanguemos o homem. 

 - Para onde me levam? É para Campinas? Pois vamos lá! disse Jão Fera. 

 - Não há pressa. O senhor pousa aqui e amanhã com a fresca da madrugada nos botamos para lá. 

 O Bugre fez um gesto que exprimira indiferença; e sentando-se no ressalto da calçada, que havia no terreiro, preparou um cigarro e começou a pitar. 

 Mas nenhum dos capangas se animou a aproximar-se. Através do ar negligente e absorto da fisionomia do Bugre pressentia-se a viva atenção, que exercia em torno uma vigilância incessante. 

 À noite o Filipe convidou Jão Fera para cear com os outros camaradas. Ele, porém, recusou, contentando-se com um trago de aguardente. 

 Seriam nove horas e estavam todos acomodados no rancho, que ficava à direita do sobrado, quando Filipe sorrateiramente ergueu-se e passou fala aos camaradas. 

 - Enquanto não amarrarmos o danado, não sossego! 

 Convieram os outros e às agachas se foram acercando de Jão Fera, para cair sobre ele e segura-lo. 

 O capanga que não dormia, como eles pensavam, recebeu-os de frente: 

 - Ah! Vocês querem brincar? Pois vá lá! 

 Com o arrojo e destreza que ele possuía no mais alto grau, e o multiplicava, lançou mão de uma estava do rancho e espancou a troça do Filipe. 

 Depois de os ter sovado em regra, quando ia já em retirada, ouvindo a voz do Aguiar a perguntar pelo que havia, gritou-lhe de longe: 

 - A sua gente rompeu o ajuste; minha palavra está livre. Passe bem; mas fique descansado que eu lhe darei o pago deste desaforo. Há de ver se é bom ser amarrado como um negro fugido! 

 Deixando a fazenda encaminhou-se Jão Fera para Santa Bárbara, donde saíra aquela manhã, cuidando que nunca mais voltaria àqueles lugares. 

 O desfecho da traição do Aguiar o entristecia, e dentro de sua alma lamentava não estar àquela hora preso na cadeia de Campinas, ou enterrado no rancho da fazenda, onde algum dos capangas podia tê-lo facilmente prostrado com um tiro de melhor pontaria. 

 Incutia-lhe esse pesar o profundo pavor que dele se apoderava, pensando no seu encontro com Berta, e na indignação que sua presença devia causar à menina. 

 Por vezes parou, hesitando se devia retroceder. 

 

XXVI 

O cipó 

 

O fim da noite foi para Jão Fera um pesadelo horrível. 

 A todo instante fulgurava em sua alma, ao clarão de uma chama satânica, a cena atroz do assassinato de Besita. 

 Mais de cem vezes, no resto da noite, reviveu esse momento de acerba angústia, no qual toda sua existência submergia-se, como rio caudal pela estreita gorja de um precipício. 

 Revia com a mesma ânsia o vulto do Ribeiro, e sentia que após vinte anos ainda não cicatrizara em sua alma o golpe que a tinha dilacerado, quando foi ele, Jão, obrigado a rasga-la, ficando junto de Besita, e não perseguindo o assassino. 

 A voz da mísera mãe ressoava-lhe constantemente no íntimo, com aquele pungente grito de desespero:

- “Minha filha, Jão!... Ele... matá-la...”. 

 Revolvia-se o capanga na dura laje que lhe servia de leito; e tentava subtrair-se à obsessão, lembrando que não passava aquela visão de um desvario de seu espírito. 

 Mas surgia-lhe a imagem de Besita, que descia do céu para implorar-lhe a salvação da filha; e o capanga, impelido por força misteriosa, erguia-se de um ímpeto; e vagava à toa pelo ermo, à busca do ignoto perigo que ameaçava Berta. 

(continua...)

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