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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Aurélia tivera esta lembrança, no caminho do salão para o camarote; era uma excelente explicação de seu desaso de tomar à amiga o braço do marido, e o melhor pretexto para cortar de vez o desagradável incidente. 

Seixas acompanhou a mulher, sem a mínima observação. Entraram no carro; o cocheiro que não recebeu ordem alguma, dirigiu-se para Laranjeiras. D. Margarida Ferreira morava em Andaraí. 

Não vai à casa de sua madrinha? 

A resposta foi breve e seca: 

Não; já é tarde. 

Aurélia revoltava-se contra si mesma, por causa daquele momento de fragilidade. Como é que ela depois de haver arrebatado à sua rival o homem a quem amava, e de haver desdenhado esse triunfo, por indigno de sua alma nobre, dava a essa rival o prazer de recear-se de suas seduções? 

Descontente, contrariada, cogitava uma vindita desse eclipse de seu orgulho. 

- O que é o ciúme? disse de repente sem olhar o marido, e com um tom incisivo. 

Seixas compreendeu que aí vinha a refrega e preparou-se, chamando a si toda a calculada resignação de que se constumava revestir. 

- Exige uma definição fisiológica, ou a pergunta é apenas mote para conversa? 

- Acredita na fisiologia do coração? Não lhe parece um disparate, esta ciência pretensiosa que se mete a explicar e definir o incompreensível, aquilo que não entende o próprio que o sinta, e que sinta-se, sem ter muitas vezes a consciência desse fenômeno moral? Só há um fisiologista, mas esse não define, julga. É Deus, que formando sua criatura do limo da terra, como ensina a escritura, deixou-lhe ao lado esquerdo, por amassar, uma porção de caos de que a tirou. Quanto ao ciúme, todos nós sabemos mais ou menos a significação da palavra. O que eu desejava era saber sua opinião sobre este ponto: 

se o ciúme é produzido pelo amor? 

- Assim pensam geralmente. 

- E o senhor? 

- Como nunca senti, não posso ter opinião minha. 

- Pois tenho-a eu, e por experiência. O ciúme não nasce do amor, e sim do orgulho. O que dói neste sentimento, creia-me, não é a privação do prazer que outrem goza, quando também nós podemos gozá-lo e mais. É unicamente o desgosto de ver o rival possuir um bem que nos pertence ao cobiçarmos, ao qual nos julgamos com direito exclusivo, e em que não admitimos partilha. 

- Há mais ardente ciúme do que o do avaro por seu ouro, do ministro por sua pasta, do ambicioso por sua glória? Pode-se ter ciúme de um amigo, como de um traste de estimação, ou de um animal favorito. Eu quando era criança tinha-o de minhas bonecas. 

Aurélia calou-se à espera de réplica; prolongando-se a pausa continuou: 

- Um exemplo. Há pouco, no teatro, quando vi o modo por que a Adelaide Ribeiro lhe dava o braço, tive ciúmes do senhor. Entretanto eu não o amo, bem sabe, e não o posso amar! 

- Esta prova é decisiva. E a senhora não acredita na fisiologia? Quer melhor definição? O ciúme é o zelo do senhor pela coisa que lhe pertence. 

- Ou pessoa! acrescentou Aurélia com maldade. 

- Pela coisa que lhe pertence, insistiu Seixas; seja essa animada ou inanimada. 

- Temos ainda outra prova em favor de minha opinião. O senhor que amou tanto e tantas vezes, nunca teve ciúmes; há pouco me confessou. 

- E como o ciúme é o sintoma do orgulho, ou em outros termos, da dignidade, a conseqüência... 

- É lógica; mas eu a dispenso. Preferia que o senhor me recitasse alguma de suas poesias. Por exemplo – O capricho. 

 

III 

 

As partidas de Aurélia, ou recepções, como as chamava o Alfredo Moreira, à parisiense, eram das mais brilhantes que então se davam na corte. 

Sem galopes infernais e as extravagantes figuras que fazem das quadrilhas e valsas um perfeito corrupio de idos ou um remoinho de gente tocada da tarântula, reinava ali sempre uma animação de bom gosto que excitava o prazer e derramava a alegria sem amarrotar as moças, nem espremer as damas entre os cavalheiros. 

Aurélia descobrira um meio engenhoso de obter este resultado. Quando os rapazes que deviam dar o tom à reunião, se retraíam com fingidas esquivanças, e não se apressavam em tirar pares e trazê-los ao meio da sala, a dona da casa anunciava a quadrilha dos casados. 

Essa quadrilha, como o nome indica, era dançada unicamente pelos maridos com suas mulheres. Ninguém escapava; não se admitia isenção alguma, nem de idade, nem de moléstia. Aurélia era inflexível, e não havia de resistir à sua doce tirania. Se ela tinha desses caprichos despóticos e impertinentes, possuía em compensação um tacto superior para cativar a todos com sua fina e graciosa amabilidade. 

O disparate das idades e a obrigação do galanteio entre as duas caras metades, às vezes tão desencontradas, servia de divertimento geral, até aos próprios velhos reumáticos. As matronas gostavam interiormente desta fantasia que as remoçava, embora deitassem sua cafanga, como exigia a decência. 

(continua...)

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