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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

Instantes depois o moço sertanejo encontrava-se com o velho, que o levou ao lugar da emboscada. 

— Estão dormindo? 

— beberam tinguí. 

O velho referiu então rapidamente a Arnaldo o que fizera. 

Enquanto os bandeiristas agachados no mato espiavam a passagem da comitiva, Jó fôra aos alforges, tirara um caneco, enchera-o de aguardente em um dos odres; e esmagando entre os dedos ramas de tinguí, macerou-as depois dentro do espírito. Quando lhe pareceu que a tintura estava bastante forte, dividiu a aguardente pelas duas borrachas e teve o cuidado de as sacolejar. Sabendo que a gente da escolta fôra tinguijada pelo velho, Arnaldo estremeceu: 

— Envenenados? Todos?… 

— Tontos apenas. Deixa-os dormir descansados, e daquí a uma hora acordarão um tanto moídos e nada mais. 

— E a rapariga? 

— Bebeu pouco. 

— É preciso amarrá-la a ela e aos outros por segurança. 

Jó apoderou-se de Rosinha embrulhando-lhe a cabeça na mantilha. Arnaldo foi à várzea, matou um boi e o esfolou com a rapidez e destreza que tem neste, como em todos os misteres de seu ofício, o vaqueiro cearense. 

O couro foi imediatamente cortado em correias, com que o sertanejo peou de pés e mãos a toda a escolta, inclusive a Rosinha, passando em seguida, êle e Jó, a amordaçá-los pelo mesmo sistema. 

Na ocasião em que ligava os pulsos do Moirão, Arnaldo traçou-lhe com a ponta da faca uma cruz nas costas da mão direita, e tão ferrado estava no sono o minhoto que não sentiu o gume do ferro cortar-lhe a epiderme. 

 

IX - Repreensão 

 

Depois de combinar com Jó o que lhes restava a fazer, Arnaldo deixou o velho no lugar da emboscada e voltou ao sítio onde havia ficado a comitiva. 

Alí chegou, como vimos, ao terminar o almôço e contou ao capitão-mór a pega do Dourado. 

Quando, na ocasião de montarem os convidados para a volta, êle apresentou o baio a D. Flor, já tinha destruído completamente o efeito das artes do cigano. Desapareceu nessa ocasião; mas para acompanhar por dentro do mato a comitiva e observar melhor o jôgo do Fragoso. 

Viu o sinal dado. O cigano que também oculto no mato espreitava aquele sinal, soltou o canto da saracura e disparou a correr, passando perto de D. Flor. 

O baio não o seguiu como êle esperava; mas seguiu-o Arnaldo que breve o alcançou e, derribando-o da sela, puxou-o para dentro da espessura, onde o deixou peado como os companheiros. 

O sertanejo imitou então o canto da saracura, enquanto Jó espantava os cavalos emboscados, que partiram à desfilada na direção do Bargado. 

Marcos Fragoso, ouvindo a senha convencionada e o tropel dos animais, acreditou que D. Flor estava em seu poder, e despediu-se arrogantemente do capitão-mór, dando aviso aos companheiros para que o seguissem. 

Entretanto D. Flor e Alina transpunham o lugar da emboscada sem o menor acidente, e D. Genoveva moderava a marcha de seu cavalo para reunir-se ao marido e saber dele a razão da repentina partida do Ourém e seus companheiros. 

Ao passar por diante de Arnaldo oculto na espessura, D. Flor perguntava a Alina.

— Onde estão suas flores, menina? 

— Que flores, Flor? retorquiu a moça, brincando com a palavra. 

— As que nos trouxe o Marcos Fragoso. 

— Deixei-as ficar, respndeu Alina com indiferença. 

— Pois das minhas fiz um aderêço! Olhe! disse a gentil donzela, apontando para os pingentes escarlates que lhe ornavam o colo e os cabelos. Não parecem rubís. 

— São muito galantes; mas eu prefiro esta que você me deu, tornou Alina sorrindo e mostrando a umbela que Arnaldo colhera, e que ela trazia ao seio. D. Flor ficou séria e fustigou o baio, que partiu a galope. 

O capitão-mór havia alcançado D. Genoveva; e referia-lhe agora quanto se passara com o Marcos Fragoso, desde o pedido que êste lhe fizera da mão de D. Flor, até à recusa formal e terminante que recebera. 

D. Genoveva, quando pela primeira vez, quinze dias antes, conversara com o capitão-mór acêrca dêsse particular, mostrara-se inclinada ao sobrinho Leandro Barbalho, e até dera a entender que não tinha em bom conceito ao Marcos Fragoso. 

Desde, porém, que o capitão-mór decidira-se por êste, ela como fiel espôsa, habituada a identificar-se completamente com a vontade do marido, passou a considerar Marcos Fragoso já como o noivo de sua querida Flor. 

O mais ardente desejo da boa mãe era vera filha casada, embora quando pensava nisso estremecesse com a idéia de uma separação por mais breve que fosse. A êsse respeito, porém, a tranquilizava o capitão-mór, que estava resolvido a impor ao futuro genro a condição de viver debaixo do mesmo teto. 

O desfecho da pretensão do Marcos Fragoso devia, pois, entristecer a D. Genoveva, que viu adiado o casamento por ela tão ardentemente desejado. A boa senhora não compreendia o motivo que tivera o capitão-mór para recusar um genro que êle mesmo, de sua própria inspiração, havia escolhido entre outros e preferido a todos. 

Mas ela acatava as decisões do marido, e não tinha o costume de discutí-las, pois depositava a maior confiança na prudência, como no amor, daquele a quem havia unido o seu destino. 

(continua...)

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