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#Romances#Literatura Brasileira

O Moço Loiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1845)

— E sonha muitas vezes?...

— Faço ainda mais, mãe Sara: quando não posso sonhar, invento sonhos.

— Mas, meu filho, isso também é mentir; e, portanto, é pecado.

— Há certos pecados que Deus perdoa facilmente; porém, como lhe dizia, esta noite tive dois sonhos... e um com mãe Sara!

— Comigo?...

— Sem dúvida; mãe Sara é bem pobre, não é assim?...

— É verdade, mas não da graça de Deus.

— Pois eu sonhei que me ia hoje embora, e, querendo dar-lhe algum dinheiro, mãe Sara o não quis receber...

— E era isso o que havia de acontecer.

— Obrigado... obrigado... nem eu me atrevia a oferecer-lhe nada; mas o sonho continua... e amanheceu o dia de amanhã... mãe Sara acordou e achou debaixo do travesseiro uma carteira cheia de dinheiro...

— E quem a tinha posto lá?... perguntou rindo-se a velha.

— Provavelmente a mão de algum gênio benfazejo.

— E depois?...

— Mãe Sara ficou com o dinheiro, e acabou-se o sonho.

O moço loiro ria-se agradavelmente, observando a impressão que seu sonho produzia na pobre velha; depois de alguns instantes de silêncio, ela perguntou:

— E o outro sonho feiticeiro?

— O outro... o outro é com Miguel; eu queria repeti-lo à vista dele, porém mãe Sara lho contará.

— Vamos lá; e nada de inventar.

— Eu sonhei que ontem à noite tinha vindo uma moça visitar a mãe Sara...

A velha olhou espantada para o moço.

— Sonhei até que essa moça se chamava... se chamava... espere que me lembro... chamava-se Raquel!

— É possível...

— Sonhei que Miguel tinha faltado à sua promessa, contando à moça tudo quanto havia a meu respeito...

— Perdão, meu filho! exclamou a velha, perdão para Miguel; porque tudo isso é verdade!...

— Ah! é verdade?... melhor: pobre Miguel! se fosse eu, tinha feito ainda mais, inventava uma história bem comprida e mentia, como é de meu costume... pobre Miguel! por isso não o estimo eu menos.

— Meu bom filho!... feiticeiro!... feiticeiro!...

— Espere, mãe Sara; o sonho continua. Sonhei que a moça veio observar-me da porta do quarto... como era bonita!...

— É verdade... tudo verdade...

— Sonhei que logo depois ela entrou em outro quarto... no seu, mãe Sara; e foi escrever a uma amiga... também muito bonita, muito, mãe Sara! essa então era mais bonita ainda!... ora bem: quando a moça estava fechando a carta, chegou o pai, que a vinha buscar, e ela correu à sala...

— Sim... sim... foi assim mesmo.

— Agora o resto é melhor ainda: sonhei que eu me ergui da cama, e, encostando-me pelas paredes, fui pé por pé ao quarto de mãe Sara, abri a carta que a moça tinha escrito... oh! o ladrão da moça escreve bem!... mãe Sara, eu beijei a carta!...

— Brejeiro!... brejeiro!...

— E depois... olhe que tudo isto é sonho; depois eu virei a folha e escrevi no verso duas ou três linhas com quanta pressa podia; feito isto, retirei-me, e fingi outra vez dormir.

— Agora é muito! se fosse verdade...

— Estou dizendo que é sonho, mãe Sara, sonho só; olhe, pergunte à moça se, quando ela me observou, eu não estava dormindo; porém, mãe Sara, não me deixa acabar nunca!...

— Acabe... acabe, meu filho.

— Sonhei que, apenas tinha eu deixado o quarto, a moça tornou a entrar, e, selando a carta, entregou-a a Miguel.

— É tudo verdade.

— Sonhei, enfim, que a moça partiu com o pai para sua casa, e Miguel para Niterói... lá, Miguel entregou a carta... mãe Sara; no meu sonho eu vi também a outra moça lendo; ainda uma vez... como era bonita!...

— Meu filho, se isso é um sonho, foi um poder sobrenatural quem o fez tê-lo, para castigo de Miguel...

— Pobre Miguel! não falemos dele... eu o perdôo de todo o meu coração!... por conseqüência, tudo o que eu sonhei foi realidade?... — Pelo menos quase tudo...

— Ah! mãe Sara!... se se realizasse o resto...

— Pois ainda temos mais?...

— A última parte.

— Então acabe.

— Eu dizia que a moça que recebeu a carta era muito bonita... encantadora, mãe Sara!... pois bem... no meio de tudo isto... sonhei que me tinha casado com ela...

— Extravagante!...

— Despertei, soltando um grito de alegria...

— Enfim?...

— Achei-me, quando procurei minha mulher, só... com a cabeça quebrada... cheio de sangue... aborrecido de mim mesmo...

— Louco!... e por isso se faz de repente tão triste!

Nesse momento ouviu-se um sino que dava horas.

— Que horas são?... perguntou o moço com vivacidade.

— Uma.

— Mãe Sara, a minha galinha?...

— Às duas horas.

— Que fome, meu Deus!... que fome!... que fome!... A velha desatou a rir.

XXIII

Afilhado

Ouvindo o sinal das oito horas, Miguel correu para junto do templo do Carmo e, bem não eram ainda passados cinco minutos, logo viu chegar cuidadoso e apressado um menino, que era por força aquele de quem o moço loiro lhe dera os sinais.

(continua...)

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