Por Adolfo Caminha (1893)
Meses depois, quando Maria do Carmo apresentou-se na Escola Normal para concluir o curso interrompido, estava nédia e desenvolta, muito corada, com uma estranha chama de felicidade no olhar. A sua presença foi como uma ressurreição. — A Maria do Carmo, hein?! Nem parecia a mesma! — Houve um alarido entre as normalistas: abraços, beijos, cochichos... Até o edifício tinha-se pintado de novo como para recebê-la!
O programa era outro, mais extenso, mais amplo, dividido metodicamente em
Educação Física, Educação Intelectual, Educação Nacional ou Cívica, Educação Religiosa... pelos moldes de H. Spencer e Pestalozzi; o horário das aulas tinha sido alterado, havia uma escola anexa de aplicação, estava tudo mudado!
A esse tempo um grande acontecimento preocupava toda a cidade. Liam-se na seção telegráfica da Província as primeiras notícias sobre a proclamação da república brasileira. Dizia-se que o barão de Ladário tinha sido morto a pistola por um oficial de linha, na praça da Aclamação, e que o imperador não dera uma palavra ao saber dos acontecimentos, em Petrópolis.
O Ceará estremecia a esses boatos. Grupos de militares cruzavam as ruas, ouviam-se toques de corneta no batalhão e na Escola Militar. Tratava-se de depor o presidente da província, um coronel do exército. Os canhões La Hitte, da fortaleza de N. Sra. d’Assunção, dormiam enfileirados na praça dos Mártires, defronte do Passeio Público guardados por alunos de patrona e gola azul.
Ninguém se lembrava de escândalos domésticos nem de pequeninos fatos particulares.
Um homem revoltava-se, indignado com o novo estado de coisas — era João da Mata.
— É boa! bradava ele na bodega do Zé Gato, esmurrando a mesa. Isto é um país sem dignidade, uma nação de selvagens! Expulsar do trono um monarca da força de Pedro II, mandá-lo para o estrangeiro doente e quase louco, é o cúmulo da ignorância e da selvageria!
E Maria do Carmo, agora noiva do alferes Coutinho da polícia, via diante de si um futuro largo, imensamente luminoso, como um grande mar tranqüilo e dormente.
FIM
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.