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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

Padre Antônio remara toda a tarde, subindo vagarosamente o Canumã, vencendo a custo a correnteza que o arrastava para o lago, como se uma força oculta o quisesse desviar da arriscada tentativa. Depois do jantar, que foi mesmo a bordo, ao cair da noite de treze de agosto, tratara de procurar um lugar em que ele e o companheiro pudessem repousar os membros fatigados. O problema, pensava, não era de fácil solução.

Era preciso amarrar a canoa em lugar que a abrigasse de alguma ventania noturna ou dessas rápidas tempestades dos países quentes, terríveis e imprevistas, despedaçando as florestas e convulsionando os rios. Ao mesmo tempo convinha não esquecer os perigos de terra, não menos de temer naquele trecho do Canumã, de aspecto tão diverso do que lhes oferecera ao desembocar no lago de que tira o nome. As ribanceiras eram altas, corridas a prumo, como se o Canumã, à semelhança do Amazonas, se ocupasse em devorar as margens, ameaçando espraiar-se até a raiz da cordilheira que padre Antônio divisava ao longe, enquadrando o vale numa cercadura azul. A beira do rio parecia coberta de aningais cerrados e doentios, que se compraziam num solo inconsistente e úmido, e defendiam-se da correnteza com uma larga faixa de densa canarana, dum verde cambiante. A noite enchia o céu, entenebrecendo o horizonte, depois dum rápido crepúsculo. Padre Antônio amolecia o remo, olhando para todos os lados, hesitando. Amarrar a canoa muito perto da terra, além de a sujeitar ao risco do desmoronamento das ribanceiras, era expô-la ao ataque das onças, protegidas pela escuridão do mato e pela frouxidão do solo. Fundear ao largo sem um mará que a garantisse contra a correnteza, impedia aos viajantes o sono repousado em terra, ao menos que não se aventurassem por entre as canaranas nos domínios da cobra e do jacaré. Não havia remédio senão continuar a viagem até que encontrassem um bom porto para o desembarque.

— Ali! exclamou de repente o Macário, lobrigando à última claridade do crepúsculo uma língua de terra que num trecho de cerca de três braças entrava pela água dentro, forçando a correnteza a desviar-se e formando um remanso. Por efeito do desabamento da ribanceira a margem abaixava-se numa pequena praia. Não havia mais hesitação possível. A noite já os impedia de viajar livremente.

Padre Antônio aproou a montaria para a beira.

— Desça e amarre a canoa, ordenou.

Macário arregaçou as calças até os joelhos, resmungou, tirou fora os sapatos e atirou-se à água. Mas imediatamente soltou um grito estridente, titubeou e foi cair de ventas sobre a terra mole da pequena praia improvisada.

O sacristão de Silves, repimpado sobre um montão de folhagem com que procurava evitar a umidade do solo, agitava-se como se o diabo lhe tivesse entrado no corpo por fenômeno de incubação. Eram murros no ar, sacudidelas de braços, cabeçadas no espaço, exclamações de ódio e rancor que lhe saíam em atropelo dos lábios espumantes para permitir a entrada repentina na cavidade bucal de alguma atrevida muriçoca, doida por chupar-lhe o véu do paladar, e logo após expectorada, nadando em saliva, numa grande careta de enjôo. Era um espetáculo estranho e fantástico, que o padre observava da montaria em que ficara, esse do Macário, sentado à beira do rio, junto a uma grande fogueira, com a frente aureolada por um enxame de insetos alados, e a vociferar imprecações de toda sorte, sacudindo os braços, as pernas, o tronco, num movimento desordenado e contínuo, como se estivesse atacado da dança de S. Guido. Dir-se-ia um feiticeiro que no silêncio da noite e da solidão, entregava-se aos mistérios da sua arte diabólica, invocando os espíritos familiares para os lançar contra a humanidade, ou algum pobre tapuio louco que se ensaiasse para o religioso sairé, dançando ao som de instrumentos imaginários.

Padre Antônio também não se sentia a gosto, forçado a repousar na montaria, porque a ardente preocupação com que deixara o sítio de Guilherme não lhe dera a calma necessária para cuidar em todos os preparativos duma viagem que devia durar muitos dias por inóspitas regiões, e agora, naquela noite cálida de agosto, à margem alagadiça daquele trecho do Canumã, sem cômodo e sem abrigo, começava a convencer-se de que os inumeráveis inimigos do sossego noturno, de diversas espécies e famílias, mudos e canoros, visíveis ou ocultos, venenosos ou simplesmente incômodos que estavam perseguindo atrozmente o pobre Macário, nem sequer lhe permitiriam a ele uma meditação profunda e tranqüila. Os mosquitos, os carapanãs, os piuns, as muriçocas, os pernilongos atiravam-se com uma gana desenfreada à iguaria rara e delicada daquela epiderme branca e daquele sangue ardente, parecendo buscar na fácil empresa uma compensação da luta velha contra a pele grossa, oleosa e repintada do caboclo que habita os seus domínios. Não havia meio de dormir ou sequer estar quieto, com as ferroadas agudas dos sanguinários bichinhos que lhe deixavam no corpo ampolas e inflamações de mau agouro.

(continua...)

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