Por Aluísio Azevedo (1890)
Piedade entrou carrancuda na estalagem; não vinha triste, vinha enfurecida; soubera na rua a respeito do marido mais do que esperava. Soubera em primeiro lugar que ele estava vivo, perfeitamente vivo, pois fora visto aquele mesmo dia, mais de uma vez, no Garnisé e na Praia da Saudade, a vagar macambúzio; soubera, por intermédio de um rondante amigo de Alexandre, que Jerônimo surgira de manhãzinha do capinzal perto da pedreira de João Romão, o que fazia crer viesse ele naquele momento de casa, saindo pelos fundos do cortiço; soubera ainda que o cavouqueiro fora à Ordem buscar a sua caixa de roupa e que, na véspera, estivera a beber à farta na venda do Pepé, de súcia com o Zé Carlos e com o Pataca, e que depois seguiram para os lados da praia, todos três mais ou menos no gole. Sem a menor desconfiança do crime, a desgraçada ficou convencida de que o marido não se recolhera aquela noite à casa, porque ficara em grossa pândega com os amigos e que, voltando tarde e bêbedo, dera-lhe para meter-se com a mulata, que o aceitou logo. "Pudera! Pois se havia muito a deslambida não queria outra coisa!..." Com esta convicção inchou-lhe de súbito por dentro um novelo de ciúmes, e ela correu incontinente para a estalagem, certa de que iria encontrar o homem e despejaria contra ele aquela tremenda tempestade de ressentimentos e despeitos acumulados, que ameaçavam sufocá-la se não rebentassem de vez. Atravessou o cortiço sem dar palavra a ninguém e foi direito à casa; contava encontrá-la aberta e a sua decepção foi cruel ao vê-la fechada como a deixara. Pediu a chave à Machona, que, ao entregá-la, inquiriu sobre Jerônimo e pespegou-lhe ao mesmo tempo a noticia do assassinato de Firmo.
Com esta nova é que Piedade não contava. Ficou lívida; um pavoroso pressentimento varou-lhe o espírito como um raio. Afastou-se logo, com medo de falar, e foi trêmula e ofegante que abriu a porta e meteu-se no número 35.
Atirou-se a uma cadeira. Estava morta de cansaço; não tinha comido nada esse dia e não sentia fome; a cabeça andava-lhe à roda, as pernas pareciam-lhe de chumbo.
Seria ele?!... interrogou a si própria.
E os raciocínios começaram a surdir-lhe em massa, ensarilhados, atropelando-lhe a razão. Não conseguia coordená-los; entre todas uma idéia insubordinava-se com mais teima, a perturbar as outras, ficando superior, como uma carta maior que o resto do baralho: "Se ele matou o Firmo, dormiu na estalagem e não veio ter comigo, é porque então deixou-me de feita pela Rita!"
Tentou fugir a semelhante hipótese; repeliu-a indignada. Não! não era possível que o Jerônimo, seu marido de tanto tempo, o pai de sua filha, um homem a quem ela nunca dera razão de queixa e a quem sempre respeitara e quisera com o mesmo carinho e com a mesma dedicação, a abandonasse de um momento para outro; e por quem?! por uma não-sei-que-diga! um diabo de uma mulata assanhada, que tão depressa era de Pedro como de Paulo! uma sirigaita, que vivia mais para a folia do que para o trabalho! uma peste, que... Não! Qual! Era lá possível?! Mas então por que ele não viera?... por que não vinha?... por que não dava noticias suas?... por que fora pela manhã à Ordem buscar a caixa da roupa?...
O Roberto Papa-Defuntos dissera-lhe que o encontrara às duas da tarde ali perto, ao dobrar da Rua Bambina, e que até pararam um instante para conversar. Com mais alguns passos chegado à casa! Seria possível, santos do céu! que o seu homem estivesse disposto a nunca mais tornar para junto dela?
Nisto entrou a outra, acompanhada por um pequeno descalço. Vinha satisfeita; estivera com Jerônimo, jantaram juntos, numa casa de pasto; ficara tudo combinado; arranjara-se o ninho. Não se mudaria logo para não dar que falar na estalagem, mas levaria alguma roupa e os objetos mais indispensáveis e que não dessem na vista por ocasião do transporte. Voltaria no dia seguinte ao cortiço, onde continuaria a trabalhar; à noite iria ter com o novo amante, e, no fim de uma semana — zás! fazia-se a mudança completa, e adeus coração! — Por aqui é o caminho! O cavouqueiro, pelo seu lado, mandaria uma carta a João Romão, despedindo-se do seu serviço, e outra à mulher, dizendo com boas palavras que, por uma dessas fatalidades de que nenhuma criatura está livre, deixava de viver em companhia dela, mas que lhe conservaria a mesma estima e continuaria a pagar o colégio da filha; e, feito isto, pronto! entraria em vida nova, senhor da sua mulata, livres e sozinhos, independentes, vivendo um para o outro, numa eterna embriaguez de gozos.
Mas, na ocasião em que a baiana, seguida pelo pequeno, passava defronte da porta de Piedade, esta deu um salto da cadeira e gritou-lhe:
— Faz favor?
— Que é? resmungou Rita, parando sem voltar senão o rosto, e já a dizer no seu todo de impaciência que não estava disposta a muita conversa. — Diga-me uma coisa, inquiriu aquela; você muda-se?
A mulata não contava com semelhante pergunta, assim à queima-roupa; ficou calada sem achar o que responder.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16534 . Acesso em: 15 mar. 2026.