Por Aluísio Azevedo (1882)
— Não podes ter mulher, não é isso?... Ora escuta lá e depois me darás a resposta...
— Então já tens um programa?! perguntou Portela, a sorrir.
— Um programa? Sim, e tenho também coisa ainda melhor! tenho um dote, disse ela; um dote em ações, que me fez meu marido por ocasião de casarmos...
— E daí?... perguntou o rapaz.
— Daí é que deixamos o Rio de Janeiro; metemo-nos em qualquer província ou onde melhor te pareça, e tu te estabeleces com o meu dote, o que será fácil, pois, com o talento que possuis para o comércio...
— Isso é asneira!
— Asneira, por quê?!
— Porque, desde que abandones o comendador, nenhum direito terás ao dote que ele te fez.
— Diz a Chiquinha que não.
— A Chiquinha não entende disto!
— Eu então não tenho direito a coisa alguma?!
— Sei cá; só um advogado o poderia dizer...
— O que me parece é que tu não tens vontade de ficar comigo...
— Não sejas tola! Se não tivesse já o teria declarado há mais tempo.
E, depois de guardarem ambos um silêncio de alguns segundos, Portela disse vagamente:
— Se o comendador se lembrasse de morrer agora!... Isso é que seria obra!...
Teresa olhou para o rapaz com um ar cheio de interrogações.
— É! justificou ele; se o comendador morresse, as coisas correriam naturalmente... Eu casava-me contigo, estabelecia-me, e iríamos viver juntos, independentes e felizes...
E acrescentou, depois de uma pausa:
— Imagina que amanhã teu marido amanhece indisposto. Vem o médico e declara que a moléstia não é de cuidado. "Achaques da velhice!" Recomenda regularidade na vida, abstinência de uns tantos prazeres e receita qualquer calmante. O comendador principia a tomar o remédio, mas, de dia para dia, se vai sentindo pior. Afinal, uma bela manhã, quando ninguém espera por isso, encontra-se o homem morto... O médico passa o seu atestado; tu te cobres de luto, recebes as visitas de pêsames das amigas, choras naturalmente em presença de algumas delas, e, um ano depois, os nossos amigos lêem com prazer a notícia do nosso casamento... Uma vez casados, iríamos morar aí em qualquer arrabalde, escolheríamos um chalezinho próprio para a lua de mel... Eu tratarei de te fazer esquecer a perda de teu comendador, e tu serias minha, minha, sem sobressaltos, nem receios ridículos, pertencendo-me a todas as horas e a todos os momentos!
E Portela, depois de beijar e abraçar a amante, continuou como se falasse em um sonho:
— Parece que já me vejo dentro dessa felicidade, voltando à tarde aos teus braços, cansado do trabalho, comido pela fadiga, mas com o coração satisfeito por encontrar-te em casa alegre, viva, contente com o nosso amor! Parece que pressinto as nossas noites de casados: calmas, doces, descansadas!
Teresa suspirou.
— Devia ser delicioso!... continuou Portela. Uma existência completa entre nós dois!... A mesa bem provida; a casa bem iluminada; o amor bem confortado!...
— Cala-te! disse Teresa.
— Além disso, os passeios, os bailes, as noitadas de palestra com os amigos, em volta à mesa de chá. Depois a nossa independência, o nosso bem-estar, a nossa felicidade!...
Teresa ficou pensativa.
— Não achas que tudo isso seria muito melhor?... perguntou-lhe o rapaz, beijando-lhe os braços carnudos.
— Se acho!...
— Pois olha que está tudo em tuas mãos! segredou ele.
— Hem?! Como?! Estás gracejando!
— Não! Para tudo isso era bastante que o comendador morresse.
Teresa estremeceu e abaixou os olhos, receosa de compreender o pensamento do amante.
— Vês este frasquinho? perguntou Portela, tirando um frasco de uma gaveta. Tem cinqüenta gotas. Dando-se uma delas por dia ao comendador, no fim de um mês ele morreria, sem que ninguém soubesse qual o motivo...
— Veneno!
— Sim, mas muito lento!... É um veneno quase inocente...
— Não tenho ânimo de fazer isso! balbuciou Teresa, perturbada em extremo.
— Nem eu te aconselho que o faças; apenas disse que, se nos tivéssemos de desembaraçar dele, devíamos preferir este expediente a outro qualquer...
— Ele me ama tanto!...
— Pois então, filha, deixa-te ficar como estás. Ora essa!
— Mas eu não o posso suportar!
— Não o suportes!
— Mas não posso mais viver sem o teu amor!
— Então não sei o que te faça!
— Antes, fugíssemos! Ficaríamos, bem sei, em uma posição muito mais falsa, mas teríamos ao menos a consciência tranqüila...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.