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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

Mas Ambrosina o tranqüilizava: Que não se incomodasse ele absolutamente com as malas; ela se encarregaria de tudo. Gabriel que fosse tratar de saber se Jorge tomara as providências necessárias para prender Melo Rosa.

Isso é que mais urgia!

Gabriel, porém, onde poderia encontrar o cocheiro?... Em casa era inútil procurá­lo àquela hora; já passava das onze. Saiu. Foi à residência do padrasto nada obteve. A criada, todavia, disse­lhe que o cocheiro pouco antes ganhara a rua muito azafamado.

— Onde o poderei encontrar agora?...

Gabriel desceu preocupadamente a escada; levava o chapéu atirado para trás, a cara Talvez no largo de 5. Francisco... banhada de suor.

Ao chegar à porta, encontrou um portador de Ambrosina à sua espera.

O que temos.? perguntou surpreso.

— Esta carta, que a patroa mandou entregar a vossemecê com toda a pressa.

— Que novidade será?

Era a carta combinada entre Ambrosina e Melo Rosa no sobrado da rua da Misericórdia.

Gabriel sobressaltou­se ao lê­la. Ora, mais essa! O Jorge sofrer aquele dia uma penhora! Era só o que faltava!

— Mas, com os diabos! exclamou ele, consultando o relógio. Não há tempo a perder! Praia do Russell! A toda a força! gritou ao cocheiro, volvendo ao seu carro.

E o carro disparou como um raio.

Apeou­se defronte da casa do Jorge. Um velho de longas barbas, estava assentado ao limiar da porta, saiu­lhe ao encontro e perguntou com ar triste:

— O senhor naturalmente é o Dr. Gabriel?...

Sim. Que é do Jorge?

— Não me pergunte por ele! Uma grande desgraça!

E o velho limpou os olhos.

Gabriel deu um passo para entrar na casa do cocheiro.

— Não entre! exclamou o outro, sempre comovido. Não está aí ninguém!... A justiça fez a sua visita e não se pode tocar no que lá está! O senhor bem sabe que o Jorge não pode apresentar o dinheiro e...

— Mas, que dinheiro? Que trapalhada é esta? O que tudo isto quer dizer? Explique­se por uma vez!

O velho fez um gesto de tolo, e falou confusamente em penhora, em dívida, em homens armados, mas sem explicar ao certo cousa alguma.

— Cada vez entendo menos! disse Gabriel, já impaciente.

E releu o bilhete de Ambrosina, que tirara da algibeira.

— Uma grande desgraça! respirava de vez em quando o velho, a sacudir tristemente a cabeça.

— No fim de contas, o que faz você aqui?...

— O Jorge disse­me que o esperasse..

— A quem, homem?!

— Ao senhor...

— E para quê?

— Para lhe dizer o que se passou e indicar­lhe o lugar em que ele está...

— Pois, se foi para você dizer­me o que se passou nesta casa que Jorge o deixou aqui, podem os dois limpar as mãos à parede, porque fiquei na mesma! Não haverá por aí alguém com quem me entenda!...

— Não há, não, senhor... Foram todos para a Ilha...

— Que ilha, criatura?

— A ilha dos Cães...

— Mas que diabo foram fazer lá? O que demônio aconteceu aqui?

— Para falar a verdade, não sei, meu rico senhor... Não entendo destas cousas! Sou amigo velho do Jorge... cá estava a cavaquear um pedaço com ele, quando chegam dois sujeitos, armados de tinteiro, pena e papel, e vão entrando, sem mais nem menos, pela casa, a tomarem nota de tudo que encontram... O Jorge pôs­se a chorar como um perdido... Quatro homens, que acompanhavam os do tinteiro, lançam­lhe a mão e o intimam a seguir para a ilha! Ora, aí está tudo o que se passou!

— E ele foi?...

— Foi, sim, senhor! E pediu­me, por tudo, que não saísse aqui da porta enquanto V. S. não chegasse e recebesse o recado...

— Que recado?...

— O recado é que ele pede à V. S. que faça o favor de dar um pulo até lá onde ele está. É questão de um instante! O Jorge deixou um escaler já preparado. Se V. S. quiser, eu o levo e trago num abrir e fechar de olhos!...

Gabriel hesitava perplexo; consultava o relógio e a carteira. Que significaria tudo aquilo... A carta de Ambrosina e as vagas palavras daquele velho idiota punham­lhe a cabeça a arder.

— Sabe se, antes da chegada do tais sujeitos, havia o Jorge recebido alguma intimação da justiça?... perguntou ele, depois de um silêncio de alguns segundos.

O velho respondeu que não sabia.

— Ora sebo! gritou o rapaz. Afinal, estou sempre na mesma!

— O Jorge é quem lhe poderá dizer tudo, patrão! Não vale a pena arreliar­se! Se quiser falar com ele, o escaler está às ordens.

Gabriel passeava de um para outro lado, procurando descobrir o fio da meada.

— Ah! exclamou ele de repente. Já sei!

E concluiu de si para si que o Melo Rosa fora prevenido das intenções do Jorge a seu respeito, e engendrara aquele meio de desfazer­se do cocheiro.

— Não é outra cousa... resmungou. Verão que não é outra cousa!...

(continua...)

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