Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
Mas tudo isso já lá vai, e tudo desapareceu. Perderam-se os sermões do eloqüente pregador, por pouco que não desapareceu também a sua cela, e perderam-se até os ossos desse homem ilustre.
Direi como se extraviaram os ossos de Frei Sampaio, e tratando deste ponto, escreverei a última página em que neste passeio me ocuparei do célebre franciscano.
Quando Frei Sampaio faleceu, alguns de seus compatriotas e admiradores determinaram mandar preparar uma urna digna de receber-lhe os restos. Abriram para isto uma subscrição e encomendaram a urna a um artista de nome Adriano, que teve uma oficina de entalhador na Rua Senhor dos Passos.
Chegado a tempo competente, dirigiu-se um antigo amigo do finado ao convento de S. Antônio, onde era muito conhecido e considerado, e depois de instâncias reiteradas, obteve os ossos de Frei Sampaio.
Mas o entusiasmo tinha já esfriado. Os subscritores não concorreram com as quantias competentes. O descuido fez esquecer a gratidão. Faltou o dinheiro, quando a urna se achava pronta, e os ossos do grande pregador foram abandonados e esquecidos na oficina de Adriano.
Dói a um brasileiro escrever estas tristes verdades. Sirvam elas, porém, ao menos, para castigo da nossa repreensível incúria.
Entretanto, Adriano incomodava-se com a urna que lhe custara trabalho e despesa, e que continuava na oficina a lembrar-lhe o prejuízo sofrido. Sabendo, porém, que o Sr. Dr. José Maurício Nunes Garcia procurava uma urna para recolher os ossos de seu pai, o ilustre padre José Maurício Nunes Garcia, correu a oferecer-lhe a que tinha.
O Sr. Dr. José Maurício foi à oficina de Adriano, comprou a urna, e vendo a ossada de frei Sampaio, e reconhecendo-lhe a cabeça pelo único alvéolo incisivo que apresentava e que fazia lembrar um defeito que pelo correr dos anos experimentara em sua dentadura o célebre pregador, levou consigo essa cabeça que tão grande se mostrara, e que Adriano cedeu sem a mais leve oposição.
Os anos correram, Adriano morreu. Os ossos de Frei Sampaio extraviaram-se para sempre, e apenas a cabeça óssea nos resta, conservada pelo ilustrado médico e habilíssimo mestre de anatomia que nas suas lições de antropotomia deu uma curiosa descrição, ou antes, fez um estudo conciencioso e interessante daquela preciosa relíquia.
O Sr. Dr. José Maurício considera “o crânio de Frei Sampaio como um tipo dos melhores – das belas formações cranianas”, e declara “que ele se presta a todos os sistemas craniométricos, melhor do que nenhum dos que há podido ver”.
Debaixo do ponto de vista frenológico, o Sr. Dr. José Maurício faz ainda notar o extraordinário desenvolvimento da bossa da idealidade, que Gall e Spurzheim se extasiariam, encontrando na cabeça daquele pregador tão famoso pelos seus improvisos felizes e pela sua eloqüência arrebatadora.
O estudo feito sobre o crânio de Frei Sampaio é cheio de importância e de interesse, e para as lições de antropotomia do nosso muito distinto lente jubilado de anatomia remeto os meus companheiros de passeio que desejarem devidamente apreciar.
O Sr. Dr. José Maurício Nunes Garcia é merecedor de elogios e de gratidão pela boa obra que fez, salvando e conservando o crânio de Frei Sampaio e dando dele um estudo minucioso e profundo que aproveita à ciência e também um pouco mitiga a mágoa que nos deixou o extravio dos outros ossos.
Além da cela de Frei Sampaio, que o respeito devido à sua ilustre memória fez conservar com um cuidado tão louvável, ainda os religiosos apontam e mostram com uma bem fundada e justa ufania aos visitantes do seu convento da cidade do Rio de Janeiro, outras celas não menos recomendáveis por nobres recordações da mesma natureza.
Entre essas, distinguem-se as que pertenceram a Mont’Alverne e São Carlos.
Direi alguma coisa a respeito da cela que foi habitada pelo último, o frade notabilíssimo que primou como pregador e como poeta.
A cela que pertenceu a Frei São Carlos está situada na extrema esquerda da face principal do convento e dela são as últimas duas janelas de peitoril que ali se vêem. Por cima, no segundo andar, tem ela o painel e altar de N. S. da Assunção, que havemos de contemplar mais tarde.
É notável a feliz coincidência desse altar e desse painel da Assunção, levantados exatamente sobre a cela em que habitou aquele que foi o grande e inspirado cantor da Assunção, e onde ele escreveu esse estimado poema, que perpetuará seu nome.
Entretanto, esta cela também correu o risco de ser destruída, não pela mão dos homens, mas pela flama do raio.
Em uma tarde escura e tempestuosa, achava-se Frei São Carlos na sua cela, e conversando com ele, os padres-mestres Frei Henrique de Santana, Frei Joaquim de São Daniel e alguns outros religiosos.
A tormenta ia cada vez mais redobrando de intensidade, e ao ribombar de terrível trovão, levantaram-se os frades assustados.
Frei Henrique tremia ainda mais que todos os outros.
– Que é isso, padre-mestre? – perguntou-lhe São Carlos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.