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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Este recostara-se à divisão do camarote, e observava a cena por cima do ombro de Adelaide; mas à moça pareceu que a vista do marido não chegava à rampa, e refrangia-se como uma réstia de sol diante do obstáculo que se lhe antepunha à menor oscilação do talhe esbelto da mulher de Ribeiro. 

Se Adelaide inclinava-se à frente para trocar alguma observação, bombeava graciosamente diante de Fernando as espáduas que a luz do gás esbatendo-se em cheio jaspeava. Se a moça apoiava-se indolentemente à coluna, era o seu lindo colo vazado por decote de ninfa, que se oferecia aos olhos de Fernando. 

Aurélia agitava o leque de madre-pérola com um movimento rápido e nervoso, que fazia crepitarem as aspas violentamente batidas umas contra as outras. Duas ou três despedaçaram-se entre os dedos crispados. 

Às vezes dardejava um olhar imperioso ao marido para adverti-lo de sua inconveniência. Outras examinava a fisionomia de Ribeiro, com o sentido de observar o efeito que nele produzia aquela faceirice da mulher. Mas Seixas estava completamente absorvido na cena, ou no que lhe ficava ao rumo da cena, e Ribeiro passava revista de binóculo aos camarotes. 

Quanto a Adelaide, toda a satisfação de brilhar, nem reparava na impaciência da amiga, nem se apercebia que o excessivo esvazamento do seu corpinho, com o requebro que imprimia ao talhe, desnudava-lhe quase todo o busto aos olhos do homem a quem voltava as costas. Sente a estátua o olhar que insinua-se entre os véus transparentes? A mulher da moda tem a cútis da estátua quando se veste para o baile. 

Aurélia não pode conter-se afinal. 

- Troquemos de lugar, Fernando? A luz do gás está incomodando-me a vista. 

- Venha para aqui! disse Adelaide querendo ceder-lhe a cadeira. 

- Não, ali estou melhor; fico na sombra. 

No intervalo saíram a passear no salão. A lembrança foi de Aurélia que desejava uma ocasião de dizer algumas palavras em particular ao Torquato. Antes de sair, porém, insistiu com Adelaide para que pusesse a capa. 

- Pode-se resfriar. Está úmido. 

- Ao contrário; faz um calor! 

- Não facilite. 

E cobriu-lhe os ombros com sua própria capa que agasalhava mais. 

Seixas ofereceu o braço a Adelaide, como era de rigor; Aurélia seguindo ao braço de Ribeiro, e sem perdê-los de vista, começou a conversar com seu cavalheiro. 

- Ontem tive uma notícia que me afligiu; o Eduardo Abreu tentou suicidar-se.

- Já me disseram. 

- E parece que não abandonou a idéia. Quero salvá-lo dessa loucura; é um dever para mim, e um tributo que pago à memória de minha mãe. Posso contar com o senhor? 

- Permita que não responda a esta pergunta. Diga-me o que devo fazer. 

- Obrigada. Basta que o traga à minha casa, e faça que a freqüente. Ele foi rico; perdeu a riqueza, e com ela os amigos, a consideração, tudo que lhe tornava doce a existência. Nada mais natural do que olhar para o mundo como um inimigo a quem deve fugir. Se porém no meio desse deserto moral em que se acha surgisse uma idéia, uma vontade, um sentimento consolador, esse elo o prenderia de novo à existência. 

- Mas não tem receio? observou Ribeiro hesitando. 

- Pensa que ainda não esteja de todo extinta a sua paixão? É justamente com o que eu conto. 

- E seu marido? 

- É meu marido, respondeu a moça erguendo a cabeça com serena altivez. 

Ribeiro compreendeu a palavra e o gesto. Em verdade, o homem que tinha a suprema ventura de ser o esposo querido dessa mulher, podia suspeitá-la? 

- Supunha-se em seu lugar, o senhor que sabe uma parte de minha história. Depois do que lhe dei, a ele, julgar-se-ia com direito a esse triste sacrifício da vida de um infeliz? Não, certamente. 

Nesse instante, Aurélia que distraíra-se com a conversa, viu Adelaide já sem capa, e suspensa ou antes enlaçada ao braço de seu marido com um abandono que ela, sua mulher, não se animaria a mostrar em público. 

Aurélia por um impulso que não pode conter, apesar do império que se habituara a conservar sobre si, deixou o braço de Ribeiro para lançar-se de encontro do outro par e separou os dois, insinuando-se entre eles. Aí recobrou-se, ao perceber a surpresa que se pintava no semblante dos outros, buscou disfarçar, afetando uma risada e trançando no seu braço da mulher de Ribeiro. 

- Escute, quer dizer-lhe um segredo, D. Adelaide! 

Afastou-se levando a amiga. O segredo foi um remoque a propósito de certa loureira que passava; e depois uma indireta ao desgarro de certas senhoras, que timbram em imitar aquelas a quem mais desprezam. 

- Dê-me a minha capa! disse Aurélia com rispidez a Seixas. 

Antes que este pudesse satisfazê-la, tirou-lhe da mão a caxemira que Adelaide tinha dado a guardar, embrulhou-se nela, e tomou o braço do marido.

- Vamos? 

Seixas admirado deixou-se conduzir, supondo que tornavam ao camarote. Ao chegarem defronte da escada, Aurélia esperou para despedir-se de Adelaide. 

- Já se retira? perguntou a amiga cada vez mais surpresa. 

- Prometi a minha madrinha, D. Margarida Ferreira, ir vê-la esta noite. Passei por aqui somente para gozar da sua companhia. 

(continua...)

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