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#Romances#Literatura Brasileira

O Sertanejo

Por José de Alencar (1875)

— André, dá um pulo lá embaixo, homem, e tira as mochilas dos cavalos, para que almocem também! Vão correr mais do que você, que já forrou a tripa, cabra velho. 

A essa recomendação do Corrimboque levantou-se o André e dirigiu-se ao lugar designado com o seu alforge de couro cheio de carne e farinha. 

Terminada a comezaina, o Onofre passou nova revista à sua gente, designando a cada um seu pôsto e insistindo nas primeiras recomendações. 

O lugar escolhido para a emboscada não podia ser mais azado. Era uma brenha, defendida ao sul por um serrote íngreme. O caminho passava entre duas rochas a que pela forma convexa tinham dado o nome de Baús. À direita ficava o alcantil; à esquerda o bamburral que terminava logo adiante em um vasto alagado. Para tornar impossível aos cavaleiros o trânsito pela espessura, o Onofre havia levantado no meato uma perfeita estacada entre a rocha e o pântano. 

Assim a comitiva na volta não tinha outra passagem senão a estrada; e, trancada esta, seria obrigada a fazer um longo rodeio, ou a retardar a sua marcha por algumas horas enquanto abria caminho. Desta circunstância, tirara o Onofre todo o partido para a cilada. 

Tecera o bandeirista uma grade de rêlho e a atravessara diante dos dois penhascos, amarrando as pontas em árvores novas, de um e outro lado. Vergara depois essas árvores como costumam fazer os caçadores nas armadilhas; e a teia ficou estendida no chão coberta de terra e fôlhas sêcas. 

Por artes do cigano incumbido de enfeitiçar o baio, conta Onofre que a filha do capitãomór será a primeira a passar pelos Baús. Apenas ela se ache do outro lado, que o Corrimboque e o Raimundo cortarão as cordas das árvores; e estas voltando à posição natural, levantarão consigo a grade que deve fechar a estrada. 

Então, separada a moça da comitiva, ainda que tenham passado com ela algumas pessoas, é fácil ao bandeirista consumar o rapto. A Rosinha saltará na garupa do baio; com uma das mãos tapará a bôca de D. Flor para impedí-la e gritar e com a outra a estreitará ao peito, enquanto o Onofre bemmontado, tomando o beio pela brida, disparará com êle e a donzela. 

Para reforçar a grade de couro, preparou Onofre outra barreira. É uma ramalhuda braúna, já serrada pelo tôpo e que a um empurrão do Aleixo Vargas cairá sôbre o caminho, trancando-o com uma sebe viva e emaranhada. 

Enquanto o capitão-mór e sua gente esbarrarem nessa embrechada, o Onofre tem tempo de pôr-se a salvo com a donzela e recolher-se ao Bargado. 

Antes de concluir o novo exame da emboscada, sentiu o bandeirista a língua trôpega: 

— Diabo dêste vinho do reino!… Não sei que mistura lhe deitaram!… Querem ver que pôs-me, meio lá, meio cá? Eu me entendo é com o patrício! 

— Não é, sr. Onofre. Êste vinho tinha alguma coisa com certeza. Também eu estou com as pernas bambas, de uns sorvos que dei na borracha. Pois a minha conta no Minho era meio quartilho ao almôço. 

Reparou o Onofre que toda a sua gente já andava estirada, uns pelo chão juncado de fôlhas sêcas, outros pelos galhos rasteiros, a curtir a carraspana. 

— Olhem esta corja de bêbados! Como roncam!… E mais é que vou fazer o mesmo! Não posso comigo! O tal sumo de uva não me toa!… Corrimboque, fique de espreita e acorde-nos, quando chegar… quando for… você sabe… 

Não concluiu Onofre. O torpor que lhe invadira o corpo sopitou-o completamente, e nem lhe deu tempo de escolher o lugar onde acomodar-se. O corrimboque, se ainda o ouviu, não pôde responder-lhe de pesada que tinha a língua; e o Moirão já mugia como um touro. 

Nessa ocasião os cavalos começaram a rinchar sentindo talvez a aproximação de algum animal da mesma espécie. 

A única pessoa que resistiu ao súbito letargo foi Rosinha, de-certo por ter bebido apenas uns goles do vinho. A rapariga vendo toda aquela gente sopitada em profunda modorra, assustou-se, tanto mais quanto também sentia desfalecimento. 

Não foi longa, porém, essa perturbação; passada ela, conservou-se alerta a fim de acordar os companheiros ao primeiro sobressalto. 

Ergueu-se então dentre um monte de fôlhas sêcas a alta e magra estatura de Jó. Investigando com rápido olhar a cena, o velho esgueirou-se com a sutileza de uma sombra por entre a folhagem e foi surdir a uma distância de cem braças. 

Alí, segurando um grosso madeiro, começou a bater na terra com o movimento compassado de um pilão. 

Às primeiras pancadas, Rosinha sobressaltou-se e tratou de acordar Onofre; mas o bandeirista não deu acôrdo de si e os companheiros ainda menos. Quando a rapariga já não sabia o que fizesse, cessou o estrépito que ela atribuiu à corrida de algum boi. 

Entretanto Arnaldo acabava de soltar o Dourado, e lembrando-se dos rinchos que ouvira, e que denunciavam a presença de cavalos bridados, tomou êsse rumo, suspeitando que a bandeira do Onofre andasse por aqueles sítios. 

Nisso percebeu uma como vibração que saía da terra e reconheceu imediatamente o sinal de Jó, que tinha aprendido dos índios a comunicar-se por aquele meio seguro através de grandes distâncias. 

(continua...)

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