Por Domingos Olímpio (1903)
Vim atrás de ti. Iremos juntos para a serra, onde vamos trabalhar.
— Não posso... E meu pai?
— Teu pai, mãe, irmã irão mais nós. Alexandre encontrará meio de arrumar todos como uma família. Não é possível que, depois de vivermos como duas amigas, nos separemos, talvez para sempre.
— Se conseguisse isso, seria um alivio para mim. Pelo menos, deixaríamos esta casa maldita, onde não se pode pregar olhos toda a noite. Já vivo com o corpo moído; doem-me as cadeiras que, às vezes, não me atrevo a torcer-me; tenho nos ouvidos um besouro a zunir sem parar. Quando consigo passar por uma modorra, me vêm sonhos agoniados; sonho que me caem os dentes, o Cazuza me arrasta pelos cabelos para me atirar num despenhadeiro, e acordo em meio da queda. Esta noite senti mãos frias que me encalcavam o peito, mãos de defunto a me sufocarem, e ouvi uma voz fanhosa a dizer coisas sem pé nem cabeça. Despertei com o coração a saltar pela goela. Vi, então, um vulto branco que se desmanchava no ar, e com um gemido surdo e... gritei... Mamãe, que passa a noite a rezar, correu a ver o que era... Eu estava, como quem perdeu o juízo, apontando para o fundo escuro do quarto... Ah! Luzia! Nem pode imaginar o que tenho sofrido...
— Coitadinha!..
— Hoje de manhã, quando mamãe contou o caso a meu pai, ele respondeu... Que foi que ele disse? Deixa ver se me lembro... Ah!... Não se amofine, mulher; é o remorso. Depois, acrescentou com voz mais branda: Veja se arranja uma retirante limpa para certos serviços, para que ela não se mate tanto... Dando casa e comida, não falta quem queira trabalhar.
O burro, num acesso de impaciência, orneou.
— Está pedindo milho – observou Teresinha – Este malvado é os meus pecados. Estava quase morto; não se dava nada por ele. Recobrou as forças, comendo da minha mão; e, quanto mais o trato, mais manhoso fica. Parece de propósito para judiar comigo. Se o ponho a andar, empaca; fica como uma pedra; não se mexe. Outro dia ao passar por ele, mordeu-me de furto... E é só comigo que ele implica.
— Tem paciência, minha negra. O que estás padecendo é bem recompensado pela fortuna de haveres encontrado tua família.
Raulino, que estivera à parte, examinando o animal enfermo, com olhares magistrais de conhecedor, aproveitou o ensejo para encartar uma das suas anedotas sobre astúcias e manhas de burros.
— Era por volta da era de sessenta. Não me lembra bem o ano; só sei que eu era rapazote; pelo tope dos doze. Andava por estes sertões uma comissão de doutores, observando o céu com óculos de alcance, muito complicados, tomando medida das cidades e povoações e apanhando amostras de pedras, de barro, ervas e matos, que servem para meizinhas, borboletas, besouros e outros bichos.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O touro negro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7415 . Acesso em: 25 mar. 2026.