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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

Então que partissem pela manhã seguinte.

Nada! Havia de ser naquela mesma noite! Para que diabo agüentar sol pelo caminho, quando tinham um luar que nem dia?...

O jantar demorava-se e Raimundo mal podia conter a sua contrariedade. S6 às três horas da tarde conseguiram levantar acampamento.

— Leve-nos a São Brás, disse ele ao guia, logo que se acharam fora do portão da fazenda.

— A São Brás? Deus me livre.

E o caboclo, depois de benzer-se, perguntou para que diabo iam a São Brás.

— Ora essa! Não é de sua conta! Leve-nos!

— A São Brás não vou!

— Essa é melhor' Não vai! Então que veio você fazer conosco senão guiarnos?

— Sim senhor, mas é que a São Brás não vou, nem amarrado!

— Vá para o inferno! Iremos nós! Ó se'or Manuel, o senhor não sabe o caminho?

— Verdade, verdade, o homem não deixa de ter sua razão! . No fim de contas que diacho vai fazer o amigo àquela tapera?...

— É boa! Ver o lugar em que nasci..

— Tem razão, mas...

— Se não quiser ir, vou só!

— Mas o senhor sabe que...

— Contam bruxarias do lugar, e há quem acredite nelas... Faço-lhe, porém, a justiça de não supô-lo desses...

Os cavalos ganhavam a Estrada Real.

— Homem, disse Manuel, lá saber o caminho, eu sei, e o guia, se não quisesse vir, poderia esperar-nos ao pé da cruz, mas... confesso-lhe: tenho meu receio dos mocambeiros... além disso... quem, como eu, ouviu as últimas palavras de meu irmão...

— De meu pai?! exclamou Raimundo vivamente. Oh! Conte-me isso!

— O senhor há de rir-se.. São coisas que parecem asneira... Hoje, os moços não acreditam em nada! Mas é que certas palavras, ouvidas da boca de quem vai morrer... mexem com a gente... não acha? fazem um homem ficar assim meio aquele! Olhe, meu amigo, eu digo-lhe aqui entre nós, e o senhor não se mace, seu pai não teve a vidinha lá muito sossegada, não! Depois que casou, não se dava com pessoa alguma, e nem a própria sogra queria saber dele... vivia como que abandonado! Eu era nesse tempo principiante no comércio e quase que não podia arredar pé do trabalho, contudo, aqui vim três vezes; porém creia que não gostava de cá vir!... Era uma tal tristeza!... Doía-me de ver o José tão desprezado, tão triste, que parecia estar a cumprir uma sentença! Viajante nenhum aceitava o pouso em São Brás; preferiam dormir; ao relento e as cobras! Contavam que alta noite ouviam-se constantemente gritos horríveis na fazenda, pancadas por espaço de muitas horas, correntes arrastadas; os escravos morriam sem saber de quê! Enfim, o cônego Diogo, que era o vigário desta freguesia, confessa que nunca lhe soube dar volta! E olhe, coitado! meteu-se-lhe em cabeça abençoar e proteger São Brás, e quase ia sendo vitima da sua dedicação! até ficou assim a modo de aluado! E, foi tão perseguido por cá, que o pobre homem viu-se obrigado a abandonar a paróquia! Ainda hoje, quando lhe toco nisso, benze-se todo! Pois pode crer o senhor que ele era o mais íntimo amigo de meu irmão e o único talvez que ultimamente lhe freqüentava a casa; entretanto, compreenda-se lá, seu pai, já por último não o queria ver nem pintado! e, nos delírios das suas febres, estava sempre a ver fantasmas e a gritar como um doido que queria dar cabo do padre! “Quero matar o padre! Tragam-me o padre! - O padre é que é o culpado de tudo!” Este fulano padre era o cônego! Eu não quis nunca falar nestas coisas ao compadre, porque, cismático como é, podia agastar-se comigo!...

E, depois de uma pausa

— Ora, já vê o meu amigo que, apesar de não acreditar em almas do outro mundo, tenho as minhas razões para...

Raimundo procurava disfarçar a preocupação em que o punham as palavras de Manuel, e declarou que, se este não estava disposto a ir a São Brás, que se ficasse com o guia, ele iria só.

— Mas saiba, disse, que ao caboclo perdôo o medo, porque enfim não está na altura de certas verdades, mas ao senhor...

— Eu não tenho medo de coisa alguma, já disse!...

— Receia sempre que o diabo lhe saia ao encontro, compreendo!

E o rapaz fingiu uma gargalhada, para intimidar o companheiro.

— Não, mas é que...

— Ora deixe-se de histórias! O senhor não me parece um homem!...

Manuel cedeu afinal, e os dois tomaram a direção da .tapera.

Fizeram em silêncio todo o caminho; Raimundo por muito comovido e Manuel por amedrontado.

Instintivamente, pararam em respeitável distância.

— Creio que chegamos! arriscou o moço.

E, avançando alguns passos, disse ao outro:

— Lá está ela!

— Ó de casa! gritou Manuel.

Só o eco respondeu.

Adiantaram-se mais e Raimundo gritou por sua vez, com o mesmo resultado.

— Ande, senhor Manuel! Estamos a quixotear... Aqui não há viva alma!...

Mais alguns passos e estavam defronte da tapera.

Eram os restos de uma casa térrea, sem reboque e cujo madeiramento de lei resistira ao seu completo abandono.

Ia anoitecer. O sol naufragava, soçobrando num oceano de fogo e sangue; o céu reverberava como a cúpula de uma fornalha; o campo parecia incendiado.

(continua...)

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