Por Aluísio Azevedo (1895)
- E quem lhe disse que ele não olhará pela senhora?... Por que o há de supor tão mau?- Ah! Mas uma vez casado, a coisa muda logo de figura... Não há homem que se não modifique deixando o estado de solteiro! Quando eles até então só amam a mulher com que se casam, mal a possuem esquecem-na por outra; e, se antes do casamento já se dedicavam a qualquer amante, será esta sacrificada à legítima esposa. Esta é a lei geral; esta há de ser a lei de Teobaldo!
- Mas, segundo me parece, isso não impede que ele seja eternamente grato aos desvelos que a senhora lhe dedicou.
- Sim, creio, e é justamente por esse motivo que eu nada esperarei dele depois do casamento. Uma mulher aceita a compaixão seja de quem for e pelo que for, menos do seu amado, em substituição da ternura.
- Pois se lhe repugna aceitá-la das mãos dele, pode recebe-la das minhas; comprometome a olhar pela senhora.
Leonília, ao ouvir isto, voltou-se de todo para o Coruja e mediu-o em silencio com os olhos ainda congestionados pelo choro. "Que significaria aquela proposição?..."
- O senhor tenciona tomar-me à sua conta?... perguntou ela surpresa. Tenciona fazer-se meu amante?
André tornou-se vermelho e balbuciou:
- Está louca?
- Mas não é essa a proposta que acaba de fazer?
- Eu lhe ofereci apenas o meu auxílio pecuniário...
- Quer ser então o meu protetor?
- Quero opor-me à desgraça de Teobaldo.
- Quanto o senhor é amigo daquele ingrato!
- Se a senhora se acha disposta a sair do Rio de Janeiro, arranja-se-lhe o necessário para a viagem. Concorda?
- Sim; creia, porém, que é mais pelo senhor do que por ele.
- Obrigado. Amanhã mesmo lhe chegará o dinheiro às mãos. Adeus.
Leonília foi acompanhá-lo até à porta e o Coruja saiu para ir ter com Teobaldo.
- Bonito! exclamou este, quando o amigo lhe prestou contas da sua comissão
- Fizeste-la bonita!
- Como assim?
- Pois tu foste prometer dinheiro à mulher? Não sabes que não tenho onde ir buscá-lo?- Dividiremos a despesa... eu posso arranjar a metade. Creio que, se lhe mandarmos uns duzentos mil réis.
- Duzentos mil réis! Isso nem dobrado vale nada para ela! Não conheces esta gente! Foi o diabo!
- E quanto entendes tu que é necessário dar-lhe?
- Sei cá! Nunca menos de cem libras esterlinas!
- Um conto de réis!
- Com menos disso duvido que ela se vá embora!
- Há de se lhe dar um jeito! Não te aflijas.
- E que eu estou sem vintém!
- Arranja-se...
- Não admito que te sacrifiques tão estupidamente! Ora essa!
- Descansa que não me sacrificarei.
Mas, ao tirar-se daí, André foi direitinho à sua secretária, sacou de uma das gavetas um pequeno pacote de notas de cem mil réis, meteu-o no bolso e saiu.
Quando tornou ao lado de Teobaldo, disse-lhe:
- Sabes? Está tudo arranjado.
- Hein? Como? Ela parte?
- Sim. Levei-lhe em teu nome oitocentos mil réis. Seguirá no primeiro paquete para Buenos-Aires e não tornará cedo ao Brasil.
- Ó desgraçado! Querem ver que lhe deste as tuas economias!
- Não; apenas o que fiz foi adiantar-te o dinheiro; depois de casado me pagarás.
- Nesse caso vou passar-te uma letra.– Para que? Não precisa.
XXI
E no entanto, à noite desse mesmo dia, travava-se entre o Coruja, D. Margarida e a filha desta o seguinte torneio de palavras:
- Então, seu Miranda; o senhor decide ou não decide o diabo deste casamento?
- Agora, agora Sra. D. Margarida, é que as coisas vão endireitando e, se Deus não mandar o contrário, pode bem ser que tudo se realize até mais cedo do que esperamos.
- Ora! já não é de hoje que o senhor diz isso mesmo!
E note-se que, depois que Teobaldo melhorara de circunstâncias, D. Margarida havia abrandado muito a 8spereza de suas palavras para com o futuro genro; isto quer dizer que ultimamente podia André, como no princípio de seu namoro, levar alguns presentes à noiva e mais à velha. Mas, nem por isso, deixava esta de falar às vizinhas, desde pela manhã até à noite, a respeito do célebre casamento da filha, que, segundo a sua expressão, parecia encantado.
- Pois se tu também não te mexes! gritava ela às vezes, ralhando com a rapariga. A titanto se te dá que as coisas corram bem como que não corram. Nunca vi tamanho descanso, credo! Ninguém dirá que és a mais interessada no negócio!
- Ora, mamãe, mais vale a nossa saúde!... respondia Inez, invariavelmente. O que tem de ser traz força!
- Oh! que raiva me metes tu quando dizes isso, criatura!
- Mas se é...
- Qual é o que! Cada um que não trate de si para ver como elas lhe saem! Não me tiram da cabeça que, se apertasses um pouco o rapaz, ele talvez até já tivesse aviado por uma vez com isto! Já com a tal história do ensino foi a mesma coisa; tu, tanto remancheaste, tanto te descuidaste, que afinal lá se foi tudo por água abaixo!
- Ora, eu ensino em casa da mesma forma..
- A quatro pintos pelados, que levam aí todo o santo dia a me atenazarem os ouvidos com o "b-a faz bá, b-e faz bé!" Ora; Deus me livre!
- Rendem quase tanto como uma cadeira...
- Mas não são certos. De um momento para o outro podes ficar sem nenhum... Ao passo que a cadeira...
- Mais vale a quem Deus ajuda...
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.