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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

"Escrevo­te, pela impaciência em que me vejo de comunicar­te esta desgraça. Agora mesmo foi que me chegou aos ouvidos tal notícia. Estimarei muito que esta carta seja completamente inútil, e que tu a estas horas tenhas restituído já a pobre família do cocheiro à sua primitiva tranqüilidade.

"Ao menos, em nossa viagem, levaremos ainda na alma o gosto de uma boa ação. Creio que melhor não nos poderíamos despedir da pátria.

‘Tua ­ Ambrosina."

— Agora, sim; disse ela, metendo a carta no envelope, depois de ler em voz alta o que escreveu. Pronto!

E subscritou­o com o nome de Gabriel.

Feito isto, a pérfida levantou­se declarando que não tinha tempo a perder. Havia muito ainda em que cuidar!

Melo Rosa queixava­se de que ela fosse assim, sem pagar ao amor os devidos tributos.

— Teremos depois muito tempo para isso, respondeu a visita já na porta do quarto. Coragem e energia, que será bem recompensado!

— Então, nem um beijo, Ambrosina?...

— Nada! Faze por merecê­lo... Adeus.

E, enquanto descia as longas escadas do sobradão, ia ela tecendo consigo as seguintes reflexões:

— Muito bem! Se os dois cumprirem com o que prometeram, amanhã estou eu completamente livre deles e senhora dos vinte contos de réis que me farão muito boa companhia! O Melo prenderá Gabriel, e Gabriel prenderá o Melo! E depois disso, ainda não estarão talvez bem convencidos de que são ambos uns grandíssimos tolos! Ah, homens! homens!

XXIX

DIA DA VIAGEM

Às quatro horas da tarde, Gabriel, como prometera, fazia parar o seu carro defronte da porta do cocheiro Jorge.

Ambrosina esperava por ele já vestida, ao lado de Laura. O pai desta andava fora no trabalho, e a velha Benedita fazia as honras da casa.

Gabriel ajudou as duas raparigas a tomarem lugar na sege. E seguiram alegremente os três para Laranjeiras.

Estavam em princípio de janeiro, num dia quente, e a viração da tarde fazia pensar na sesta preguiçosa e doce.

O carro atravessou a praia e entrou no Catete. Ambrosina tinha entre as mãos uma das mãos de Laura, a quem envolvia toda com um olhar de profunda ternura.

Aproximava­se o carnaval, e as grandes máscaras de papelão, expostas nas vitrinas e às portadas dos armarinhos, davam, com as suas cores absurdas, um aspecto alegre à rua. Viam­se balançar, como bandeiras, as roupas multicores destinadas à mascarada. Mulheres do povo brincavam entrudo com grande algazarra, e um português gordo, em mangas de camisa, queimava bichas chinesas ao lado de um quiosque.

O bairro parecia em festa.

Gabriel, entretanto, ia preocupado. Agora, que se aproximava o momento de partir, caía a pensar constantemente no padrasto. O bom amigo ia ficar sentido com aquela viagem. Mas que fazer?... Estava porventura em suas mãos desmanchá­la?... Perdido por pouco, perdido por muito! Agora, não era possível voltar atrás!...

E, para explicar­se com a consciência, dizia covardemente de si para si:

— Ora! O que tem de ser, traz força!

Ambrosina interrogava­o vagamente sobre o que fizera ele durante o dia.

Gabriel declarou que se achava tudo pronto, mas que encontrara grande dificuldades para obter o passaporte, porque ele não queria anunciar a sua partida, nem queria ocupar tampouco alguma pessoa de confiança que o abonasse.

E, depois de circunstanciar esse e outros fatos, declarou que já se não podiam arrepender... Só faltava embarcar!

— Parece­me que tens pena de deixar o Rio de Janeiro!...

— Que me importa o Rio, contanto que eu te tenha a ti!

E olharam­se com amor.

Laura não dava uma palavra; tinha o olhar disperso. Não se animava de encarar com Gabriel.

Estava cativadora. Vestia linho pardo, debruado de cadarço branco. A flexibilidade do seu corpo desenhava­se bem com aquela roupa inteiriça. Não levava outra jóia além de uma pequenina cruz de ouro sobre o peito. O chapéu de palha de Itália dava­lhe à fisionomia uma doçura admirável. Seria difícil dizer em que ia pensando aquela cabecinha!

E assim chegaram os três à casa de Laranjeiras.

Gabriel havia cambiado sua notas do Tesouro por dinheiro em ouro e saques bancários ao portador. E o esterlino ruído do metal, que ele acondicionava em uma gavetinha de segredo da secretária, fazia estremecer Ambrosina, que ao seu lado o apoquentava com perguntas.

Laura, estendida num divã da sala de visitas, alheia a tudo que a cercava, embalava­se nos seus sonhos, a cabeça caída sobre a almofada, os braços em abandono, os olhos meio cerrados, o pensamento solto.

Gabriel conversava com a amante, a mostrar­lhe o passaporte, o bilhete de viagem; e pouco depois, chegava um homem carregado de objetos que ele havia comprado na cidade, quase tudo roupa branca, mantas, agasalhos e charutos.

Jantaram à noite o que veio do hotel!

A manhã do dia seguinte correu sem novidade. O vapor, por motivos de moléstia do comandante que fora à última hora substitui­lo, só sairia ao pôr do sol. Gabriel andava atarefado; não sabia para onde voltar­se! Tinha ainda tanto que fazer!

(continua...)

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