Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro

Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)

– Ria-se, ria-se. Mas se fosse guardião, havia de entristecer-secomo eu e de viver sempre angustiado.

– Pois, padre-mestre, eu lhe juro que não se queixará de mimpor lhe dar o meu quinhão de angústias.

– Estou certo disso, padre-mestre. Estou certo e nunca penseio contrário – respondeu Santa Leocádia.

Três dias depois, foi Sampaio pregar o seu sermão e, de volta, recolheu-se à sua cela. Tinha, porém, apenas acabado de entrar quando lhe apareceu Santa Leocádia.

– A dobra, padre-mestre – disse o guardião.

– Que dobra? – perguntou Frei Sampaio, mostrando-se admiado.

– Ora! A dobra do sermão que pregou.

– Ah! padre-mestre guardião – disse Frei Sampaio. – De pagaressa dobra estou eu livre, porque preguei um sermão de angústias e há três dias lhe jurei, e vossa caridade recebeu meu juramento, que eu não lhe daria o meu quinhão de angústias.

O guardião pôs-se a rir, e Frei Sampaio não pagou a dobra.

Relevai-me estas ligeiras anedotas, que se referem a esses nossos grandes pregadores. E retirando-nos do salão dos guardiões rendamos justos louvores ao atual provincial dos franciscanos do Rio de Janeiro, porque foi ele que mandou fazer aqueles quatro retratos que perpetuam as imagens de tão eloqüentes e sábios oradores brasileiros.

A capela dos Três Corações, que em seguida passamos a visitar, tem o altar copiosamente enriquecido de relíquias e ossos de santos, que os provinciais, quando iam a Roma votar, em capítulo geral, traziam obtidos do papa. As paredes mostram-se ornadas com diversos bustos de santos, cada um dos quais apresenta um relicário ao peito. O teto é pintado a óleo e é aí notável um quadro do mistério da Trindade.

Além das salas e da capela que temos estudado, constava ainda o primeiro andar do convento de S. Antônio de numerosas celas que outrora não eram de sobra, porque então abundavam os religiosos, e que, nestes últimos tempos, tão desabitadas ficaram que uma parte delas foi cedida para o Arquivo Público, que desde 1854 se acha ali estabelecido, tendo-se rasgado muitas celas, que se transformaram em salas, dispostas convenientemente para o serviço desta utilíssima instituição.

O Arquivo Público absorveu as antigas acomodações da secretaria e consistório do convento, que eram no primeiro andar e que, em conseqüência dessa patriótica hospedagem, o atual provincial fez mudar para o segundo, como teremos de ver.

A necessidade de prover com os arranjos precisos o Arquivo Público, ia sendo causa de desaparecer, como desapareceram muitas outras, a cela que fora habitada pelo Padre-Mestre Frei Francisco de Santa Teresa Sampaio.

A situação em que se achava esta cela a condenava ao doloroso sacrifício. O digno provincial, porém, Frei Antônio do Coração de Maria Almeida, que por algum tempo a tinha também ocupado, desde 1844, salvou-a desse grande perigo e dela conserva a chave bem como das que pertenceram a São Carlos e Mont’Alverne.

A cela que foi habitada por Frei Sampaio está situada junto de um salão que corre por cima da sacristia para o jardim, da qual olham as suas janelas de grades de ferro.

A cela de Frei Sampaio é histórica e cheia de importantes e curiosas recordações.

Em 1821 e 1822, reuniu por vezes em seu acanhado recinto um clube de patriotas, e depois da proclamação da independência foi muito freqüentada pelo Sr. D. Pedro I, imperador do novo Império.

Quando, no Rio de Janeiro, se tratou de impedir a retirada do Sr. D. Pedro, então príncipe regente, para Portugal, o Capitão-Mor José Joaquim da Rocha, o Coronel Nóbrega e outros, reuniram-se repetidamente na cela de Frei Sampaio, e foi aí que prepararam alguns dos grandes acontecimentos que em seguida chegaram a ter lugar e que foram os precursores do grito do Ipiranga.

Frei Sampaio foi o redator de um jornal político que naqueles anos se publicou sob o título O Regulador, e em que sustentou princípios liberais moderados. Era da sua cela que mandava para a imprensa os autógrafos, e ainda hoje se conserva no convento de S. Antônio um livro em cujas páginas ele, pela sua própria mão, deixou copiados os principais artigos que fez imprimir no seu periódico e em outros.

Algum tempo depois da independência, Frei Sampaio começou a desagradar aos liberais, que principiavam a manifestar aquela oposição, que só acabou triunfando em 7 de abril de 1831.

Diziam os liberais que o ilustre franciscano escrevia obedecendo às inspirações e à vontade do Sr. D. Pedro I, que o conquistara com obséquios e provas de afeição, e assentavam o seu dizer em um fundamento que a muitos parecia seguro, porque era na verdade que o Sr. D. Pedro I ia freqüentes vezes ao convento de S. Antônio, e não poucas ficava desde o anoitecer até às 19 horas da noite na ceia de Frei Sampaio, ouvindo-o ler os seus artigos, e com ele discorrendo sobre política.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7172737475...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →