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#Romances#Literatura Brasileira

Til

Por José de Alencar (1872)

 Esbaforido, prostrado de cansaço e de terror, o miserável se deixara cair em um fojo coberto de juncos e moitas; e, resignado, esperou a morte, que ele sentia aproximar-se no passo rápido do Bugre. 

 Nesse momento chegava Miguel, que a meio caminho de casa e surpreendido com o clarão do incêndio, voltara a correr na direção das Palmas. 

 Por um impulso generoso parou para defender o perseguido; e Jão Fera esbarrou de rosto com ele. 

 Três vezes o Bugre arremeteu e três vezes o brioso mancebo tomou-lhe o passo, resolvido a sacrificar-se antes do que deixar consumar-se o crime. 

 - Deixe-me passar, moço! bramiu o capanga rangendo os dentes. 

 - O que eu sinto, monstro, é não ter uma arma para castigar-te. 

 Rugiu o Bugre, e saltou sobre o mancebo, que o esperou calmo e resignado a tudo, mas sem recuar o passo. 

 Salvou-o um grito de Berta. A menina tinha acompanhado de perto a Miguel, deixando atrás nhá Tudinha, que não a pudera seguir. 

 Ouvindo a voz da menina, o capanga como se o espancasse a cólera celeste, disparou pelo campo fora e desapareceu. 

 

XXIV 

Na tapera 

 

Uma brisa cortante esgarçava a cerração, cujos retalhos flutuavam pelo tope das árvores. 

 Três dias tinham decorrido depois da festa de São João. 

 

Berta seguia pela vereda que ia dar à tapera. Caminhava a passo lento e frouxo com a cabeça descaída, revolvendo na mente reminiscências que lhe pungiam o coração. 

 A pequena distância atravessou Miguel por diante dela: 

 - Sabe, Inhá? Jão Fera foi preso! 

 - Aonde? perguntou a menina surpresa. 

 - Perto de Campinas. 

 - E agora? 

 - Com certeza o enforcam! 

 Esta resposta o mancebo a deu já afastado e de caminho para o lado das Palmas. 

 Berta suspirou, pensando que Miguel ia ver Linda; mas logo seu pensamento desprendeu-se dessa idéia, para refletir sobre a desgraça do capanga. 

 Apesar do horror que lhe inspirava ele desde a véspera de São João, já pelo atrevimento de atacar Miguel, já pelas crueldades que praticara naquela noite, ela sentiu profunda compaixão pelo infeliz que ia morrer execrado e maldito por todos; e sua alma confrangeu-se de dor. 

 Tão absorta nessa pena chegou às ruínas que não reparou na singular atitude da negra em pé, no meio do terreiro, com o pescoço curvo, os olhos esbugalhados, à espreita de um objeto que, por ventura, lobrigava entre a folhagem. 

 Passara Berta e dirigia-se à porta da casa, quando a negra estendeu os braços hirtos para diante como se quisesse arremessar de si uma visão medonha, e caiu à estrebuchar em contorções dolorosas, arrancando guinchos aflitivos do peito ofegante. 

 Na orla do mato, à esquerda da tapera, assomara de repente a figura do Ribeiro, que aos olhos de Zana surgira como um espectro e a fulminara de terror. 

 Aos gritos da preta, Berta, arrancada ao seu recolho, correu assustada, sem atinar com a causa de semelhante acesso. Vendo-a, Zana que não se apercebera de sua chegada, atirou-se à ela, e cerrando-a ao peito com os braços mirrados, precipitou-se para casa em um ímpeto de desespero. 

 Assim arrebatada de chofre, não descobriu a menina o vulto do Ribeiro, nem ouviu o riso de escárneo que rincharam os lábios do assassino por ver o terror da negra e seu afã em levar a menina do terreiro e esconde-la na casa. 

 Tinha ele segura a presa, e por isso não açodava-se, querendo gozar por mais tempo a delícia dessa vingança, que julgava já extinta, e renascia de novo, como o broto de uma raiz morta. 

 Açulado por um ódio implacável, lembrara-se dias antes de rever as ruínas da casa onde imolara a vítima de seu rancor, e cevar-se nas recordações de sua covarde atrocidade. 

 Nessa ocasião, viu Berta, pela primeira vez, e logo entrou-o a suspeita de ser ela a filha de Besita, livre da morte pela súbita ameaça de um homem que ele não conhecera, mas supunha capanga de Luís Galvão. 

 Desde aí começou de tirar indagações e obteve a certeza que desejava. Seria pois esse o remate da vingança que há vinte anos principiara em Besita e devia acabar na filha, depois de haver exterminado o pai. 

 Furioso com o malogro do incêndio, porém aterrado com a sanha de Jão Fera, a quem só escapara pela corajosa intervenção de Miguel, o miserável tratou de fugir. 

 Ao passar por Campinas, soube que o Bugre fora preso na véspera por gente do Aguiar, e então animou-se a voltar a Santa Bárbara. 

 

Seu primeiro pensamento foi Berta. Lembrando-se que ia matar a pobre menina, sentia um prazer bárbaro. Parecia-lhe que Besita revivia na pessoa da filha, e que assim podia ele assassina-la outra vez, saciando o seu imenso rancor. 

 Ele, que a princípio nem se apercebera da semelhança de Berta com a mãe, tão apagada estava em sua memória a imagem da mulher a quem amara alguns dias para odiá-la tantos anos com um rancor de além-túmulo, agora que o ódio lhe avivara a reminiscência, via surgir a sombra viva de Besita. 

(continua...)

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