Por José de Alencar (1875)
O Fragoso não podia achar melhor instrumento para seu projeto; e até, segundo rezava a crônica de Inhamuns, não seria êsse dos primeiros furtos ou raptos de moça que o Onofre fizesse por conta do patrão, o qual tinha fama de grande corredor de aventuras.
Ao primeiro alvorecer chegou o bandeirista com sua gente ao ponto designado. Depois que prenderam os cavalos e ataram-lhes o focinho com embornais para impedí-los de rinchar, seguiram todos o cabo, que os levou para dentro do cerrado.
— Corrimboque!
— Pronto!
— Você fica no mundéu lá do outro lado para cortar a corda; e o Raimundo do lado de cá. Raimundo!
— Rente!
— Chegue cá! Está vendo êste angico vergado ao chão? Pois assim que me ouvir gritar ai, é cortar a corda, senão corto-lhe eu as orelhas. Está entendido?
— Não quero destas graças comigo, sr. Onofre.
— Cá o amigo Aleixo Moirão, não precida que lhe diga; fica ao pé do pau…
— E lá vai a trabuzana! acrescentou o Moirão, fazendo gesto de quem mete as mãos para empurrar.
— Quando for tempo! advertiu o Onofre. Onde está o Beijú?
— Às ordens!
— Lembra-se bem do canto da saracura? Do José Cigano?… Vamos a ver lá isso!
O Beijú soltou um guincho que imitava perfeitamente o canto da saracura, e que estrugiu longe pela mata a dentro.
— Está direito. Quem falta agora? Rosinha!
— Que tem com ela? perguntou uma trêfega rapariga adiantando-se.
— Já sabe, moça. Quando o cavalo da dama passar, é de um pulo escanchar-se na garupa e segurar bem a dita, e tapar-lhe a bôca para não gritar.
— Fica ao meu cuidado.
— Bem; tudo está corrente. Agora, moita; vamos esperar que passe a comitiva, para cuidarmos cá da pessoinha. Quem piar, tem contas comigo. Toca a deitar. Corrimboque, vá ver se os cavalos estão com os focinhos bem apertados pelos embornais, e leve-os para bem longe.
Restabeleceu-se de todo o silêncio; e os emboscados permaneceram coisa de meia hora em completa mudez até que ouviu-se ao longe o tropel dos animais. Eram as duas comitivas já reunidas, que se aproximavam, e passando por diante do esconderijo, afastaram-se rapidamente.
— Agora temos umas três horas por diante. Podemos quebrar o jejum. Amigo Moirão, mande buscar os alforges, e sobretudo as borrachas que devem estar bem apoiadas, pois foi esta a ordem do sr. Marcos Fragoso, nosso capitão e o mais chibante fidalgo de todo êste Pernambuco.
— Alto lá, que o capitão é cá do Ceará, nascido em Inhamuns, na fazenda das Araras, onde morava o defunto coronel, antes de vir para o Bargado, disse Raimundo, acudindo pela terra natal.
— Cá para mim que sou de Pajeú de Flores, tudo é Pernambuco, Raimundo, quer tu queiras, que não!
— Pois eu, se não estivesse aquí no serviço do senhor capitão, lhe contaria uma história…
— Cabra mofino!
— Mas chegando no Bargado, há de ver de que pau é a canoa.
— É de pau que precisa ser descascado, Raimundo, e quero eu ter êste gôsto.
Muito a-propósito voltaram Moirão e Corrimboque, trazendo os alforges cheios de comidas e os odres retesados de vinho português e de cachaça da terra. Essa vista aplacou a resinga do Onofre com o seu bandeirista.
Estendeu-se um couro no chão e os camaradas trataram de baldear o conteúdo dos alforges e odres para as vasilhas dos estômagos. Êsses descendentes dos caboclos seguem a mesma regra daqueles: não guardar comida, nem fome, para o dia de amanhã. Assim não carregam a primeira, nem esperdiçam a segunda.
A comezaina corria no meio das pilhérias e galhofas dos bandoleiros.
— O tal sr. Fragosinho não cochila, gente! disse o Beijú. Lá no Inhamuns quanta diabinha bonita havia foi direitinho para o jiquí. Agora vai meter-se em filha de capitão-mór!…
— Que tem lá isso? perguntou com tom arrebitado a Rosinha, que estava de lado sentada em um galho sêco e almoçava laranjas e passoca em uma cuia. Por ter pai de farda vermelha, não é mais bonita do que as outras.
— De que certa faceira de meu conhecimento, não é; isso juro eu, menina.
Rosinha sorriu mostrando dois rocais de pérolas, finos dentes orientais. Tinha ela todo o busto e uma parte do rosto envolto por um mantéu escarlate, que lhe servia de capuz; mas o que se entrevia e o que se adivinhava da fisionomia como do talhe, denunciava encantos de fascinar.
Eram além daquele sorriso perlado, uns olhos negros e aveludados que cintilavam sob o capuz como estrêlas em noite procelosa, uma cintura de vespa, e um pé arqueado que aparecia por baixo da orla da vasquinha parda.
— Raimundo, homem, passa para cá a mandureba! Olha o diabo, como escorropichou!
— Não sei que tem êste vinho, hoje! observou Moirão, enxugando a bôca do sôrvo. Acholhe assim um travo como de engaço! Não sentem?
— Deixe ver!
— Eu já lhe tinha sentido.
— Há de ser da borracha.
— E não é só o vermelho; a branca também tem o mesmo gôsto.
— Mas vão escorregando; que dizem? Ainda nenhum se engasgou que eu visse.
— Então, Rosinha, não tomas um trago também?
— Para beber à sua saúde, sr. Onofre.
— Pois vá lá. À nossa, feiticeira!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Sertanejo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1848 . Acesso em: 27 jan. 2026.