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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Já, inhôr sim, a comadre Joana Pataca, uma do Outeiro. — Boa?

Mestre Cosme não afirmava porque não a conhecia bem, mas era limpa e não tinha má cara. Diz que era a melhor parteira do Outeiro. Agora, se seu Joãozinho não quisesse... A mulher já estava cuidando da menina...

— Quando apareceram as dores? — Se Maria gemia muito...

O velho informou tudo minuciosamente sem ocultar um só detalhe, juntando às palavras os seus gestos rudes de homem do campo.

A rapariga há dois dias queixava-se de umas dores nas “ancas e no pé da barriga”, acompanhadas de fraqueza nas pernas e grande falta de ar... Se gemia? Muito, coitada, metia até pena. Pudera! novinha ainda... A parteira dissera logo que a criança estava no nascedouro. Àquela noite as dores tinham piorado, ninguém dormira, velando a pobre moça. Eram chás e fricções, e — corre daqui e chega depressa — todos com cuidado, rezando à N. S. do Bom Parto.

Logo da porteira do sítio João escutou os gemidos de Maria do Carmo, trêmulos, sentidos, longos... e aquilo apertou-lhe o coração.

No pequeno quarto de taipa, com uma janelinha para o descampado, achavase tia Joaquina, à cabeceira da normalista, alisando-lhe os cabelos, com carinho, e uma outra mulher gorda, pançuda, sem casaco, muito trigueira, com marcas de bexiga no rosto, meio idosa.

— Dão licença? murmurou João da Mata descobrindo-se com respeito.

A mulher gorda tomou o casaco, às pressas, e Maria volveu os olhos úmidos e profundamente melancólicos para o padrinho, gemendo.

Mestre Cosme trouxe um tamborete.

Sentia-se um cheiro ativo de alfazema queimada: encostado à parede fumegava o braseiro:

— Então, como vai? perguntou João tomando a mão da afilhada. Muitas dores, hein?

— Assim... respondeu a rapariga mordendo o beiço com um gesto doloroso, revirando-se na rede, e continuou a gemer alto.

— A senhora é que é a parteira? tornou João para a mulher gorda que se conservara imóvel com o queixo na mão.

— Sua criada Joana Pataca.

— Já verificou se a criança está perfeita, se não há novidade?

— Ora, ora, ora... há que tempo! Daqui a pouquinho o menino está fora, se Deus quiser.

O amanuense encarou por cima dos óculos, com ar de desconfiança, o todo obeso da mulher. E, sentando-se:

— A senhora tem licença para assistir?

Não era preciso licença, não senhor. No Ceará qualquer mulher podia ser parteira contanto que merecesse confiança. Ela, Joana Pataca, era muito conhecida no Outeiro, por sinal tinha partejado uma vez a mulher do comandante do batalhão...

— Vossemecê duvida?

— Não, não... é que eu queria saber... Então não é preciso licença?

— Inhôr não. É qualquer uma.

— Está bom, está bom... Mas não se descuide... Olhe, não vá esquecer...

A parteira pousou no chão o cachimbo, que estivera fumando, e foi aquecer uns panos.

Deu meio-dia e a rapariga não teve a criança. As dores tinham melhorado um pouco. Tia Joaquina batia os beiços rezando “— Tenha paciência, minha filha, tenha fé no Senhor do Bonfim”, dizia ela muito solícita.

João da Mata passou todo esse dia na Aldeota, aguardando o sucesso, bebendo aguardente e acendendo cigarros, esquecido da repartição.

Mestre Cosme armara-lhe uma rede no alpendre e fora-se a desbastar a mata, escanchado na Coruja.

Fazia um belo dia de sol, calmo e luminoso. O arvoredo imóvel dormitava na esplêndida pulverização da luz que o narcotizava para beber-lhe a seiva. O passaredo aninhava-se na verde espessura dos cajueiros em flor, contubernal e gárrulo; rolas bravas debicavam nas clareiras os minúsculos diamantes que o sol punha na areia. E no silêncio e na beatitude daquela espécie de eremitério João pôde dormir um sono bom de duas horas, embalado pelos gemidos da afilhada como por um vago e monótono estribilho trespassado de melancolia.

Às sete horas da noite, ao acender-se a primeira vela, Maria teve um sobressalto e ergueu-se bruscamente com uma fortíssima dor no baixo-ventre, muito branca, o olhar desvairado e os cabelos em desordem.

— Que é isso, comadre! repreendeu a parteira agarrando-a. — Minha filha! fez tia Joaquina.

E em pé, entre as duas mulheres, com a cabeça arqueada para trás, contorcendo-se numa aflição suprema, a rapariga soltava gemidos estrangulados, cortada de dores, agarrando-se como uma louca ao pescoço das velhas, no bico dos pés, em camisa.

Houve uma confusão extrema.

— Sente-se, comadre, sente-se, por amor de Deus! suplicava a parteira, agarrando-a com jeito.

— Sente-se, minha filha, repetia a outra.

João da Mata acudiu gelado.

— Calma! calma! bradou estacando à porta do quarto.

Mas era tarde. Ouviu-se uma pancada surda no chão, como a queda de um bolão de barro úmido e, imediatamente, rios de sangue jorraram aos pés da parteira, e no linho branco da camisa de Maria do Carmo desenhou-se larga faixa rubra, de alto a baixo, como uma bandeira de guerra desdobrada.

— Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! rosnou Joana Pataca estremecendo.

E Maria tombou como um fardo, sem sentidos, na rede fria.

(continua...)

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