Por Inglês de Sousa (1891)
Os sabiás, os corrupiões, os diversos trovadores das selvas amazônicas recolhiam-se à frescura do arvoredo para a modulação dos trenos amorosos no mistério das folhagens. Os macacos, preguiçosos e sonolentos, internavam-se no mato em busca de algum regato cristalino ou, saciados de castanhas, balançavamse pachorrentamente em delgados cipós. As próprias ciganas arrastavam o grasnar desagradável, como vencidas do cansaço e do silêncio, que lhes não permitia a índole barulhenta e irrequieta. Os peixes tardavam em vir à tona da água, ou boiavam sem ruído, para não interromper a calada do dia. Era intenso o calor.
Padre Antônio acedera suspirando ao pedido contido no aviso do Macário, e dirigira a canoa para a beira, escolhendo lugar para o desembarque. Macário petiscara lume, fizera uma fogueirinha com ramos secos, e assara um naco de pirarucu, e umas bananas verdes.
Depois do almoço, como o calor aumentava, o sacristão obtivera o descanso de algumas horas à sombra. Escolhera um castanheiro, a cujo abrigo se estendera no chão, moído e escangalhado. E adormecera logo.
Padre Antônio aproveitara o tempo num longo passeio por entre as árvores da mata, enchendo os ouvidos dos sons sensuais do canto dos rouxinóis, e sentindo uma agradável impressão de isolamento e de bem-estar debaixo daquele teto de verdura. Quando viera a viração do mar, por volta de uma hora da tarde, toda a natureza, como reanimada pela varinha de condão de uma fada, acordara do letargo e repetira o concerto das vozes matutinas, com menos frescura e intensidade talvez, mas com a mesma agitação. Os peixes amiudaram-se à superfície do rio, como em brincos apostados, a quem mais vezes mergulhava e surgia no mesmo trecho do rio. As aves atreveram-se a deixar a sombra da floresta e a atravessar novamente o Canumã, voltando da viagem de amor ou de negócios feita pela manhã, e recolhendo-se aos ninhos, pressurosas e alegres. As palmeiras balançaram no espaço os leques verdes, auxiliando a viração na tarefa de refrescar a atmosfera; e grandes folhas de embaúba e palmas de coqueiros silvestres caíram com um ruído seco espantando as capivaras. Ao longe, o azul da cordilheira desmaiava, expirando numa orla esbranquiçada mal distinta da base dos altos cirros recém-formados, e cujos filamentos entrecortados semelhavam colunas de mármore veiado de azul sustentando rico dossel brilhantemente colorido. O sol, dardejando os raios quase a prumo sobre a coroa das palmeiras, parecia um sultão, recolhendo ao seu dormitório recôndito de tirano, satisfeito com as sultanas mais esbeltas e formosas e desdenhoso da turba das escravas. O ruído das franças agitadas pelo vento e o canto dos passarinhos distraíam a padre Antônio da meditação religiosa em que procurava afundar-se, suscitando-lhe imagens de gozo profano. Reagira, porém, contra aquela espécie de torpor moral que o invadia, e fora acordar o Macário para porem-se de novo em viagem.
O sacristão olhou tristemente para as mãos cheias de ampolas pelo desuso do exercício a que o padre o forçara, e sacudiu a desanimada cabeça. S. Rev.ma não percebeu aquela muda e eloqüente linguagem, e injungiu quase com dureza:
— Vamos, seu madraço, vamos aproveitar a fresca da tarde.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.