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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Ora, ora, ora!... É já. Que não farei eu para servir ao meu anjo da guarda? Olhe, benefício no meu coração pega de galho. Vamos por detrás do cemitério velho e num instante, estamos lá. Pelo caminho continuaram a conversar, Luzia marchava ligeira movendo o corpo com flexões de faceirice, a cabeça erecta, e o semblante sereno, rebrilhando ao júbilo de encontrar a amiga. Raulino aligeirava a travessia, contando, com a avidez contumaz do sucesso, as suas maravilhas, as suas histórias.

— Sabe – disse ela, abeirando ao assunto que a preocupava naqueles dias – que vamos morar na ladeira?

— Já sei. O Alexandre teimou em deixar o serviço da comissão. Eu, no caso dele, não largava o certo pelo duvidoso. Empregado, como está, não arranjará melhor arrumação. Enfim, pode ser que melhore. Na serra, a gente está mais à fresca, tem água com fartura.

— E vai para longe desse povaréu de pobres, esfomeados que cortam o coração... Não é?

— Lá isso é verdade. O doutô, engenheiro das obras pesque é inglês ou alemão. Não sei bem que língua ele fala. Bota o Alexandre no mesmo emprego que aqui tem, com uma gratificação de três mil-réis por dia, afora a ração. Quando é a viagem?

— Por estes dias. Talvez, depois d'amanhã.

— E eu rente...

— Também vai?

— Se estou nomeado feitor!... De mais a mais, já resolvi não largar de mão a gente que me quer bem. Comigo vai uma troça de rapazes de primeira ordem; homens que são mouros no trabalho.

— E eu que tenho pena de deixar aquela casinha, onde curti tantas amarguras!

— É assim mesmo. A gente tem saudade quando abandona o poleiro antigo; mas, ao depois, tendo junto os seus, se conforma depressa, e as saudades voam como folhas secas tangidas por um pé de vento.

— Quero ver se Teresinha também nos acompanha.

— Ela é meia bandoleiro.

— Mas, tenho certeza de que me quer muito bem.

— Não digo o contrário. Experimente... E... a propósito... Sabe que o Crapiúna fez, outro dia, na cadeia um rolo danado? Estava como uma fera. Pensavam até que havia perdido o juízo.

Luzia sentiu percorrer-lhe o corpo intensa crispação de terror.

— Mas eu – continuou Raulino – disse logo que aquilo era cachaça. — Quem sabe!... Talvez não – arriscou Luzia.

Haviam chegado ao renque de casas da Leonor, que terminava na casa malassombrada.

— E aqui – disse Raulino, indicando o pardieiro desengonçado. – Abeiremos às pedras da fortaleza, Teresinha deve estar nos fundos.

Junto dos rochedos a prumo, havia uma latada de palhas de carnaúba, recentemente construído para servir de abrigo ao burro, que ali estava de pé, sonolento, espantando, devagar, com açoites da cauda pelada, as moscas que erravam sobre as chagas da sarnelha e das espáduas, quase cicatrizadas numas manchas negras, lubrificadas com azeite de carrapato. Mais adiante, alguém lavava roupa, com um lânguido bater cadenciado de pano molhado, algumas peças enxombradas, arrumadas, em tulha, sobre um lajedo úmido.

— Teresinha! – chamou Luzia.

Cessou o rumor de lavagem, e Luzia insistiu.

— Teresinha, sou eu, Luzia!...

E, avançando de jacto, deparou-se-lhe a amiga, que se erguera, seminua, com uma saia a tiracolo, molhada, colada ao corpo.

— Que é isto? – exclamou Luzia, passando-lhe o braço nos ombros.

— Nada – suspirou a amiga, baixando os olhos, quase opacos, de infinita tristeza. – Estou pagando as minhas culpas...

— Ingrata! E eu que esperei, que passei noites em claro, pensando em você.

— Para que afligir os outros com a minha desgraça! — Que desgraça! Deus teve pena de nós.

E, com um meigo gesto de ternura, conchegou-lhe a cabeça ao seio.

— Sou amaldiçoada ...

— Amaldiçoada? Que maluquice! E por isso está servindo de negra cativa? Como está você mudada, magra! Como ficou outra em tão poucos dias!...

— Teresa, deixe, minha filha; não te mates tanto – disse, dentro de casa, uma voz carinhosa.

— Quem é? – perguntou Luzia.

— É... é... – balbuciou Teresinha, com os olhos trêmulos, rasos de lágrimas – É... minha mãe...

— Tua mãe?!

— Sim, ela mesma.

E contou como encontrara a família, contou as suas alegrias por se mais não achar só no mundo, desprezada e vilipendiada, alegrias que foram efêmeras, desfeitas pela cólera do pai que lhe recusara a bênção, e a tratava como estranha à família. Os carinhos da mãe, o doce contacto da irmãzinha, a suave Maria da Graça, que era um anjo de bondade, mal lhe leniam a rudez fulminante do golpe, que lhe lascara o coração, e o expusera, retalhado, à luz com as suas máculas, como chagas sangrentas, descascados. Desde aquele momento, horrorizada de si mesma, obrigada a baixar os olhos diante dos entes queridos, sabedores do seu grande crime, e evitando o frio olhar paterno, se consagrara inteira à redenção do passado nefando, pelo castigo cruel e merecido.

— Tive ímpetos – concluiu ela, aos soluços – de trepar naquelas pedras e atirar-me de lá de cabeça para baixo, mas... não tive coragem de morrer...

— Deixa-te disso – acudiu Luzia, com ternura – Aqui estou eu para te ajudar, para te pagar o muito que me fizeste, porque se sou feliz, a ti é que devo e a Deus.

(continua...)

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