Por Aluísio Azevedo (1881)
Raimundo esperou, estático e sôfrego, dois minutos, quatro, cinco. Foi inútil— a voz não reapareceu. “De sua mãe - nem uma palavra!... Maldita conspiração!...” No fim de meia hora percorreu de novo a varanda; não sabia que julgar daquilo, nem o que devia fazer, mas jurava descobrir tudo. “Oh! quem quer que falara estava perfeitamente a par da história de São Brás e havia de saber alguma coisa de sua vida!...” Foi à alcova, tomou o candeeiro, deu-lhe luz, percorreu os vários lados da varanda, entrou nos aposentos abertos, desceu, andou lã por baixo, às tontas, porque estava tudo atravancado de coisas, tomou a subir, sem conseguir nada, e, aborrecido, frenético, tomou ao seu quarto, diminuiu a luz e deitou-se, sem descalçar as botas.
Não fechara a porta, de propósito; estava alerta, ao primeiro n mor saltaria. Contudo cerrou as pálpebras; a fadiga da viagem pedia repouso; já era quase madrugada. Ia adormecer.
Mas, um leve e surdo ruído despertara-o. Raimundo encolheu-se na rede e insensivelmente se lembrou do revólver que tinha a seu lado; na porta desenhava-se, contra a claridade exterior, a mais esquálida, andrajosa e esquelética figura de mulher, que é possível imaginar. Era uma preta alta, cadavérica, tragicamente feia, com os movimentos demorados e sinistros, os olhos cavos, os dentes encarnados.
O rapaz, apesar da sua presença de espírito, teve um forte sobressalto de nervos; todavia, não se mexeu, na esperança de ouvir ainda alguma revelação; o espectro porém, olhou em torno de si, viu-o, sorriu, e tomou a sair silenciosamente.
Raimundo levantou-se de um pulo e precipitou-se atrás dele que fugiu na sua frente, como uma sombra. Atravessaram o primeiro lance da varanda, o segundo e o terceiro.
O fantasma desapareceu pela porta do fundo, Raimundo acompanhou-o com dificuldade e, ao chegar lá embaixo, avistou-o já no pátio, a fugir-lhe sempre. O rapaz tinha contra si não conhecer o terreno; foi às apalpadelas e aos encontrões que conseguira atravessar a parte inferior da casa. Lá fora havia já perdido de vista a sombra fugitiva; olhou em tomo de si, caminhou à toa de um para outro lado, nervoso, irrequieto, voltando-se rápido ao menor mexer de galhos. Afinal, auxiliado pela lua, divisou em distancia o vulto sinistro, que se afastava, prestes a sumir-se nas meias-tintas da noite. Então abriu contra ele numa vertiginosa carreira de boas pernas; mas o vulto embrenhando-se no mato, desapareceu totalmente.
Entretanto, os primeiros sintomas do dia avermelhavam o horizonte e nos ranchos erguia-se já a escravatura para o trabalho das roças. As poucas horas em que Raimundo encostou a cabeça. para descansar um bocado, foram cheias de sonho.
Ao levantar-se pelas sete da manhã, aborrecido e quase em dúvida se sonhara toda a noite ou se, com efeito, vira e ouvira o singular espectro. Todavia, ao almoço. conversou-se alegremente sobre o fato, e o Cancela explicou que o fantasma devia ser alguma dessas muitas pretas velhas, agregadas aos ranchos das fazendas e que naturalmente estava bêbada. E contou que, nas noites de—tambor elas costumavam dormir; por ali, no primeiro rancho encontrado em caminho. Ali mesmo havia sempre uma súcia dessas pestes; apareciam e desapareciam, sem ninguém lhes perguntar donde vinham, nem para onde iam.
— São escravas fugidas? indagou Raimundo.
O Cancela respondeu que não. Os mocambeiros formavam grupo a parte; nunca apareciam publicamente, viviam escondidos nos seus quilombos e só se mostravam na estrada real para atacar os viajantes. Os agregados eram pretos forros, forros em geral com a morte de seus senhores, e que habituados desde pequenos ao cativeiro não tendo já quem os obrigasse a trabalhar e não querendo sair do sertão, ficavam por ai ao Deus dará, pedinchando pelas fazendas um bocado de arroz para matar a tome, e um pedaço de chão coberto para dormir; Simples vagabundos, que não faziam mal a ninguém.
— Olhe, continuou ele, de São Brás tínhamos aqui a principio três que andavam p'r'aí sem fazer nada. Dois morreram e eu enterrei-os, o terceiro não sei se ainda existe, é uma preta idiota. Talvez a que o senhor doutor viu esta noite.
E, como Raimundo pedisse mais informações, acrescentou que ela as vezes passava meses inteiros na fazenda; os pretos gostavam de ouvi-la cantar e vê-la dançar. Doida varrida! estava sempre resmungando ia consigo; mas que, de tempos aquela parte, não aparecia, era bem possível que o pobre-diabo tivesse Já esticado a canela ai pelo mato.
Falou-se também da mãe-da-lua. Cancela contou velhas anedotas de estrangeiros que se perderam nas matas, seguindo o canto original daquele pássaro. Depois trataram de interesses; e fechou-se o negocio da fazenda Raimundo estava por tudo, contanto que lhe não demorassem a partida — ardia de impaciência por visitar São Brás.
Não obstante, o Cancela instava com os dois hóspedes para que se demorassem uma semana, ou, pelo menos, alguns dias Manual disparatou: Que loucura! Pois ele podia lá passar dias longe do seu armazém?:..
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O mulato. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16537 . Acesso em: 25 mar. 2026.