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#Romances#Literatura Brasileira

O Cortiço

Por Aluísio Azevedo (1890)

As vozes calaram-se logo, fazendo o silêncio completo: depois nada mais se ouviu.

Piedade ficou à janela. As trevas dissolveram-se afinal; uma claridade triste formou-se no nascente e foi, a pouco e pouco, se derramando pelo espaço. O céu era uma argamassa cinzenta e gorda. O cortiço acordava com o remancho das segundas-feiras; ouviam-se os pigarros das ressacas de parati. As casinhas abriam-se; vultos espreguiçados vinham bocejando fazer a sua lavagem à bica; as chaminés principiavam a fumegar; recendia o cheiro do café torrado.

Piedade atirou um xale em cima dos ombros e saiu ao pátio; a Machona, que acabava de aparecer à porta do número 7 com um berro para acordar a família de uma só vez, gritou-lhe:

— Bons dias, vizinha! Seu marido como vai? melhor?

Piedade soltou um suspiro.

— Ai, não mo pergunte, S’ora Leandra!

— Piorou, filha?

— Não veio esta noite pra casa...

— Olha o demo! Como não veio? Onde ficou ele então?

— Cá está quem não lho sabe responder.

— Ora já se viu?!

— Estou com o miolo que é água de bacalhau! Não preguei olho durante a noite! Forte desgraça a minha!

— Teria a ele lhe sucedido alguma?...

Piedade pôs-se a soluçar, enxugando as lágrimas no xale de lã; ao passo que a outra, com a sua voz rouca e forte, que nem o som de uma trompa enferrujada, passava adiante a nova de que o Jerônimo não se recolhera aquela noite à estalagem.

— Talvez voltasse pro hospital... obtemperou Augusta, que lavava junto a uma tina a gaiola do seu papagaio.

— Mas ele ontem veio de muda... contrapôs Leandra.

— E lá não se entra depois das oito horas da noite, acrescentou outra lavadeira.

E os comentários multiplicavam-se, palpitando de todos os lados, numa boa disposição para fazer daquilo o escândalo do dia. Piedade respondia friamente às perguntas curiosas que lhe dirigiam as companheiras; estava triste e sucumbida; não se lavou, não mudou de roupa, não comeu nada, porque a comida lhe crescia na boca e não lhe passava da garganta; o que fazia só era chorar e lamentar-se.

— Forte desgraça a minha! repetia a infeliz a cada instante.

— Se vais assim, filha, estás bem arranjada! exclamou-lhe a Machona, chegando à porta de sua casa a dar dentadas num pão recheado de manteiga. Que diabo, criatura! O homem não te morreu, pra estares agora ai a carpir desse modo!

— Sei-o eu lá se me morreu?... disse Piedade entre soluços. Vi tanta coisa esta noite!...

— Ele te apareceu nos sonhos?... perguntou Leandra com assombro. — Nos sonhos não, que não dormi, mas vi a modos que fantasmas...

E chorava.

— Ai, credo, filha!

— Estou desgraçada!

— Se te apareceram almas, decerto; mas põe a fé em Deus, mulher! e não te rales desse modo, que a desgraça pode ser maior! O choro puxa muita coisa! — Ai, o meu rico homem!

E o mugido lúgubre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lagar desconhecido e agreste. Mas o trabalho aquecia já de uma ponta à outra da estalagem; ria-se, cantava-se, soltava-se a língua; o formigueiro assanhava-se com as compras para o almoço; os mercadores entravam e saiam: a máquina de massas principiava a bufar. E Piedade, assentada à soleira de sua porta, paciente e ululante como um cão que espera pelo dono, maldizia a hora em que saíra da sua terra, e parecia disposta a morrer ali mesmo, naquele limiar de granito, onde ela, tantas vezes, com a cabeça encostada ao ombro do seu homem, suspirava feliz, ouvindo gemer na guitarra dele os queridos fados de além-mar.

E Jerônimo não aparecia.

Ela ergueu-se finalmente, foi lá fora ao capinzal, pôs-se a andar agitada, falando sozinha, a gesticular forte. E nos seus movimentos de desespero, quando levantava para o céu os punhos fechados, dir-se-ia que não era contra o marido que se revoltava, mas sim contra aquela amaldiçoada luz alucinadora, contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. Parecia rebelar-se contra aquela natureza alcoviteira, que lhe roubara o seu homem para dá-lo a outra, porque a outra era gente do seu peito e ela não.

(continua...)

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