Por Aluísio Azevedo (1882)
E Teresa sofria muito com tais contrariedades. Aquele amor era toda a sua preocupação, o seu bem, a coisa boa de sua vida; era aquele amor o que lhe dava a alegria, o apetite, o sono; privarem-na dele seria privá-la da saúde e por bem dizer da existência. Levassem-lhe tudo, com a breca! posição social, regalias de dinheiro, jóias, casa, o que quisessem; contanto que lhe deixassem aquele amor! Sem ele do que lhe poderia servir o resto?!
E, quanto mais lhe obstavam o curso dos desejos, quanto mais lhe cortavam a ela os meios de se aproximar do amante, mais este lhe enchia o coração e lhe tomava o espírito. A corrente ameaçava transformar-se em pororoca; o amor, se insistissem em represá-lo, podia de súbito converter-se em paixão louca e desenfreada.
Um mês depois de sair da casa do comendador, Portela recebeu o seguinte bilhete:
"Meu Luiz. — Arranja, por amor de Deus, uma casa, um lugar, qualquer parte, onde nos possamos encontrar. Não posso mais! Marca uma hora e eu lá estarei sem falta. — Tua T."
Portela sentiu um grande prazer ao receber estas palavras, mas ao mesmo tempo teve medo.
— Não fossem vir a saber!... considerava ele. Era o diabo!
Durante toda a noite não pensou noutra coisa. Seu desejo, estimulado pela falta dos carinhos da amante, encarecia-lhe as saudades e fazia avultarem na sua memória os encantos de Teresa. Não podia sossegar: o corpo pedia-lhe aquele amor com uma exigência irracional; desejava amar como o faminto deseja comer.
No dia seguinte, quando foi à casa da mulher do comendador, levava pronta a resposta em um pedacinho de papel, receoso de não ter ocasião de falar com ela.
Arranjara de antemão um cômodo no campo de Santana. O lugar nesse tempo prestava-se maravilhosamente para as empresas desse gênero.
A entrevista seria às onze e meia da manhã. Portela apresentara-se às dez, muito aflito.
Nunca se sentira tão sobressaltado: desde a véspera que o coração lhe pulsava agoniadamente; não pudera comer, nem pudera dormir. Doía-lhe levemente a cabeça e amargava-lhe na boca o gosto do fumo de que ele, naquelas últimas horas, abusara. Não tinham decorrido dez minutos, quando se ouviram duas pancadinhas na porta da saleta.
Portela correu a abrir.
Ainda não era Teresa; era o homem encarregado de limpar a casa. Luiz Portela atirou-lhe um olhar interrogativo.
— Vinha varrer o quarto, explicou aquele, um pouco perturbado por não conhecer o novo locatário.
— Deixe isso para outra ocasião, aconselhou este.
E, quando o outro ia a sair, acrescentou entregando-lhe uma nota de dois mil réis:
— Traga-me uma garrafa de cerveja e guarde o resto.
O homem voltou com a garrafa, abriu-a, encheu um copo de cerveja e retirou-se. Portela fechou de novo a porta, depois de ter recomendado que precisava ficar só.
Mas não podia sossegar um instante: ia da alcova à janela, da janela à sala; abria um livro sobre a mesa, não conseguia ler duas linhas; sentava-se, para se levantar logo ao menor rumor que sentia na escada.
E Teresa nada de aparecer. Portela tornava-se cada vez mais inquieto e mais sobressaltado. Estava indisposto; os goles de cerveja caíam-lhe no estômago como pedras.
Os minutos arrastavam-se lentamente. Ele acendia cigarros consecutivos; e passava de vez em quando pelo espelho, olhando a sua figura um pouco desfeita pela irregularidade daquele dia.
Deram as doze. Portela perdeu a paciência.
— Ora! exclamou ele, gesticulando consigo. Isto não se faz! Há duas horas que estou aqui a olhar para as moscas! Mas suspendeu as suas considerações, porque sentiu parar na rua uma carruagem e ouviu, logo em seguida, passos agitados subirem a escada.
O rapaz deu uma carreira para a porta; abriu-a; e disse apressadamente para quem acabava de chegar:
— Aqui! É aqui!
Teresa vinha vestida de preto; um véu cobria-lhe o rosto, e toda ela tremia de comoção. Ao entrar, descobriu logo a cabeça; estava muito pálida e assustada. Portela recebeu-a nos braços e levou-a para o sofá. Ela não podia dar uma palavra.
— Descansa, descansa um pouco, dizia ele, a desafrontá-la do chapéu e da capa.
— Ah! suspirou a mulher do comendador, como quem descarrega a consciência de um grande peso e, sem dar uma palavra, pendurou-se ao pescoço do rapaz e ficou a olhar para ele com a voluptuosidade de quem bebe com muita sede. Depois principiou a conversar; disse que estivera arriscada a não poder vir ter ali: todos pareciam acertados em contrariá-la. Narrou pormenores, contou as pequeninas circunstâncias que precederam à sua saída de casa.
Portela ouviu tudo isso com muito interesse, mas o seu sobressalto, longe de diminuir com a chegada de Teresa, avultava cada vez mais.
— Felizmente, acrescentou ela, tenho uma amiga íntima, uma rapariga de muita confiança, que foi minha companheira de colégio e a quem revelei todo o nosso segredo...
— O quê? interrompeu Portela contrariado. Pois meteste mais alguém neste negócio?!...
— Ah! ~ que tu não conheces a Chiquinha... daquela não temos que recear coisa alguma... Não! lá por esse lado estou segura!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.