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#Romances#Literatura Brasileira

A Condessa Vésper

Por Aluísio Azevedo (1897)

— Sim! Mas toda cautela é pouca... Nós temos de tratar de negócios, que nos podem meter a ambos na cadeia!...

— Deixa­me descansar um pouco.

— Toma um grogue...

— Dá­me qualquer cousa. Uf!

Melo Rosa serviu­lhe o grogue e, depois de acender um charuto, foi colocar­se ao lado dela.

— Ora, vamos lá a saber em que pé se acham os nossos interesses!...

— Está tudo pronto. Logo mais receberás um bilhete meu, que te marco o nosso encontro definitivo lá em casa, amanhã às quatro horas da tarde...

— Em Laranjeiras?

— Sim.

— E daí?

— Daí é que se torna indispensável que não deixes de ir!

Ambrosina chamava a si a paternidade do bilhete ditado por Gabriel.

— Mas, continuou ela; para que Gabriel não nos embargue a fuga, é mister que, antes de me procurares, já tenhas providenciado sobre e1e...

— Como assim?... perguntou Melo Rosa, seguindo com todo o interesse as palavras da rapariga.

— Diz­me uma cousa, Melo! estás seriamente resolvido a fugir amanhã comigo, ocupando tu o lugar de Gabriel?!...

— Se estou resolvido? É boa! Achas então que eu chegaria a este ponto e recuaria agora defronte de qualquer dificuldade?... Nunca me arrependo do que faço; disse que ia contigo, e irei! Afinal para isso é preciso cometer um crime? Bem! eu cometerei! O amor fez de mim um ladrão? Seja! Eu roubarei os vinte contos de réis de Gabriel para poder acompanhar­te! Estou resolvido a tudo!

— Ah! exclamou Ambrosina; acredito agora que me ames! Só nestas situações melindrosas, em que jogamos a vida e a honra, é que se pode reconhecer amor verdadeiro; esse que não aceita barreiras, nem conveniências de nenhuma ordem! Eu serei a tua cúmplice, e nunca me arrependerei disso. "Tudo que é inspirado pelo amor, disse George Sand, é sempre belo e sublime!" E foi só o amor que nos inspirou!

— E perguntas ainda se estou resolvido a fugir contigo!...

— Pois bem! assentou Ambrosina, segurando com veemência as mãos de Melo Rosa; para podermos fugir, é necessário que Gabriel amanhã as quatro horas da tarde esteja preso sem lugar seguro donde não possa sair antes de nossa partida... E esse o único meio que temos para não nos ser embargada a viagem!

Melo Rosa concentrou­se.

— E onde será ele encontrado por essa hora? perguntou afinal, depois de uma pausa.

— Onde eu quiser! respondeu friamente Ambrosina.

O que preciso saber ao certo é se te podes encarregar, com segurança, de dar as providências necessárias para que ele seja preso.

— Posso... disse Meio, depois de uma nova pausa.

— Mas, repara bem para o que prometes... observou­lhe a embusteira com um olhar sério. Se não conseguires retê­lo, não poderemos fugir, e tu serás preso como ladrão! Vê lá!

E fez por sua vez uma pausa, para estudar na fisionomia do rapaz a impressão causada por suas palavras.

— Gabriel, prosseguiu ela, conta partir amanhã, comigo pelo transporte da linha francesa. Eu me encarregarei das malas, e ele ganhará a rua logo depois do almoço. Hoje à noite já o dinheiro estará em meu poder. Tens por conseguinte de arranjar as cousas de modo que o bobo às quatro da tarde já esteja preso em lugar seguro, e nós perfeitamente senhores do campo, sem risco de que alguém nos possa tolher o vôo. Passaportes, licenças, bilhetes, tudo amanhã se achará em minhas mãos. Gabriel é muito pouco conhecido, tu facilmente passarás por ele... Se te falta, porém a coragem para tudo isto; se és homem medroso, um homem de meia resolução, melhor será que desde já desistas dos teus projetos. Sem uma boa dose de energia, nada se fará.

— Parece que zombas de mim, Ambrosina! Algum dia já me viste hesitar diante de qualquer embaraço? Juro­te por minha honra que Gabriel, amanhã às quatro horas da tarde, estará incomunicável!

E tu, por essa mesma ocasião, à minha procura lá em casa, não é verdade?

— Sim! Podes ter certeza. Mas ainda preciso do teu auxílio...

— Para quê?

— É preciso que deixes uma carta dirigida ao Gabriel, e que a faças chegar diretamente às mãos deste, amanhã pela volta das duas da tarde.

— Pois não, respondeu Ambrosina, sem conter um sorriso, que lhe provocava a consciência do fato. E assentou­se a uma mesa para escrever.

— Vamos lá! disse ela.

— "Gabriel" — ditou Melo Rosa.

— Nunca o trato, assim, observou Ambrosina; e escreveu, repetindo em voz alta:

— "Meu amor".

— Bem! concordou o Melo. Escreve agora:

"Hoje, às duas horas da tarde, é necessário que estejas presente à penhora que vai sofrer o nosso Jorge. Gaspar acha­se longe e não lhe pode valer. Fui tão protegida e obsequiada por aquela boa gente, que não tenho ânimo de ficar silenciosa em semelhante ocasião. Vai, pois, e socorre­os".

— Agora, assina.

— Espera, disse a rapariga. Preciso acrescentar alguma cousa por minha conta. E escreveu mais:

"Laura não assistirá à constrangedora ação da justiça, porque estará em minha companhia. É urgente que vás; precisamos, como sabes, dos serviços de Jorge para a nossa viagem...

(continua...)

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