Por Joaquim Manuel de Macedo (1862)
S. Carlos fez presente de cerca de setenta sermões que tinha conservado a um clérigo secular da sua amizade, que o freqüentou muito nos seus últimos dias de vida. E o padre cujo nome não quero declinar sumiu um legado tão precioso que era mais da pátria que dele próprio.
Sampaio morreu de um ataque apoplético e deixou em sua cela um caixão contendo mais de trezentos sermões. O provincial que então servia, e que era Frei Joaquim de São Daniel, arrecadou o caixão em que ninguém mais pôs os olhos; e quando, em 1852, faleceu, algumas horas antes de morrer, ou na véspera do dia do seu passamento, ofereceu esse rico tesouro a um jovem religioso seu discípulo.
Mas a última vontade de São Daniel não foi cumprida. O caixão de sermões foi arrecadado pelo provincial que nessa época servia, e cujo nome não declino porque ainda existe, e sem dúvida ainda guarda zeloso aquela riqueza, de que não houve mais notícia, e que, eu o penso, pretende por sua morte legar à corporação a que pertence.
Muito melhor e louvável fora que o respeitável religioso entregasse ainda em sua vida, e quanto antes, esses desejadíssimos trabalhos do ilustre Frei Sampaio. A isso o convida o dever do patriotismo e da religião.
Entretanto, penso que para glória e crédito da sua ordem, e também para a glória da pátria, devem os frades capuchos empenhar-se em obter aquele precioso caixão ou, pelo menos, em reunir e publicar em uma coleção esses poucos sermões que existem impressos em folhetos e alguns manuscritos que restem dos numerosos trabalhos desses grandes pregadores, para que os vindouros possam ao menos fazer idéia da robusta, esclarecida inteligência de tão distintos brasileiros.
Foi pena que se esbanjassem tantos e tão preciosos tesouros.
Frei Sampaio especialmente era de uma fertilidade pasmosa. Sentava-se à mesa, dobrava duas, três ou quatro folhas de papel, cosia-as, tomava a pena e escrevia sem parar, com uma letra sempre igual, miúda e de caráter antigo. Não emendava nem riscava, e acabava o discurso exatamente no fim da última página do folheto que preparava.
Sampaio gostava de ter dinheiro; e como não lhe sobrassem os meios, escrevia sermões para os padres, que lhes iam encomendar ao preço de quatro mil-réis. Faça-se idéia dos triunfos que se alcançaram aí pelos púlpitos da cidade e das freguesias do interior, à custa de Frei Sampaio.
Era de uso naquele tempo que os pregadores franciscanos pagassem ao convento, de cada sermão de Evangelho, uma dobra , e de cada prática, quatro mil réis. O ônus era pesadíssimo, porque então não se gratificavam tão bem como hoje os oradores sagrados.
Os frades capuchos pregadores revoltavam-se todos contra semelhante tributo, e era já objeto de divertido e tolerável empenho no convento o ver qual deles podia escapar, por inocente astúcia, ao pagamento da dobra ou dos quatro mil-réis.
Contava muitas vezes Mont’Alverne que um dos maiores desapontamentos por que passara fora devido àquele empenho.
Tinham-lhe ido encomendar um sermão para uma festa que no dia 15 de agosto se devia celebrar na igreja dos Terceiros do Hospício.
Mont’Alverne declarou que pregaria, se se guardasse inviolável segredo a respeito do nome do pregador. Aceita a condição, preparou o seu sermão; e no dia da festa, saiu do convento, pregou e voltou para a sua cela sem que um só dos frades, e menos o guardião, concebesse a menor suspeita sobre o caso.
À noite, havia no convento uma solenidade a N. S. da Assunção, no altar da enfermaria; e Mont’Alverne, chegando para tomar parte nela, ainda um pouco cedo, começou a passear e a conversar num salão com o guardião, que era Frei Joaquim de São Jerônimo.
Passados apenas alguns minutos, entra no salão um devoto freqüentador do convento de S. Antônio, homem estimável, que tinha em grande apreço os bons pregadores, e que, por sinal, felizmente ainda hoje vive, e lembrar-se-á deste caso.
O bom devoto, logo que põe os olhos em Mont’Alverne corre para ele entusiasmado e exclama:
– Ah! padre-mestre. Que magnífico sermão pregou hoje vossa caridade! A admiração foi geral, e eu ainda me acho comovido e arrebatado.
Mont’Alverne estava, dentro de si, maldizendo do entusiasmo do seu admirador; e este, cada vez mais ardente e enlevado, relatou tudo quanto testemunhara.
O guardião, desatando a rir, voltou-se para Mont’Alverne e disse-lhe:
– Venha a dobra, padre-mestre. Venha a dobra.
E Mont’Alverne teve de pagá-la.
Frei Sampaio foi mais feliz do que Mont’Alverne.
Estava ele para pregar um sermão de angústia na igreja da Misericórdia, e dias antes, saindo da sua cela, viu o guardião, que era então um outro célebre pregador, Santa Leocádia, passeando triste como se estivesse contrariado.
– Que tem, padre-mestre? – perguntou Frei Sampaio.
– Ah! – disse Santa Leocádia. Não se pode mais ser preladonestas casas. Os frades não dão aos prelados se não desgostos e angústias.
– Deveras? – tornou Frei Sampaio, sorrindo.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=19326 . Acesso em: 31 jan. 2026.