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#Romances#Literatura Brasileira

A Normalista

Por Adolfo Caminha (1893)

— Sei lá, menina, sei lá... No Cocó, na Aldeota, no inferno. Tomara que aquela peste não me entre mais em casa.

— E tu não viste logo se ela estava grávida?

— Vi lá o quê! Andava aqui toda espremida com um arzinho de mosca morta, metida no quarto que nem uma freira. Uma sonsa, Amélia, uma sonsa é o que ela é.

— O tal do Sr. Zuza, hein?!

— Qual Zuza, mulher, elas é que são as culpadas, porque não se dão ao respeito, não têm vergonha.

— E o que diz a isso o Sr. Joãozinho? Furioso, hein?

— É o que tu pensas, indiferente como se não fosse com gente dele...

E o diálogo continuou animado, sem que D. Terezinha revelasse à amiga as suas suspeitas acerca de João da Mata e Maria do Carmo.

Amélia falou sobre o José Pereira, queixando-se de que ele há muitos dias não aparecia em sua casa, “todo embebido com a outra, com a Lídia”. O redator da Província não tirava os pés do Benfica, e, às vezes, voltava depois das nove, no último bonde.

A Teté não achava feio isso, um homem ir diariamente, às mesmas horas, à casa duma senhora casada! Era feíssimo! Já andavam até dizendo coisas... E então o José Pereira que não era tolo e tinha fama...

— Queira Deus que a tal Sra. D. Lídia não vá se arrepender... É verdade, a mãe, a viúva Campelo, como vai?

— Naquilo mesmo, respondeu D. Terezinha com um sorriso de malícia, piscando um olho.

Riram baixinho e a conversa recaiu sobre D. Amanda àquela hora entregue ao seu delicioso farniente de mulher solteira que dispõe do tempo a seu bel-prazer e da algibeira de um capitalista generoso.

Toda a cidade vivia agora do escândalo, dando-lhe vulto, criando novelas de romance, esmiuçando pequeninos acidentes domésticos, com um olho na política e outro na normalista, à espera de chuvas e de novos acontecimentos sensacionais.

João da Mata não se inquietava muito, de resto, e continuava a sua vida inalterável de empregado subalterno, sem prestar ouvidos à maledicência, encantonado no seu absoluto desprezo à sociedade e à opinião pública, cada vez mais submisso à mulher que o cobria de injúrias e labéus.

— Sedutor de filhas alheias! dizia-lhe ela na cara, ameaçadoramente. Peste! Coisa-ruim! Sem-vergonha!

E ele punha-se a cantarolar, com os ouvidos arrolhados, o olhar no teto, estendido na rede, mudo, impotente como um eunuco.

Uma noite, pela madrugada, despertou com o desejo veemente de ir ter com D. Terezinha, na alcova. Há meses não se chegava a mulher alguma, cheio de aborrecimento pelo outro sexo, frio, mole, inacessível quase às carícias da fêmea. Agora, porém, renascia-lhe a virilidade, sentia uma forte vontade indomável e impetuosa, de amar fisicamente, de crucificar-se nos braços de uma mulher que não fosse de todo mundo e confundir o seu sangue com o dela num demorado e indescritível espasmo. Tremiam-lhe as carnes como ao contato de um condutor elétrico, uma formidável ereção a distender-lhe os nervos, escabujando na rede em espreguiçamentos lúbricos, vergando, como um vencido, ao poder irresistível da animalidade humana. O sangue pulava-lhe nas artérias numa hipernésia que lhe atordoava os sentidos, que lhe tirava a respiração, impelindo-o para a mulher.

Pensou na Mariana, que dormia ali perto, mas a Mariana era uma criada que não se lavava, um estafermo sem sexo, incapaz de satisfazer os apetites de um homem. Não havia jeito senão tentar a Teté. E lá se foi, sutilmente, pé ante pé, corredor afora, direito à alcova da infeliz senhora.

A alcova tinha uma porta para o corredor. João olhou pelo buraco da fechadura, mas não pôde ver senão o espelho do velho toucador, defronte, inclinado para a frente, refletindo um vaso noturno, e roupas espalhadas no chão.

Bateu de leve, e, receoso da criada, deu volta pela sala da frente, tateando no escuro, sem ruído. A outra porta da alcova conservava-se entreaberta: empurrou de leve enfiando a cabeça para dentro.

— Teté! chamou numa voz quase imperceptível.

Silêncio profundo. Os cortinados da cama estavam cerrados. João foi entrando devagar, equilibrando-se no bico dos pés.

— Teté! repetiu à meia voz.

Ninguém respondeu. Adiantou-se e escancarou as cortinas, mas — oh! — o leito matrimonial, largo e fresco, branquejava desolado, sem sombra de mulher.

João ficou boquiaberto, muito admirado. “— Que significava aquilo?” Os lençóis revoltos acusavam o desespero de uma pessoa que não teve tempo a perder. Ante a clarividência assombrosa da realidade, o amanuense rodou sobre os calcanhares, e, resignado como um boi, sem proferir palavra, murcho, sentiu desaparecer-lhe subitamente o forte desejo que ainda há pouco o espicaçava como uma urtiga. Retirou-se macambúzio a pensar nos caprichos da sorte.

CAPÍTULO XV

Quando mestre Cosme, uma manhã, foi avisar a João da Mata, que “a menina estava com as dores”, o amanuense dormia ainda sob os lençóis e nem sequer sonhava na afilhada.

Ergueu-se da rede, com um pulo, enfiou as calças, lavou-se num instante, e abalou mais o velho para a Aldeota, sem dizer palavra a D. Terezinha.

— “Já tinham arranjado parteira?” inquiriu acelerando o passo.

(continua...)

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