Por Inglês de Sousa (1891)
O movimento da fauna amazonense arrancara padre Antônio à meditação a que se queria entregar, sujeitando-o todo à encantadora contemplação das maravilhas da natureza selvagem, naquela esplêndida manhã de agosto, em meio do largo rio que se desdobrava, a perder de vista, numa luzente toalha em que se refletia, como em puríssimo cristal, o azul dum céu sem nuvens, sombreado pelas ramagens de árvores seculares, e riscado em diagonal pela linha de vôo de pássaros desconhecidos. As recordações da meninice assaltaram-no de novo, eram a mais grata memória do seu cérebro, evocadas sempre pelo espetáculo da natureza virgem. E vira-se a percorrer os campos incultos da fazenda, a aventurarse numa pequena canoa pelo Amazonas fora, quando gostava de supor-se perdido na vastidão do rio, e a imaginação sonhava uma vida acidentada de combates com feras e de luta com os elementos na solidão das águas e das matas. Agora via quase realizado o seu sonho de menino, em pleno deserto, indo talvez perder-se em paragens desconhecidas, dormir ao relento, matar a fome nos maracujás silvestres e nas castanhas oleosas, talvez morrer às mãos dos índios do sertão, que não teriam pena da sua mocidade e gentileza. Mas em todo o caso ia saciar a alma de solidão e de liberdade, gozar talvez a inefável delícia de sentir-se só num grande país, de poder entregar-se desassombradamente ao enlevo dos seus queridos pensamentos íntimos, sem receio de olhares indiscretos nem de interrupções importunas. Ia, enfim, achar-se face a face com a grande e virgem natureza, num tête-à-tête misterioso, em que poderia desabafar as dores secretas do coração dilacerado por sentimentos incompreensíveis; pensar e falar sinceramente, pondo o peito a nu, reconhecer-se a si próprio, ser franco consigo mesmo, propondo e resolvendo com lealdade, despido de todos os preconceitos, de todos os prejuízos de educação e de doutrina, o até ali insolúvel problema da natureza humana. Esta idéia, esta esperança mergulhava-lhe os sentidos numa embriaguez estranha, que lhe fazia esquecer as horas, imóvel, à popa da montaria, não sentindo o sol que na sua marcha ascendente, vinha queimar-lhe as faces em carícias ardentes.
Macário, à proa, remando com afinco, suando em bica, começava a achar que os mundurucus estavam muito longe, e o remo lhe cairia das mãos antes de lhes pôr a vista em cima. Teimava naquela tarefa ingrata de repelir a água com a face do seu remo redondo, inabilmente manejado, porque, graças a Nossa Senhora, nunca fora remador de montarias. Sentia arderem-lhe as mãos, uma dor aguda comia-lhe as costas, descendo-lhe até os rins, e copioso suor inundava-lhe a fronte, dando uma sensação de crescimento ao lombinho, que o sol castigava com uma preferência incômoda. Desde alta madrugada estava Macário acordado, tinha perdido a noite, pela primeira vez na vida, na luta terrível que a prudência travara contra o prestigio e a força moral do vigário, e na qual fora vencida, por entre grandes suspiros e profundos desalentos. Carregara aos ombros os remos e os cachos de bananas, vendidos pela tia Teresa por muito bom dinheiro acompanhado das bênção de padre Antônio, e desde que as estrelas empalideceram à primeira claridade da aurora, sentara-se naquele banco e puxava pelo remo como se nunca tivesse feito outra coisa em dias de sua vida. O calor aumentava. Macário já não sentia as pernas adormecidas pela demorada imobilidade em que jaziam; os braços já se recusavam ao serviço. O lombinho, no meio da testa, crescia, interceptando-lhe a luz dos olhos.
Saberá V. Rev.ma que são horas de almoço, disse, enfim, voltando-se para o padre, descansando o remo, enxugando o suor na manga da camisa.
Seriam, com efeito, oito horas da manhã. Ardia o sol num céu sem nuvens. A água do rio tomava tons azulados, e o verdejante arvoredo das margens revestia-se dum colorido luxuriante, em plena seiva, banhado em luz intensa e poderosamente fecundado pelo calor que abrasava a terra. Ao longe a linha da cordilheira, suavemente ondulante, recortava o azul-celeste do firmamento em metátomos irregulares dum azul mais carregado, alargando o horizonte, numa perspectiva de afastamento indefinido. No meio da massa verde-escura da floresta, de um e de outro lado, as altas embaúbas abriam as folhas brancas, leques inúteis que a viração não abanava, e as bacabeiras carregadas de cachos, deixavam-se estar imóveis com as palmas estiradas, abertas, levemente amarelecidas, sem ânimo de as balançar no espaço, para não perder nenhum dos beijos vivificantes do sol.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.