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#Romances#Literatura Brasileira

Luzia-Homem

Por Domingos Olímpio (1903)

— Vai, anda, levadinha – murmurou a velha sorrindo. – Essa menina é uma capeta. Sabe ler letra redonda! Vejam só!... Agora que chegaste, deixa-me descansar um pouco na rede, enquanto me preparas um caldo.

Luzia conduziu a mãe, e voltou a cuidar da cozinha. Atordoada ainda pela leitura do jornal, ficou algum tempo pensativa, percebendo, então, por que toda a gente a contemplava no trajeto para a igreja, por que tanto se arrebatava Crapiúna, e os cochichos das mulheres durante a missa. Era uma vergonha estar na folha com aquele horrível nome – Luzia-Homem, tanto se lhe agarrara o cruel estigma. Ao emergir desse cismar, olhou, de soslaio, para o caminho, e, divisando um vulto de homem que se aproximava devagar, correu para o quarto com a tigela de caldo para a mãe.

Era Alexandre que se aproximava, a passo indeciso e lento.

— Ó! da casa!

— É voz conhecida – observou a velha.

— É... é... – balbuciou Luzia comovida.

— Ó! de fora! Quem é? – respondeu a enferma, falando com esforço.

— Sou eu... tia Zefa.

— Eu quem?

— O Alexandre.

— Ah! meu filho! Não te dizia, Luzia?... Vai ter com ele.

Alexandre, fora do alpendre, raspava com a unha a casca seca de um dos esteios de pau branco. Deparando-se-lhe a moça, parada, indecisa, à porta do quarto, avançou para ela e a saudou com ligeiro sorriso.

— Adeus, sra Luzia.

— Adeus, seu Alexandre.

— As duas mãos geladas, hirtas, mãos de autômatos, apenas se tocaram.

— Como está? – perguntou Luzia, de olhos baixos.

— Eu! Melhor de ontem para hoje, como quem saiu da prisão.

— É horrível!...

— Nem pode fazer idéia do que é...

— Abanque-se...

— Estou bem. A demora é pouca. Vinha saber como está tia Zefa e vosmecê. — Boas, graças a Deus.

Houve pausa cruciante de enleio e vexame para ambos. Muito pálidos, muito comovidos, não sabiam mais que dizer. Luzia, por fim, rompeu o silêncio:

— O senhor viu por aí Teresinha?

— Esteve, ontem, comigo, à tardinha. Prometeu estar aqui hoje...

— Não veio desde ontem.

— É esquisito.

— É. Não acha? O senhor não quer falar com mãezinha? Pode entrar.

Alexandre entrou no quarto, e Luzia ficou só no alpendre, inteiriça, imóvel, contemplando o céu, em êxtase. E assim ouviu as ruidosas manifestações da alegria da mãe, as perguntas precipitadas que ela dirigia a Alexandre, as palavras de consolação, afetuosas, sinceras, embebidas de maternal carinho.

Venha sempre ver a gente – suplicava a velha, sorrindo.

Virei, sim. Virei amanhã, se Deus quiser. Só tenho medo de importunar – respondeu Alexandre, com ligeiro tom de mágoa.

Sentindo Alexandre a seu lado, quando ele saiu do quarto, Luzia, arrancada de súbito à meditação, fez um gesto de susto. A atitude do moço era a de quem hesita em dizer alguma coisa, de abrir-lhe o coração, sufocado de ternura.

Vencendo, por fim, o enleio, ele tirou do bolso os cravos murchos, e, como criança medrosa recitando um recado, murmurou:

— Aqui estão estas flores, que a senhora esqueceu no baldrame da grade da cadeia... Adeus... Até outra vez...

— Até... – suspirou ela arquejante, guardando as flores no seio, e apertandoas contra o peito, em frenético amplexo, enquanto ele lhe voltava as costas, e partia. — Seu Alexandre!...

O moço estacou ansioso, não ousando encarar nela.

— Quero pedir-lhe uma coisa – disse a moça, caminhando para ele, vagarosa e humilhada. – Não repare... no que tenho feito... Sou má de nascença... Minha sorte é fazer os outros padecerem... Tenha dó de mim... Peço... Peço-lhe que me perdoe...

— Luzia! – exclamou ele, numa explosão de ternura, estendendo-lhe os braços para ampará-la, porque ela vacilava.

— Perdoe-me – repetiu a mísera, vencida, com voz angustiada, quase à surdina, estacando diante de Alexandre, que sorria.

CAPÍTULO XXVII

Dias depois, soube Luzia do paradeiro de Teresinha.

Raulino contou-lhe como a encontrara, sucumbida, em amarga tristeza, a se penitenciar no serviço doméstico de uma família desconhecida.

— É possível – exclamou Luzia – que aquela pobre esteja vivendo de aluguel? Por que nos abandonou sem motivo?

— Eu não sei dizer – observou Raulino. – O que sei é que ela está servindo a uns retirantes ricos, aboletados na casa da fortaleza. Não me disse porquê. Ali há coisa. Se vosmecê se encontrar com ela, não a conhece.

— Coitadinha!

— Não é mais aquela mulherzinha espevitada e alegre. Não fala quase. A modos que lhe botaram mau olhado!

— Quem sabe se não a intrigaram comigo?

— Não duvido. Há gente para tudo. Quando eu lhe disse que íamos trabalhar nas obras da ladeira da Mata-fresca, ela ficou calada, imaginando, e disse-me por aqui assim: "A Luzia é feliz; vai sair deste inferno... Eu é que estou condenada por toda a vida." E, como eu lhe inculcasse que devia abandonar aquela gente, os patrões, para, vir conosco, abanou a cabeça, desanimada que metia pena... Ah! Sra Luzia! Imagine que a pobre faz todo o serviço; até trata de um burro velho, pele e osso, sem préstimo para nada.

— Se seu Raulino fosse comigo, iria vê-la.

(continua...)

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