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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

E não podia convencer-se de que ligava tão séria importância àquele casamento, procurando até capacitar-se de que tentara realizá-lo por uma espécie de compassiva indulgência para com Ana Rosa; entretanto, revolucionava-se todo só com a idéia de não levá-lo a efeito. “Ora adeus! também não morreria de desgosto por isso!... Não faltava bons partidos para fazer família!... dispor-se a procurar noiva!... Sim, nem lhe ficava bem insistir no projeto de casar com a prima!... No fim de contas aquela recusa grosseira, seca, o ofendia!... decerto que o ofendia!... Não! não devia pensar, nem por sombras, em semelhante asneira!... definitivamente não casaria com Ana Rosa!... Com qualquer, menos com ela! Nada! Como não, se aquilo já era uma questão de brios?...” Mas com este propósito, voltava-lhe, de um modo mais claro e positivo, uma grande admiração pelos encantos da rapariga, e um surdo pesar dissimulado, um desgosto hipócrita, de não poder possuí-la.

Manuel, a poucos passos, roncava com insistência incômoda; Raimundo, depois de virar-se muitas vezes na rede, ergueu-se fatigado, acendeu um charuto e saiu para a varanda. Um morcego, na curva do vôo, rogou-lhe com a ponta da asa, pelo rosto.

O luar entrava sem obstáculo ate à porta do quarto e estendia no chão uma luz branca. Raimundo encostou-se ao parapeito da varanda e ficou a percorrer com o olhar cansado a funda paisagem que se esbatia nas meias-tintas do horizonte como um desenho a pastei. O silêncio era completo; de repente, porém, a uma nota harmoniosa de contralto sucederam-se outras, prolongadas e tristes, terminando em gemidos.

O rapaz impressionou-se o canto parecia vir de uma árvore fronteira a casa.

Dir-se-ia uma voz de mulher e tinha uma melodia esquisita e monótona.

Era o canto da mãe-da-lua. O pássaro levantou vôo, e Raimundo o viu então perfeitamente, de asas brancas abertas, a distanciar seus gorjeios pelo espaço. Considerou de si para si que os sertanejos tinham toda a razão nos seus medos legendários e nas suas crenças fabulosas. Ele, se ouvisse aquilo em São Brás lembrar-se-ia logo, com certeza, do tal pássaro que canta a finados. “Segundo a indicação do guia, continuava a pensar, a tapera amaldiçoada ficava justamente para o lado que tomara a mãe-da-lua. Devia ser naquelas baixas, que dali se viam. Não podia ser muito longe, e ele seria capaz de lá ir sozinho...” Veio distraí-lo destas considerações um frouxo vozear misterioso, que lhe chegava aos ouvidos de um modo mal balbuciado e quase indistingüível. Prestou toda a atenção e convenceu-se de que alguém contou toda a atenção e convenceu-se de que alguém conversava ou monologava em voz baixa por ali perto. Quedou-se imóvel a escutar. “Não havia dúvida! Desta vez ouvira distintamente! Chegara a apanhar uma ou outra palavra!

Mas, onde diabo seria aquilo?...”

Foi ao quarto de Manuel, o bom homem dormia como uma criança; agora associava em vez de ressonar. Atravessou pé ante pé a varanda inteira— nada descobriu; voltou pelo lado oposto ao luar— ainda nada! “Seria lã embaixo?...” Desceu, mas deixou de ouvir o sussurro. “Ora esta!... A coisa era lá mesmo em cima!... Mas em cima não havia outros hóspedes, além dele e Manuel, dissera-lhe 0 Cancela!...” Tornou a subir, mas desta vez pela escada do fundo. “Oh! agora a coisa estava mais clara.” Raimundo ouviu frases inteiras, e queixas, lamentações, palavras soltas, ora de revolta, ora de ternura. “Era de enlouquecer!... Quem diabo estaria ali falando?...”

— Quem está ai?! gritou ele, no último lance da varanda, com a voz um pouco alterada.

Ninguém respondeu, e o murmúrio misterioso caiou-se logo. Raimundo esperava todavia, possuído já de certa impaciência nervosa e com o ouvido ainda impressionado do estranho efeito da sua própria voz a perguntar no silêncio: “Quem está ai?” Decorreu um espaço que lhe pareceu infinito, e afinal reapareceu o vozear, agora porém muito mais afastado, vindo do lado contrário ao lado em que ele estava. Encaminhou-se, tão em silêncio lhe foi possível, na direção da voz misteriosa, e notou satisfeito que esta ia gradualmente se alteando.

— Oh! fez Raimundo consigo, maravilhado. Tinha ouvido bem claro o seu nome, e o de seu pai “José do Eito”. Redobrou de atenção. “Estaria sonhando? Aquela vez infernal falava dubiamente de São Brás, do padre Diogo, de D. Quitéria e outras pessoas que ele não sabia quem eram. Com certeza ia ouvir alguma coisa a respeito de - sua mãe! - Seria a primeira vez! Oh! já não era sem tempo!...” Reprimiu a respiração; faz-se todo ouvidos; estava trêmulo, frio, nunca sentira comoção tamanha.

Mas a voz falou, falou, referindo-se aos acontecimentos maiores de São Brás, fazendo revelações, citando, um por um, todos os personagens, menos a mãe de Raimundo. Este, na treva, com o coração oprimido, estendia a cabeça, arregalava os olhos, arfando-lhe o peito. Nada. “Que desespero!” Mas a voz prosseguia, e ele escutava. De súbito, porém, caiou-se tudo e nada mais se ouviu que o piar longínquo das aves noturnas.

(continua...)

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