Por Aluísio Azevedo (1895)
- Não, é porque "amor" nada exprime, é um palavrão sem sentido; fala-me em simpatia, em gostar de ver alguém e senti-lo ao seu lado; fala-me na estima e no apreço em que temos os bons e os generosos, e eu te compreenderei e eu te direi que te aprecio e te quero!
- Vais me oferecer a tua amizade. Aposto.
- Não te posso oferecer uma coisa que dispões há muito tempo... O que eu desejo é apelar justamente para essa amizade e pedir-te em nome dela que não sejas um obstáculo ao meu futuro e A minha tranqüilidade.
- Não te compreendo.
- Meu futuro baseia-se todo neste casamento.
- E vens pedir que eu te auxilie?...
- Sim.
- Pois desiste de tal idéia!
- Não queres me proteger?
- Quero guerrear-te.
- Ah!...
- Hei de fazer o possível para que o teu casamento nunca se realize!
- É assim que és minha amiga?...
- É assim que sou rival de tua noiva! Hei de fazer o que puder contra ela! És meu! amo-te! hei de defender-te de toda e qualquer mulher, seja uma das minhas ou seja uma donzela de quinze anos!
- Queres então que eu me arrependa de haver consentido em ser teu amante?
- Não sei! quero é que não me deixes! Sou muito mais velha do que tu; espera que eu morra e casarás depois com uma das que aí ficarem.
- És má!
- Sou mulher.
- Adeus.
E fez alguns passos na direção da porta; ela atirou-se-lhe no pescoço e começou a soluçar, beijando-o todo, sofregamente, como quem se despede do cadáver de um ente querido a que vão sepultar.
Teobaldo, entretanto, conseguiu desviar-se-lhe dos braços e saiu, disposto a nunca mais tornar ao lado dela.
Mas, no dia seguinte, às duas da tarde, trabalhava no escritório do patrão, quando viu parar à porta o carro de Leonília e logo, em seguida, entrar esta pela casa, à procura do Sr. comendador Rodrigues de Aguiar.
- O comendador não está, disse-lhe um caixeiro. Leonília perguntou a que horas o encontraria; o caixeiro respondeu, e ela saiu com o mesmo desembaraço com que entrara.
Teobaldo, mal ouviu bater a portinhola do carro, atirou para o lado a correspondência, pôs o chapéu, abandonou o escritório, tomou um tílburi e seguiu na pista da cortesã. Quando esta se apeava à porta de casa, ele surgiu ao lado dela.
- Que deseja de mim? perguntou Leonília parando à entrada.
- Pedir-lhe um favor.
- Agora não lhe posso prestar atenção. Adeus.
- Olha! Ouve!
Ela não respondeu, arrepanhou as saias, galgou a escada e Teobaldo ouviu bater em cima uma porta fechada com arremesso.
Tornou à rua estalando de cólera.
- Maldita mulher! pensou ele. Maldita mulher, que tanto mal me faz!
E, quando mais reconsiderava as vantagens do seu casamento, mais furioso ficava contra Leonília e mais apaixonado se supunha pela graciosa filha do comendador.
Meteu-se de novo no tílburi e mandou tocar a toda força para o colégio onde trabalhava o Coruja. Era uma idéia que lhe aparecera de repente.
E assim que viu o amigo:
- Arranja uma saída já! disse-lhe, sacudindo a mão dele entre as suas. Preciso de ti no mesmo instante. É um caso urgente. Vem daí!
O Coruja, meio contrariado por interromper a sua obrigação, mas ao mesmo tempo já em sobressalto com as palavras do amigo, não se fez esperar muito.
- Então, que temos? perguntou logo que se viu a sós com Teobaldo na rua.
- André, preciso que me prestes um serviço, um verdadeiro serviço de amigo: Leonília quer desmanchar o meu casamento; é necessário convence-la do contrário. Só tu me poderás fazer isso; és o único homem sério de que disponho! Vai ter com ela e chama-a à razão! Fala-lhe com franqueza, promete-lhe o que entenderes, contanto que a convenças' - Ela ameaçou-te de fazer qualquer coisa?
- Nem só ameaçou, como até já foi ao escritório do comendador procurá-lo!.
- Falou-lhe?
- Não porque felizmente ele não estava em casa, mas volta amanhã sem dúvida ou talvez ainda hoje mesmo, e tu bem sabes que, se ela fala ao comendador, estou perdido! e adeus casamento, adeus futuro, adeus tudo!
- E preciso então ir já?
- Sim, imediatamente! Olha! mete-te no tílburi e vai, anda!
Coruja fez ainda algumas perguntas, tomou certas informações e afinal seguiu para a casa de Leonília.
Veio ela própria recebe-lo, fê-lo entrar para a sala e assentou-se-lhe ao lado.
Só então o pobre André avaliou o alcance do seu compromisso; achou a comissão mais difícil do que julgara e a si próprio mais fraco do que supunha; mas vencendo o acanhamento, principiou sem transição:
- Sabe, moça, eu venho aqui para lhe pedir um favor...
- O senhor é o amigo de Teobaldo, não é verdade?
- Sou eu mesmo.
- O Coruja, não?
- Justamente.
- Que favor deseja pedir?
- Que a senhora não faça a desgraça do nosso amigo.
- Como?
- Desmanchando-lhe o casamento.
- Ele então já lhe falou nisso?
- Já, e eu vim pedir à senhora que tenha pena do pobre rapaz.
- E ele teve pena de mim, porventura? Ele não calculou que com esse casamento fazia a minha desgraça? Não se lembrou de que há já um bom par de anos que nos amamos e eu não poderia de braços cruzados vê-lo atirar-se nos de outra mulher?... Ele não calculou tudo isso?
- Mas é necessário, replicou André.
- Para quem? perguntou a rapariga.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.