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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Meter no coração de qualquer família um homem, que não seja parente imediato e por conseguinte solidário natural da sua dignidade e da sua honra, equivale quase sempre a meter um poraquê num tanque de outros peixes. O choque produzido pelo elétrico intruso é o bastante para destruir os companheiros de casa.

Teresinha descobriu no Portela todas as regaladoras qualidades físicas que não encontrou no marido. Até aí fazia ela um juízo bem triste do amor; julgava-se desiludida a esse respeito.

— Sempre supunha que fosse outra coisa! confidenciara a uma amiga poucos dias depois do casamento.

O amante, porém, logo lhe invertera radicalmente tão falso ponto-de-vista, apresentando-lhe o amor pelo brilhante prisma da mocidade, da força e do arrebatamento da paixão. Teresinha ficou surpreendida, ficou maravilhada.

— Quanto havia sido injusta! dizia depois consigo, toda palpitante de felicidade.

E, desde então, tudo se transformou em torno dos seus sentidos: o mundo exterior apresentava-lhe agora encantos inesperados; tudo lhe sorria, tudo a namorava, tudo lhe falava com uma voz afetuosa e doce. Os seus gostos e as suas aptidões intelectuais foram acordando, como ao toque da varinha encantada de uma fada. Achava prazer na leitura, nos divertimentos, no trabalho, na preocupação dos arranjos da casa, e até, o que é mais extraordinário, principiava a experimentar pelo marido certa simpatia respeitosa e compassiva. O comendador, até então, era perfeitamente insuportável a Teresa; ela não o podia ver com a sua calva escondida nos longos fios de cabelos emplásticos, com o seu inalterável ar de diplomata aposentado, e com o seu olhar entorpecido através dos óculos. Antes de raiar a aurora do seu amor com o caixeiro, ela por mais de uma vez tivera ímpetos de esbordoar o marido, quando o via de costas, meio vergado sobre a mesa de trabalho, com o pescoço embainhado no enorme e teso colarinho. O cheiro da águade-Colônia fazia-lhe engulhos, porque esse era o perfume predileto do comendador.

Entretanto, à proporção que Portela lhe despertava os sentidos entorpecidos e lhe acordava nas veias o latente calor do sangue, Teresa ia se conformando com o marido e a ele se prendendo por uma espécie de amizade filial.

Dormiam em quartos separados. Pela manhã, Teresa saltava da cama, fazia a toilette cantarolando, enfiava uma flor no cabelo e ia logo cumprimentar o marido, que a essas horas, já pronto e preparado, tomava o seu chá preto no gabinete de trabalho.

Ela o beijava na face, perguntava com pieguices de criança, como o seu "paizinho" havia passado a noite e, depois de fazer-lhe uma festinha no queixo escanhoado, afastava-se, muito sacudida e escorreita, para a chácara, onde suas plantas a esperavam.

O comendador notava com satisfação as mudanças que a mulher ultimamente apresentava. Nunca a vira tão meiga, tão satisfeita e tão carinhosa com ele; já não o tratava secamente como dantes, agora, ao contrário, tinha sempre uma palavra afetuosa, um riso agradável para recebê-lo e já não lhe chamava mais "Seu Ferreira", como antigamente; agora ela só o tratava por "Seu velho", por "Seu paizinho", por "Seu nhonhôzinho".

Mas, uma noite, o comendador, aproximando-se da mulher, ficou muito surpreendido de a encontrar esquiva.

— Não! dizia Teresa, com um gesto entre meigo e repreensivo; não!... Deixe disso!...

Parecia que o comendador lhe propunha alguma coisa ilícita. O fato afigurava-se a Teresa como uma espécie de incesto. Queixou-se de que estava indisposta, fingiu muito sono, e, como o marido insistisse, levantou-se zangada e deixou escapar uma frase grosseira. O comendador ficou pasmado.

No dia seguinte houve frieza entre o casal; e a graça é que Teresinha era justamente dos dois a que se mostrava mais ressentida. O desventurado marido contou discretamente o fato ao Jacó.

— Hum! hum! resmungou o criado com um profundo ar de desconfiança. E aconselhou ao amo que abrisse os olhos com a mulher.

Por esse tempo deixara o Portela a casa do comendador. Teresa muito sentida com a mudança, não pôde esconder totalmente o seu desgosto; mas o rapaz aparecia de vez em quando e havia de passar os domingos em sua companhia.

Ele com efeito cumpriu a promessa; porém as suas visitas, longe de acalmarem a mulher do dono da casa, traziam-na em constante martírio. Não havia meio de ficarem a sós; ora Olímpia, ora o comendador, ora o Jacó, não os deixavam um momento em liberdade. Portela era de uma discrição e de uma prudência desesperadoras; estava sempre receoso de que lhe surpreendessem alguma palavra ou algum gesto comprometedor.

À mesa Teresinha tocava-lhe nos pés e nas pernas, e ele se retraía todo, a olhar para os lados. Se ela se demorava um pouco a apertar-lhe a mão, quando Portela chegava ou se despedia, ele lhe opunha um olhar severo e não lhe dava mais palavra.

(continua...)

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