Por Aluísio Azevedo (1897)
— Descanse, que lhe não tocarei num cabelo! Apenas o que faço é afastálo durante o tempo necessário para tratar vossemecê de seus interesses. Depois... ele que esbraveje à vontade! Siga viagem o Doutor com a sua Do.... e o resto fica por minha conta!
Gabriel aprovou a idéia, e conversou demoradamente sobre ela com o cocheiro. Em seguida, foi ter com Ambrosina.
— Estimo que chegasse! exclamou a bela rapariga, a envolverlhe o corpo com os braços. Não imaginas o que vai por cá! Assentate, descansa um pouco, porque tenho cousas muito sérias a comunicarte...
Gabriel assentouse, em silêncio. Ambrosina chegou uma cadeira para junto da dele, e, com uma voz misteriosa e cheia de movimentos reservados, disselhe:
— Sabes que o Melo, desde aquele dia de loucuras lá em casa, persuadiuse de que o amo?...
O rapaz meneou afirmativamente a cabeça.
— Pois bem; meteuselhe em idéia que eu devia separarme de ti para viver com ele!... Aquela peste não se enxerga! Ora, tenho pena de haver perdido uma carta que me remeteu o traste! Guardavaa justamente para te mostrar... Não sei onde a pus! Estou doida de procurála! Entre outras banalidades, diz o tolo haver tirado um prêmio na loteria. Querer seduzirme com dinheiro!... A mim, que tu bem sabes quanto sou desinteressada! a mim, que te amaria da mesma forma, se fosses o mais pobre dos homens! Bem! Eu não dei um passo; nada quis resolver, sem falar contigo... Tu és o senhor de meus atos, e como tal, fica a teu arbítrio fazer o que entenderes!
— Não se fará cousa alguma. Já está tudo determinado. Precisamos é sair hoje mesmo daqui. Estamos com o aluguel de nossa casa pago até o fim do mês. Os trastes foram já vendidos, mas só serão arrecadados pelo dono depois da nossa partida.
— É verdade! lembrou a traiçoeira; na falta de outra casa, podemos ir para a de mamãe. Ela veio ontem visitarme, e pediume que fosse para lá.
— Não, não convém; pois se temos casa própria, para que ir para a dos outros? Além disso, precisamos tratar em plena liberdade de nossa viagem. O Gaspar vai hoje para Nova Friburgo e demorase alguns dias; amanhã já aí está o vapor, e nós partiremos.
— E se o Melo lembrarse de perseguirme lá em casa? Tu não sabes quem é aquele sujeito!
— Não te incomodes com o Melo! A respeito (dele estão tomadas todas as medidas.
— Lembrame uma cousa nesse caso. Levo a Laura para me fazer companhia até o momento do embarque.
— Bem; mas o que preciso saber é se tu és capaz de escreveres duas palavras ao Melo, convidandoo para ir amanhã lá à casa. Não te assustes, ninguém lhe fará mal!
— Para que é? indagou Ambrosina, rindo, a prever alguma boa partida.
— Já agora te digo tudo com franqueza: O Melo se for amanhã, será delicadamente agarrado e conduzido a um lugar confortável, onde não lhe faltará absolutamente nada, mas do qual só será posto em liberdade depois que tenhamos partido...
— Bravo! Magnífico! Ah! como o bobo não ficará furioso!
— Mas, escrevelhe o bilhetinho, não?
— Meu Deus! Quantos quiseres! Tu não pedes, mandas! Podemos escrevêlo imediatamente.
E, toda expedita e desembaraçada, foi buscar pena e papel.
— Estou às tuas ordens. Podes ditar... disse a finória, assentada já defronte do tinteiro.
— "Melo Rosa, ditou Gabriel. Está tudo arranjado. Amanhã às quatro horas da tarde, me encontrarás em casa, sozinha e pronta para fugir contigo. Fico à tua espera. Não faltes! — Ambrosina".
— Pronto! disse esta. Afiançote que ele irá.
— Bem! agora dáme esse bilhete.
— Aí o tens.
E Gabriel guardouo no bolso.
— A que horas queres que te venha buscar? perguntou ele.
— Logo mais, a qualquer hora... Vem às quatro.
— Pois bem, até às quatro, disse o rapaz, beijandoa na testa.
E meteuse no carro.
Ambrosina, logo que ele se retirou, correu ao quarto de Laura.
— Preparate para ires hoje mesmo comigo lá para casa. Teu pai consente. Mas agora desejo que me ajudes a vestir a toda pressa...
— Onde vais?
— Tenho muito que fazer. Só mais tarde saberás todos os passos que dou por tua causa...
Um pequeno, filho da vizinha, foi chamar um carro, e Ambrosina apareceu pronta na sala.
Rua da Misericórdia..., disse ela em voz baixa ao cocheiro.
O carro seguiu, e vinte minutos depois parava defronte de um grande sobrado antigo, cheio de janelas quadradas.
Era uma casa de alugar cômodos.
— Espere por mim, soprou a moça ao cocheiro, e subiu a longa escada do sobradão.
Atravessou, sem fazer caso, o primeiro e o segundo andar; chegou cansada ao último.
— Qual destas portas será!... pensou ela, hesitando em bater a qualquer das quatro que tinha defronte de si.
Nisto, abriuse uma delas, e Melo Rosa, vestido de casimira clara, apareceu com um sorriso.
— Ah! pensei que já não viesses! É quase uma hora!
— Não me fales, homem! Uma visita de Gabriel.
— Sim, hem! Mas, vai entrando, filhinha. Não podemos perder tempo: temos muito que falar!
— Uf! fez Ambrosina, atirandose sobre uma cadeira. Arre! que esta casa mata uma criatura! Estou a botar os bofes pela boca! Aqui não me pilharias duas vezes!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio. A Condessa Vésper. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2124 . Acesso em: 8 mar. 2026.