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#Romances#Literatura Brasileira

Memórias de um Sargento de Milícias

Por Manuel Antônio de Almeida (1852)

O major sorriu-se com cândida modéstia. A discussão foi-se assim animando; porém o major nada de ceder, até pelo contrário parecia mais inflexível do que nunca; chegou mesmo a pôr-se em pé e a falar muito exaltadamente contra o atentado do Leonardo, e a necessidade de um severo castigo. Era engraçado vê-lo no bonito uniforme que indicamos, de pé, fazendo um sermão sobre a disciplina, diante daquelas três ouvintes tão incrédulas que resistiam aos mais fortes argumentos.

Ainda porém não tinham as três esgotado contra ele o seu último recurso; puseram-no pois em ação.

Quando mais influído estava o major, as três a um só tempo, e como de combinação, desataram a chorar... O major parou... encarou-as um instante: seu semblante foi-se visivelmente enternecendo, enrugando, e por fim desatou também a chorar de enternecido. Apenas as três se aperceberam deste triunfo carregaram sobre o inimigo. Foi então uma algazarra, uma choradeira sem nome, capaz de mover as pedras.

O major de enternecido foi passando a atordoado, e como que ficou envergonhado das lágrimas que lhe corriam pelas faces: enxugou-as, e procurou reassumir toda a sua antiga gravidade.

— Nada, disse desembaraçando-se das três, e passeando a passos largos pela sala; nada: que haviam de dizer de mim se me vissem aqui nestas choramingas

de criança? Eu, o major, o Vidigal, a chorar no meio de três mulheres!... Senhoras donas, o caso é grave, e não lhe vejo remédio; o exemplo, a disciplina, as leis militares... nada, não pode ser...

E deu as costas às três, continuando a passear e a fazer ressoar com força os tamancos no assoalho.

Maria-Regalada disse baixo às duas, em cujos semblantes já nem transluzia o mais pequeno vislumbre de esperança:

— Ainda não está tudo perdido...

E dirigindo-se ao major acrescentou:

— Bem, Sr. major; águas passadas não moem moinho...

— Qual passadas, senhora dona! mas bem vê que o caso é grave...

— Seja lá o que for, sinto ter perdido meus passos, e não servir a quem desejava; verdade seja que eu já contava com isso, e também não prometi... Mas em último lugar quero sempre dizer-lhe uma coisa, mas há de ser em particular...

— Vamos lá, estou pronto.

Quem tivesse alguma perspicácia conheceria, não com grande facilidade, que o major estava há muito tempo disposto a ceder, porém que queria fazer-se rogado.

Maria-Regalada levou então o major para um canto da sala, e disse-lhe ao ouvido algumas palavras. O major, desanuviou o rosto, remexeu-se todo, coçou a cabeça, balançou com as pernas, mordeu os beiços.

— Ora esta! disse em voz baixa à sua interlocutora; pois era preciso falar nisto? Enfim...

— Ora, graças que se lhe acabaram os sestros, respondeu Maria-Regalada em voz alta.

— Sim?!... exclamaram as duas sorrindo de esperança.

— Eu bem dizia que o Sr. major tinha bom coração...

— Eu nunca duvidei, apesar de tudo... mas agora, o passado, passado; o caso era grave, como ele dizia, e foi um favor!...

— Então, D. Maria? Quem foi rei sempre teve majestade...

— Majestade... qual! isso já não é para mim...

O major atalhou esta explosão de gratidão que levava visos de ir longe.

— Hão de ficar ainda mais contentes comigo... não lhes digo por quê, mas verão...

— Esta agora é que é grande; veremos o que será...

— Já sei: é...

— Há de ser por força...

— Estou quase adivinhando.

— Sabem que mais? atalhou o major; são horas de uma diligência a que não posso faltar... O rapaz está livre de tudo; contanto que, acrescentou dirigindo-se a Maria-Regalada, o dito, dito...

— Eu nunca faltei à minha palavra, replicou esta.

Retiraram-se as três cheias do maior contentamento, e o major saiu depois também para cumprir a sua promessa.

CAPÍTULO XXVII

A MORTE É JUIZ

D. Maria dirigiu-se imediatamente para casa na sua cadeirinha. Ao chegarnotou grande rumor e alvoroço, e tratou logo de indagar a causa. Um escravo de sua sobrinha a esperava com uma carta. Apenas a leu, D. Maria, não diremos que se entristeceu, porém mostrou-se muito atrapalhada.

— Não entrem com a cadeirinha; esperem lá, que torno a sair.

E. com efeito meteu-se de novo nela, e mandou que seguissem para casa desua sobrinha.

O caso era o seguinte: José Manuel entrara para casa em braços, tendo sido acometido na rua de um violento ataque apoplético ao voltar do cartório, onde tivera uma grave contestação com o procurador de D. Maria, por causa da demanda que entretinham. Luisinha, a coitada, vendo-se naqueles apuros, sem saber o que fizesse, despachara logo portador para casa de sua tia.

D. Maria apenas entrou mandou chamar o licenciado, que depois de examinar o doente declarou que era caso perdido. Fizeram-se entretanto algumas aplicações, que não tiveram resultado algum.

— Estás viúva, menina, disse D. Maria alguma coisa compungida com a declaração do médico.

Luisinha pôs-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente, porque tinha coração terno.

Estavam presentes algumas pessoas da vizinhança, e uma delas disse baixinho à outra, vendo o pranto de Luisinha:

— Não são lágrimas de viúva...

(continua...)

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