Por Franklin Távora (1878)
Cosme voltou as costas ao negociante, como quem não levava em conta suas acerbas ironias e rudes exprobrações.
A verdade, porém, é que elas o feriam, como pontas de punhais acerados no coração. Os beleguins cumpriram o seu dever, e o próprio juiz, não podendo vencer o despeito hostil e apaixonado, encaminhou-se ao interior da habitação.
A esse tempo Bartolomeu, que ainda não pudera descer, chegou-se a Coelho e lhe disse à puridade:
- Quer sair, patrão? Atiro-me daqui ao soldado, que ali está de guarda na porta, e quando ele menos esperar, estará sufocado entre as minhas mãos. Então vosmecê poderá descer com seus caixeiros, ganhar a rua e desaparecer por trás dessas moitas de jerobebas que cobrem os fundos da igreja. Eu lhe guardarei as costas. Pode ir descansado. Pensas que eu poderia realizar o que estás indicando? Olha. A rua está cheia de gente. A casa está cercada. Ali embaixo vários soldados espreitam quem entra e quem sai. Mas porque me ausentaria eu? Que crimes cometi para fugir?
- É que as armas, que estão lá embaixo... tornou o barcaceiro a meia voz.
Duvido que as encontres tu mesmo que comigo as viste, quanto mais ele. e se queres ter a prova do que te digo, vai à escada por onde há pouco descemos ao subterrâneo.
Sem dizer palavra, o barcaceiro encaminhou-se ao gabinete, atravessou-o e chegou ao ponto indicado. Desciam o juiz, beleguins e soldados. Verificou então por seus próprios olhos o que lhe dissera o negociante. A escada fazia uma volta para a direita e ia dar na loja, não no esconderijo. Bartolomeu ficou um instante confuso. Lembrava-se que por ali descera para o subterrâneo, por uma volta que a escada fazia à esquerda: mas, essa tinha desaparecido como por encanto, sem deixar o menor vestígio por onde se pudesse descobrir o segredo.
Quando Cosme volveu à sala, Coelho foi a seu encontro, e com expressão de mal disfarçado ódio, lhe disse: Não achastes nem uma adaga, nem um arcabuz no meu armazém. Voltastes em branco. Pois bem. eu vos asseguro, senhor Cosme Cavalcanti, que dentro em pouco tempo a nobreza de Goiana há de saber para quanto prestam as armas dos mascates, que as têm e de fina tempera.
- Ah! Eles as têm?
- Eles as têm, e tenho-as eu próprio a meu alcance.
Melhor, melhor. Servirão para atravessar ou degolar os mesmos que as guardam em seus esconderijos.
- Veremos qual de nós se engana, respondeu Coelho.
- Veremos, veremos, mascate – disse Cosme descendo com seu séquito.
Os olhos de Coelho despediam insólito brilho. Na face que a ira fazia subitamente contrair-se e dilatar-se, havia certos tons de ferocidade felina.
Miseráveis! Exclamou ele quando ainda o juiz não tinha descido de todo a escada. São ineptos na própria hostilidade com que pretendem impor seu ridículo poderio.
Então, voltando-se para um dos caixeiros:
- Vai já, já, em procura de Jeronimo Paes – disse. É preciso que ele me fale sem perda de tempo.
- Patrão, precisa de mim? perguntou-lhe Bartolomeu.
- Hoje não, amanhã, talvez. Podes sair. Espera. Quando passares pela porta do Lauriano, dize-lhe que venha falar-me agora mesmo.
Coelho deu alguns passos pela sala, penetrou no gabinete, voltou e logo após tornou a tomar para o interior. Antes de transpor a porta que dava para o quarto secreto, parou e perguntou ao segundo dos seus caixeiros se havia ainda soldados pela rua. Quando o rapaz tomava para a sacada, entrava na sala Luiz de Gouveia, mulatinho musico, de violento e desvairado patriotismo. Vinha acompanhado por diferentes homens do povo, trazia as feições demudadas, os cabelos revoltos.
Que novos ultrajes e atentados nos vens anunciar, Luiz? Inquiriu o negociante, antes que o musico falasse.
Um atentado nefando. Seu Jeronimo Paes acaba de ser ferido de um tiro de pistola, que lhe dispararam da rua, quando estava falando.
Eu esparava por isso, tornou o negociante. É natural que ao ultraje se seguisse o assassinato. Mas enganam-se. supondo aniquilar-nos, não fazem mais do que apressar a sua própria queda.
- Mas que mais esperamos, Sr. Coelho? Interrogou Luiz. Não será ainda tempo de armar o povo e atirá-lo contra os fidalgotes? Havemos de morrer às mãos deles, e só então nos meterão nas mãos as armas? Vamos com isso, senhor, vamos com isso. O povo não pede senão armas, não quer senão ir contra os nobres. E há muito povo pelas ruas?
A vila inteira está nas ruas. O tiro desfechado irritou todos os ânimos. Homens e mulheres correram à botica a saber o que tinha sucedido. Se apanham o assassino, fazem-no em postas. Dizem que é um escravo de João da Cunha.
- Há de ser, há de ser. Não tem ele mandado fazer tantas mortes? Não é useiro e vezeiro nesse oficio? Não é ele o gran senhor desta herdade, e não somos nós seus servos? Mas que a façam bem feita, porque se assim a não fizerem, com seu sangue serão lavados os insultos e agravos com que todo o dia nos batem às faces.
Coelho foi interrompido neste ponto por uma voz rouca e tremula, que partia do meio da rua. - É a voz de Jeronimo – disse ele.
Todos correram à sacada.
- Ali vem ele – disse o musico.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.