Por José de Alencar (1875)
Aurélia ao contrário, à medida que adiantava-se a noite, desferia de si mais seduções, e parecia entrar na plenitude de sua graça. A correção artística de seu traje ia desaparecendo no bulício do baile. Como o primeiro esboço que surge afinal do cinzel impetuoso do artista, ao fogo da inspiração, sua estátua recebia da admiração da turba os últimos toques.
Quando em torno se revolvia o turbilhão, ela conservava sua inalterável serenidade. O colo arfava-lhe mansamente, ao influxo das brandas emoções; o sorriso coalhava-se em enlevos nos lábios entreabertos, por onde escapava-se a respiração calma. Desprendia-se de seus olhos, de toda sua pessoa, uma efusão celeste que era como a sua irradiação.
Quando completou-se esta assunção de sua beleza, o baile estava a terminar.
Aurélia fez um gesto ao marido, e envolvendo-se na manta de caxemira que ele apresentara-lhe, trançou o braço no seu. No meio das adorações que a perseguiam, retirouse orgulhosamente reclinada ao peito desse homem tão invejado, que ela arrastava após si como um troféu.
O carro estava à porta. Ela sentou-se rebatendo os amplos folhos da saia para dar lugar ao marido.
- Que linda noite! exclamou recostando a cabeça nas almofadas para engolfar os olhos no azul do céu marchetado de estrelas.
Com esse movimento sua espádua tocou no ombro de Seixas e os cachos de cabelos castanhos, agitados pelo movimento do carro, afagaram a face do mancebo desprendendo perfumes de inebriar. De momento a momento, a claridade do gás entrava pela portinhola do carro, em frente ao lampião, e debuxava o mavioso semblante de Aurélia e seu colo, que a manta escorregando, tinha descoberto.
Na posição em que estava, olhando por cima da espádua da moça, ele via na sombra transparente, quando o decote do vestido sublevava-se com o movimento da respiração, as linhas harmoniosas desse colo soberbo que apojavam-se em contornos voluptuosos.
- Como brilha aquela estrela! disse a moça.
- Qual? perguntou Seixas inclinando-se para olhar.
- Ali por cima do muro, não vê?
Seixas só via a ela. Acenou com a cabeça que não.
Aurélia distraidamente travou da mão do marido, e apontou-lhe a direção da estrela.
- É verdade! respondeu Fernando que vira uma estrela qualquer.
Retirando a mão Aurélia descansou-a no joelho, não advertindo sem dúvida que ainda tinha presa a do marido.
- Não sei que tem o luzir das estrelas!... murmurou a moça. É uma coisa que notei desde menina. Sempre que fico assim a olhar para elas e a beber os seus raios sinto uma vertigem, que me dá sono. Quem sabe se a luz que elas cintilam, não embriaga? Parece-me que bebi um cálice de champanha, mas feito do sumo daqueles cachos dourados que lá estão no céu.
Estas palavras, o olhar de Aurélia dirigiu-as ao marido envoltas em um sorriso feiticeiro.
- Então foi de ambrósia, que é a bebida dos deuses, tornou Fernando correspondendo ao gracejo.
- Mas, fora de graça? Que sono me fez! Será cansaço?
- Talvez! Dançou tanto!
- Pois reparou?
- Que queria que eu fizesse?
Aurélia esperou um momento para não interromper o marido; vendo que este calavase, conchegou-se com o gracioso movimento dos passarinhos quando se arrufam para dormir.
- Não posso mais! Estou tonta!
Derreou-se então para a almofada; a pouco e pouco, descaindo-lhe ao balanço do carro o corpo lânguido de sono, sua cabeça foi repousar no braço do marido; e seu hálito perfumado banhava as faces de Seixas, que sentia a doce impressão daquele talhe sedutor.
Era como se respirasse e haurisse a sua beleza.
Fernando não sabia que fizesse. Às vezes queria esquecer tudo, só para lembrar-se que era marido dessa mulher e a tinha nos braços.
Mas quando queria ousar, um frio mortal trespassava-lhe o coração, e ele ficava inerte, e tinha medo de si.
Todavia, ninguém sabe o que aconteceria se o carro não parasse tão depressa à porta da casa; Aurélia sobressaltou-se; caindo em si, retraiu-se para deixar que Seixas saltasse e lhe oferecesse a mão.
- Nunca me senti tão fatigada! Creio que estou doente, disse ela descendo do carro.
- Não devia ter ficado até tão tarde! observou Fernando com solicitude.
- Dê-me seu braço! murmurou a moça com um gesto abatido.
Seixas começou a inquietar-se, ainda mais quando a viu suspensa a seu braço, arrastar-se para a escada.
- Está realmente incomodada?
- Estou doente, muito doente! respondeu com a voz alquebrada.
Nos olhos porém e nas covinhas da boca, cintilou um raio de malícia que desmentia aquelas palavras.
Seixas retribuiu o gracejo.
- É uma enfermidade muito grave, não é? Que ataca-lhe todas as noites e a deixa sem sentidos por muitas horas? Chama-se sono.
- Não sei; nunca a tive, volveu a moça abaixando as pálpebras e velando os lindos olhos.
Chegados à saleta, onde costumavam despedir-se, Aurélia dirigiu-se para o toucador.
Na porta, Fernando parou.
- Leve-me que eu não posso comigo, disse Aurélia atraindo-o a si brandamente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.