Por José de Alencar (1857)
Embora não esperasse mais realizar o seu sonho dourado, entendia que estava vigorosamente obrigado a sujeitar-se a vontade do fidalgo, a proteger sua filha, a dedicar-lhe sua existência. Quando Cecília o repelisse abertamente, e D. Antônio o desobrigasse de sua promessa, então seu coração seria livre, se não estivesse morto pelo desengano.
O único fato notável que se deu nesse dia foi a chegada de seis aventureiros das vizinhanças, que prevenidos por D. Diogo vinham oferecer seus serviços a D. Antônio.
Chegaram ao lusco-fusco; à frente deles vinha o nosso conhecido mestre Nunes, que um ano antes dera hospitalidade no seu pouso a Frei Ângelo di Luca.
III
VERME E FLOR
Eram onze horas da noite.
O silêncio reinava na habitação e seus arredores; tudo estava tranqüilo e sereno. Algumas estrelas brilhavam no céu; os sopros escassos da viração sussurravam na folhagem.
Os dois homens de vigia, apoiados ao arcabuz e reclinados sobre o alcantil, sondavam a sombra espessa que se estendia pela aba do rochedo.
O vulto majestoso de D. Antônio de Mariz passou lentamente pela esplanada, e desapareceu no canto da casa. O fidalgo fazia sua ronda noturna, como um general na véspera de uma batalha.
Passados alguns momentos ouviu-se cantar uma coruja no vale, junto da escada de pedra; um dos vigias abaixou-se, e tomando dois pequenos seixos deixou-os cair um depois do outro.
O som fraco que produziu a queda das pedras sobre o arvoredo da várzea foi quase imperceptível; seria difícil distingui-lo do rumor do vento nas folhas.
Um instante depois um vulto subiu ligeiramente a escada, e reuniu-se aos dois homens que faziam a guarda noturna:: — Tudo está pronto?
— Só esperamos por vós.
— Vamos! Não há tempo a perder.
Trocadas estas palavras rapidamente entre o que chegava e um dos vigias, os três encaminharam-se com todas as precauções para a alpendrada em que habitava a banda dos aventureiros.
Aí, como no resto da casa, tudo estava calmo e tranqüilo; apenas via-se luzir na soleira da porta do aposento de Aires Gomes a claridade de uma luz.
Um dos três chegou-se à entrada do alpendre, e esgueirando-se pela parede perdeu-se na escuridão que havia no interior.
Os outros dois se dirigiam ao fim da casa, e ai ocultos pela sombra e pelo ângulo que formava um largo pilar do edifício, começaram um diálogo breve e rápido.
— Quantos são? perguntou o homem que chegara.
— Vinte ao todo.
— Restam-nos?
— Dezenove.
— Bem. A senha?.
— Prata.
— E o fogo?
— Pronto.
— Aonde?
— Nos quatro cantos.
— Quantos sobram?
— Dois apenas.
— Seremos nós.
— Precisais de mim?
— Sim.
Houve uma pequena pausa, em que um dos aventureiros parecia refletir profundamente enquanto o outro esperava; por fim o primeiro ergueu a cabeça:
— Rui, vós me sois dedicado?
— Dei-vos a prova.
— Preciso de um amigo fiel.
— Contai comigo.
— Obrigado.
O desconhecido apertou a mão de seu companheiro.
— Sabeis que amo uma mulher?
— Vós mo dissestes.
— Sabeis que é mais por essa mulher do que por este tesouro fabuloso que concebi esse plano horrível?
— Não; não o sabia.
— Pois é a verdade; pouco me importa a riqueza; sede meu amigo; servi-me lealmente, e tereis a maior parte do meu tesouro.
— Falei; que quereis que eu faça?
— Um juramento; mas um juramento sagrado, terrível.
— Qual? Dizei!
— Hoje essa mulher me pertencerá; entretanto se por qualquer acaso eu vier a morrer, quero que O desconhecido hesitou.
— Quero que nenhum homem possa amá-la, que nenhum homem possa gozar a felicidade suprema que ela pode dar.
— Mas como?
— Matando-a!
Rui sentiu um calafrio.
— Matando-a, para que a mesma cova receba nossos dois corpos; não sei por quê, mas parece-me que ainda cadáver, o contato dessa mulher deve ser para mim um gozo imenso.
— Loredano!... exclamou seu companheiro horrorizado.
— Sois meu amigo e sereis meu herdeiro! disse o italiano agarrando-lhe convulsivamente no braço. É a minha condição; se recusais, outro aceitará o tesouro que rejeitais!
O aventureiro estava em lata com dois sentimentos opostos; mas a ambição violenta, cega, esvairada, abafou o grito fraco da consciência.
— Jurais? perguntou Loredano.
— Juro!... respondeu Rui com a voz estrangulada.
— Avante então!
Loredano abriu a porta do seu cubículo, e voltou algum tempo depois trazendo uma tábua longa e estreita que colocou sobre o despenhadeiro como uma espécie de ponte suspensa.
— Ides segurar esta tábua, Rui. Entrego em vossas mãos a minha vida, e nisto dou-vos a maior prova de confiança. Basta que deixeis esta prancha mover-se para que eu me precipite sobre os rochedos.
O italiano achava-se então no mesmo lugar que na noite da chegada, algumas braças distante da janela de Cecília, onde não podia chegar por causa do ângulo que formavam o rochedo e o edifício.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)ALENCAR, José de. O Guarani. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.