Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Ensaios#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Façam idéia da cara e da compostura de Crispim. Isto se passava em fins de junho, e o pobre homem suava a causar pena.

Clotilde vinha pálida, levemente trêmula, mas senhora.

Ela deu a mão ao marido e ao cunhado e disse com brandura àquele:

- Crispim, fizeste hoje um despesão comigo! o caixeiro me informou do preço da seda;agradeço-te muito o belo presente e a graça dos versos.

O marido respondeu estupidamente, fingindo rir e falando ao ouvido da esposa:

- Ah! causei-te ciúmes? era o que eu queria para vingar-me.

Clotilde tornou dizendo-lhe docemente:

- Bem sei, e podias tê-lo dito em voz alta; bem sei que a minha vontade e até os meus caprichossão a tua lei, e vou prová-lo.

Avançando então para dentro da loja, ela disse a Mr. Qual que se apresentara:

- Quero um outro corte daquela seda.

- Pois o que foi, é pequeno?...

- Não, Crispim, a seda porém é lindíssima, e eu desejo outro corte para aumentar a cauda dovestido, e para fazer algumas gravatas que destino ao nosso Quincas.

O marido sovina sentiu o golpe, e chegando-se para Teotônio disse-lhe baixinho:

- Ainda bem que o derradeiro depois do último...

Mas não acabou, porque Mr. Qual acudiu, dizendo:

- Pensávamos ter esgotado os cortes da delirante je ne veux pas qu'on m'aime, mas de mistura com outras sedas novíssimas um caixeiro achou mais um... ei-lo, é de V. Ex.ª!

- Mande-o pôr no carro.

E voltando-se para o marido Clotilde acrescentou:

- Mais duzentos mil réis para aumento da cauda do meu vestido e para gravatas do nossoQuincas, por certo que te não causam pena...

- Oh!... não... não!... balbuciou Crispim, que suava cada vez mais.

- Aquele corte de seda é o ultíssimo, disse Teotônio em tom muito baixo a Crispim.

- Que está dizendo a meu marido?... perguntou Clotilde sorrindo:

- Dizia-lhe que a delirante seda é feia como o inferno...

- Isso é inveja, mano, e o que eu sinto é que não haja ainda um corte, porque em lembrança daótima companhia que o senhor faz a Crispim eu levaria de presente à Luizinha...

- Oh, minha senhora!... parece milagre de V.Ex.ª... exclamou Mr. Qual; encontraram-se mais dois cortes da je ne veux pas qu'on m'aime no último caixão que acaba de se abrir neste momento.

- Dois! meu Crispim, sê condescendente... tu és tão bom para mim!... eu quero os dois... umpara Luizinha e outro que mandarei à prima Antonica que faz anos amanhã.

- Mas repara... balbuciou todo banhado em suor e concentrando a fúria o marido sovina.

- Os dois cortes de seda no carro! disse Clotilde a Mr. Qual, que logo obedeceu à ordem.

E quase terna ela continuou falando ao marido:

- Quero-os, e tu escreverás uns versinhos, como aqueles, para que eu os mande pregados na seda à prima Antonica.

Teotônio mal continha o ímpeto de desatar a rir da vingança da ciumenta cunhada.

Crispim alagado em suor e obrigado a submeter-se, embora furioso pela despesa de quatro cortes de seda além do reservado para a Bibi, temendo que aparecessem inesperados ainda outros que a vingativa esposa abrasava em ciúme quisesse tomar, disse a esta:

- Agora vamos para casa, dar-me-ás um lugar no carro.

- Não posso, só há lugar para dois, e o nosso Quincas me espera na Praça de S. Francisco dePaula.

E Clotilde, aceitando graciosa e risonha a mão que o marido lhe ofereceu, entrou no carro, que imediatamente partiu.

- Melhor do que eu esperava e temia! disse Teotônio ao concunhado.

E o sovina Crispim respondeu:

- Mas quatro cortes... afora o outro!... um conto de réis!... um conto de réis!...

-E a tua quadra à Bibi?

- O diabo leve a poesia!...

E o miserável vicioso deu dois passos para o interior da loja, e disse a Mr. Qual:

- Não esqueça a... encomenda!

E saiu com o concunhado, que era tão bom marido como ele.

Clotilde nem recebeu o Quincas na Praça de S. Francisco de Paula, nem fez vestido, nem gravatas, nem presentes da seda maldita.

Melancólica, mas plácida, recebeu em casa o marido sem atormentar-se, nem atormentá-lo com increpações e cenas tristes de ciúmes.

Mas vingou-se deveras!...

Dos quatro cortes de seda - je ne veux pas qu'on m'aime - fez uma dúzia de robes de chambre para o seu Crispim, e dai em diante não poupou mais despesas com as suas toilettes.

O melhor desta história é que hoje, sendo lido o folhetim, um dos meus leitores da Rua do Ouvidor dirá aos seus fregueses de confeitaria:

O caso foi falsificado; o qui pro quo verdadeiro aconteceu com uma rica bandeja de doces...

Outro dirá na sua loja de ourivesaria:

- Que peta! não houve história de corte de vestidos; o que houve foi... quase o mesmo... o engano na entrega de rico relogiozinho de ouro...

Três edições afora as que ignoro de história que é a mesma no fundo.

Eu por mim não rejeito, e, ao contrário, aceito as diversas edições ou corrigendas da minha historieta -, mas dou vista da causa aos maridos moços e principalmente aos velhos para que cada um diga o que for de seu direito à sua respectiva esposa.

FIM

« Primeiro‹ Anterior...6768697071Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →