Por Adolfo Caminha (1893)
— Mas não têm método, não fazem caso daquilo, vão ali por honra da firma, por amor aos cobres, rebateu o Elesbão, forcejando por falar alto.
Aquilo é uma sinecura, não temos educadores, é o que é.
— Você deste modo ofende o atual diretor da Escola Normal, tido e havido como um pedagogista de primo cartello! advertiu o Castrinho, que se conservara calado.
— Não ofendo a ninguém, ao contrário, folgo em reconhecer nele um homem estudioso e bem-intencionado, mas isto não basta, meu caro...
Novo acesso de tosse desta vez mais prolongado.
— ...É preciso orientação e muito bom senso, isto é, justamente o que falta aos nossos corpos docentes...
— Tudo isso é inútil, Elesbão, tudo isso é completamente inútil quando uma mulher tende fatalmente para um homem. Foi o que se deu com a Maria do Carmo...
— É verdade, gabou o Castrinho roendo as unhas desesperadamente. Dizem que é inteligente e bem-educada.
— E além disto, acrescentou José Pereira, uma rapariga até morigerada...
— Não creio, duvidou o Elesbão batendo com o pé, curvado, já com uma poça de cuspo ao lado da cadeira, no chão. O amor tem suas exigências incontestavelmente, mas, quando a mulher é bem-educada e tem noções exatas da vida, dificilmente se entregará a qualquer mariola que se lhe chegue.
E sentenciosamente:
— Todo fenômeno é conseqüência de uma causa. Não há efeito sem causa. No caso vertente a causa é a falta de educação, a falta absoluta de quem saiba dirigir a mocidade feminina. A nossa educação doméstica é detestável, os nossos costumes são de um povo analfabeto.
Um tipógrafo aproximou-se e pediu licença ao Sr. José Pereira para perguntar uma palavra.
— O que é?
O rapaz mostrou o original. — “Está aqui”, disse apontando com o dedo sujo de tinta.
— Crápula, disse o José Pereira.
O tipógrafo foi repetindo — crápula, crápula...
— Que é isso? inquiriu Elesbão curioso.
Era um artigo contra o Pedro II, uma formidável descompostura a um dos redatores da folha oposicionista.
Entraram a falar do novo presidente da província.
A notícia do escândalo chegou até ao Benfica, à casa do Loureiro. A Lídia ficou estupefata.
— A Maria, hein?! Tão calada, tão sonsa...
E repetia:
— Este mundo, este mundo!...
Ao mesmo tempo apoderava-se dela um pesar sincero pela amiga. Tão moça ainda, coitada, tão boazinha...
— São coisas, são coisas, rosnava o Loureiro. Eu nunca me enganei com aquela gente. Uma súcia de doidos, a começar pelo tal Sr. João da Mata, um tipo que anda caindo nas ruas bêbado como uma cabra.
— Que é isso, Loureiro! ralhava a Campelinho empinada, carregando os seus oito meses de prenhez.
Pensou em escrever à Maria lamentando o deplorável acontecimento, mas não sabia ao certo onde ela parava. Ouvia falar no Outeiro, na Aldeota, no Cocó... Se fosse possível, até iria, ela mesma, dar um abraço na sua amiga de escola, consolá-la. Imaginava-a muito triste, cortada de desgostos, num abandono pungente, em casa de alguma mulher à-toa, sem ter quem lhe aparasse as lágrimas...
Pobre Maria! É assim — uns tão felizes e tão maus, outros ao contrário, bons e infelizes...
E Lídia soltava uns suspiros vagos, transpassados de pena ao lembrar-se da sua velha companheira agora atirada ao desprezo como um ente nulo e prejudicial à sociedade!
— Este mundo, este mundo!...
Entretanto, corria-lhe a vida deliciosamente, não lhe faltava coisíssima alguma, o Loureiro a estimava cada vez mais, comia e vestia do melhor, tinha relações com as principais famílias da capital, ia ao teatro e freqüentava o Clube Iracema; gozava!
Se pudesse repartir a sua felicidade com a Maria, coitadinha...
Ultimamente andava muito preocupada com o enxoval do seu primeiro filho.
Até já havia escolhido um nome para ele, para o pequeno — chamar-se-ia Julieta ou Romeu. O Loureiro tinha-lhe dito que Romeu era nome de gato, mas ela teimava em batizar o filho com esse nome, se fosse “menino”. Os padrinhos também já estavam designados — o comendador Carreira e a esposa.
Por sua vez a mulher do juiz municipal correu logo à casa de João da Mata numa ânsia de saber como as coisas tinham se passado. Era da escola de S. Tomé — ver para crer. Vestiu-se às pressas, atabalhoadamente, e voou para o Trilho de Ferro, como uma seta, atirando-se nos braços de D. Terezinha, esfalfada, sem fôlego, o rosto quente do mormaço.
A mulher do amanuense saudou-a com o seu invariável — salvou-se uma alma! proferido entre beijos.
Sem esperar oportunidade, D. Amélia foi direito ao móvel da sua inesperada visita. — “Então era mesmo certo o que se dizia na rua?”
— De quê?
— Da Maria...
— Se era? Tão certo como dois com dois são quatro. Jurava sobre os Santos Evangelhos.
O demônio metera-se-lhe em casa com a rapariga, e por tal modo que, de certo tempo àquela parte, nem fazia gosto a gente viver.
A Amélia não fazia idéia — uma vergonha! criatura, uma vergonha! Ela, Terezinha, estava cansada de sofrer desapontamentos, nem sequer saía à rua para não ser olhada com maus olhos. Haviam de pensar que ela era outra...
— E onde está a Maria?
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.