Por Inglês de Sousa (1891)
A canoa deslizava brandamente, entrando à boca do rio Canumã, cuja superfície calma enrugava de leve, despertando as sardinhas a meio adormecidas entre duas águas. Nenhum pássaro cantava, as vozes noturnas da floresta haviamse calado, num recolhimento solene, ao despontar da aurora, como se ensaiassem as forças para a abertura do grande hino da manhã selvagem. Reinava profundo silencio, apenas entrecortado pelo ruído cadenciado do remo batendo alternadamente na água e nas falcas da montaria. Padre Antônio procurava concentrar o espírito numa meditação profunda, influenciada pelos materiais objetivos que o cercavam, sentindo que dava um passo decisivo na vida, e precisava reunir todas as forças da sua mentalidade para o conhecimento exato da sua situação moral. A meditação em que se absorvesse não impediria a marcha regular do governo da montaria, porque o grande rio Canumã oferecia navegação larga e franca, a corrente não era de todo desfavorável, e permitia imobilizar o remo do jacumã numa posição demorada. Naquela região inteiramente despovoada e sujeita às correrias dos índios bravos, entrava de repente num mundo novo, longe da vida social.
A cem braças da embocadura já o rio oferecia um aspecto muito diverso do que nas proximidades do sítio do Guilherme, tendo um cunho de selvagem grandeza que impressionava a imaginação e prendia a faculdade contemplativa. As árvores da beirada, sem receio do machado vandálico do lenhador, cresciam a uma altura descomunal, envoltas em intrincados cipós e em apaixonadas parasitas, que pareciam querer sufocá-las num abraço estreito; e à claridade dúbia da madrugada projetavam no rio a sua grande sombra, cheia de mistérios. As ribanceiras negras, irregulares, ora alteando-se como montanhas, ora arredondando-se em lombadas, aqui estendendo-se em praia alagadiça, salpicada de aningas magras, ali correndo a largos trechos um muro baixo, feito de tabatinga de veios cor-de-rosa; em alguns lugares retendo a custo os cedros que se esforçavam por despenhar-se no rio, ansiosos por vagabundear nos braços da correnteza; em outros esmagadas pelas possantes maçarandubas que lhes entranhavam no seio as raízes grossas como galhos de pau-pereira; tinham o aspecto triste e desconsolado das paragens ermas, das vastas solidões jamais pisadas pelo homem civilizado, e onde a pujança da natureza bruta parece opor uma resistência de bronze ao mesquinho que se aventura a perscrutar-lhe os segredos.
Mas, ao abrir do sol, bandos de macacos grandes e de guaribas assaltaram os castanheiros, pulando de galho em galho em gritos e porfia. Uma infinidade de pássaros de todas as cores cruzaram o ar, atravessando o rio num canto alegre de liberdade e de vida. Veados vieram beber confiadamente a água do rio, levantando a tímida cabeça para escutar o urro da onça que se fazia ouvir no mato, de vez em quando, dominando os ruídos da floresta, e pondo em sobressalto as capivaras vermelhas que se banhavam em numerosa vara à beira da corrente.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O missionário. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16663 . Acesso em: 27 mar. 2026.