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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Foi um meu segundo pai!... Quando arribei por estas tenras, no tempo da minha defunta patroa, D Úrsula Santiago não tinha de meu mais do que saúde força e boa vontade! Pois o José que então namoriscava a filha da patroa a D. Quiterinha, meteu-me aqui, como feitor, e disse-me: “Olha lá rapaz! encosta-te por aí, que, se souberes levar o gênio da velha e mais o do vigário, podes até fazer fortuna! Ela tem lá uma afilhada de muita estimação, bem prendada e de boa cabeça!...” Vou eu - fico a servir na casa e, graças a Deus, sempre mereci a confiança de D. Úrsula. De noite vinha para a varanda conversar com ela junto com a minha Josefa, que nesse tempo era uma tetéia que se podia ver! O certo é que, ao fim de dois anos, casava-nos o senhor padre Diogo e, em boa hora o diga! tenho sido feliz, louvado o Santíssimo! Comeu e prosseguiu: - Já fiz esta casa em que estamos ceando, levantei o engenho, meti braços na roga, plantei algodão, que aqui não havia, e tenciono, se Deus quiser, fazer no seguinte ano muitas outras benfeitorias!

— Eles já quererão o café?... perguntou Josefa, comovida com a narração do marido.

Depois do café, serviram-se de restilo de ananás e acenderam-se os cachimbos de cabeça de barro preto e taquari de três palmos. Gasta meia hora de palestra, Manuel queixou-se de que já não era homem para grandes façanhas e prensava descansar o corpo.

— Pois fica o resto para amanhã! Pedro!

— Meu senhor!

— Leva essa gente para a casa dos hóspedes e mostra-lhe o quarto que tua senhora preparou.

— Já ouvi, sim senhor.

— Então, muito boa noite! — Até amanhã!

Manuel e Raimundo instalaram-se num quarto da casa velha, outrora morada da sogra de José da Silva; esta parte, ao contrário da outra era um sobrado silencioso e triste, que só respirava abandono e decrepitude.

Em breve o negociante ressonava; ao passo que o rapaz, estendido numa rede olhava pela janela o céu afogado em luar, passando mentalmente revista ao que fizera o dia. Os acontecimentos desfilaram no seu espírito em uma procissão vertiginosa e extravagante: vinha na frente o pedido da mão de Ana Rosa de braço dado à recusa; logo atrás o portuguesinho da vila passava cantando, com um galho de arruda na mão:

Por São Brás!

Por São Jesus!

Passo aqui

Sem levar cruz!

E seguia-se uma infinidade de imagens fantásticas: o pássaro negro cantando a finados, a feiticeira que se transformava em ossos; e seguia-se o cônego Diogo, remoçado, cercando de desvelos a sogra de José da Silva formada imaginariamente pelo tipo de Mana Bárbara.

E Raimundo sem poder conciliar o sono, demorava-se até a pensar em coisas de todo indiferentes: o guia, preguiçoso e tristonho, a cantar no seu falsete de mulher; uma fazenda que encontraram, em que havia um homem muito gordo e idiota; as ruínas de uma casa, que de longe lhe pareceu à primeira vista uma fortaleza bombardeada, e assim, mi! outros assuntos vagos e sem interesse, vinham-lhe à memória com insistência aborrecida. Afinal, chegou a vontade de dormir; mas a recusa de Manuel! apresentou-se de novo e a vontade fugiu espantada. “Por que seria que aquele homem e negou tão formalmente a mão da filha?... Ora! com certeza por qualquer tolice, e nem valia a pena preocupar-se com semelhante futilidade! Amanha! amanhã! calculava ele, saberia tudo!. . E tinha até vontade de rir pelo ar grave com que o fio lhe respondera. Ora! no fim de contas não passava de alguma criancice do Manuel!... Ou, quem sabia lá? alguma intriga!... Sim! Bem podia ser!... No Maranhão o espírito de bisbilhotice ia muito longe! E não havia de ser outra coisa! Uma intriga! Mas que intriga? Ah! ele descobriria tudo! olá! Ficaria tudo em pratos limpos. Nada de desanimar!...” E, sem saber por quê reconhecia-se muito mais empenhado naquele casamento desejava-o muito mais depois da resistência aposta ao seu pedido; a recusa de Manuel vinha dar-lhe a medida do verdadeiro apreço em que tinha Ana Rosa. Ate ali julgava que aquele casamento dependia dele somente e preparava-se frio sem entusiasmo, quase fazendo sacrifício: e agora, depois do insucesso do seu pedido, eis que o desejava com ardor. Aquela recusa inesperada era para Ana Rosa o que um fundo negro é para uma estátua de mármore fazia destacar melhor a harmonia das linhas a alvura da pedra e a perfeição do contorno. E Raimundo procurando medir a extensão do seu amor por ela, topava de surpresa em surpresa, de sobressalto em sobressalto, pasmado do que descobria em si mesmo, espantando-se com os próprios raciocínios, como se foram apresentados por um estranho, chegando às vezes a não compreendê-los bem e fugindo de esmerilhá-los, com medo de concluir que estava deveras apaixonado. Nesta duplicidade de sentimentos, seu espírito passeava-lhe no cérebro às apalpadelas, como quem anda às escuras num quarto alheio e desconhecido.

— E que tal?... monologava. Não é que estou há duas horas a pensar nisto?...

(continua...)

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