Por Aluísio Azevedo (1895)
O Aguiar, ao lhe constar a entrada de Teobaldo para o escritório do tio, esteve a perder os sentidos, tal foi o abalo que lhe produziu a notícia; mas, ordenando as suas idéias e meditando o fato, tocou logo para a casa de Leonília, disposto a por mão em todos os meios que lhe servissem de arma contra o rival.
- Aposto que não adivinhas o que aqui me traz!... principiou ele, assim que a cortesã lhe apareceu no patamar da escada.
- Saberei se mo disseres..
- É uma revelação de amigo...
- Uma revelação? Entra.
- Com licença.
E, assentando-se defronte dela:
- Ainda gostas muito de Teobaldo?
- Loucamente, por que?
- Sentirias muito se ele te abandonasse?
- Se me abandonasse? Mas que queres dizer? Há alguma novidade? ele tenciona sair do Rio? Anda! fala por uma vez!
- Não, não é isso...
- Então que é? Desembucha!
Aguiar estendeu as mãos uma contra a outra, em sinal de casamento e fez um trejeito com os olhos.
Casar? ele? exclamou Leonília empalidecendo repentinamente. - Ele vai casar?!
- Está tratando disso e é natural que a consiga se lhe não cortarem os planos.. . Só uma pessoa o poderia fazer e essa pessoa és tu.
- Eu?! disse ela, afetando indiferença. - Ora, que me importa a mim! Que se case quantas vezes quiser!
Mas puxou logo o lenço da algibeira, escondeu os olhos e atirou-se depois sobre o divã, soluçando aflita.
- Bom, bom! pensou o rapaz - com esta posso contar!...
E foi assentar-se ao lado da cortesã, para lhe expor o caso minuciosamente. Soprou-lhe em voz baixa o nome da noiva, o número da casa do tio, falou sobre este e sobre Mme. de Nangis e terminou dando parte do novo emprego de Teobaldo.
- Se aquele patife continuar mais algum tempo no escritório, segredou ele, estará tudo perdido! É preciso antes de mais nada arrancá-lo dali. Conheço-lhe as manhas, é capaz de enfiar um camelo pelo ouvido de uma agulha!... Trata de evitar o casamento e podes, além do resto, contar com uma boa recompensa de minha parte. Adeus.
Leonília deixou-o sair, sem lhe voltar o rosto, nem lhe dar uma palavra. Só alguns minutos depois, ergueu--se, passou as mãos pelos cabelos das fontes, suspirou prolongadamente, mirou-se no espelho que lhe ficava mais perto e apoiou-se a um móvel, com o olhar cravado em um ponto da sala.
- Miserável! balbuciou ela depois de longa concentração. - Miserável! E ele que nunca me falou nisto... Iludir-me por tanto tempo!... Tinha um casamento ajustado, tinha um namoro, e eu supondo que era amada!... Ah! quando me lembro que ainda ontem lhe disse que seria capaz de tudo por causa dele, que tudo suportaria para não me privar dos seus carinhos!... Oh! mas hei de vingar-me, hei de fazê-lo sofrer o quanto for possível, hei de persegui-lo enquanto durar o meu amor! Ou este casamento será desmanchado ou Teobaldo não terá mais um momento de repouso em sua vida!
E desde então principiou Leonília a fazer planos de vingança, a imaginar maldades e represálias contra o amante, disposta a não lhe deixar transparecer o menor indício das suas intenções; mas, na primeira ocasião em que Teobaldo esteve ao seu lado, ela não se pode conter e, entre soluços, deixou rolar contra ele a formidável tempestade de ciúmes que a tanto custo reprimia.
- É exato, respondeu o moço sem se alterar. Já que sabes de tudo confesso-te que vou casar.
- Hipócrita!
- Hipócrita, por que? Então não posso dispor de mim?
- Não, decerto! a não ser que tenciones me dar o mesmo destino que teve a pobre Ernestina!
Teobaldo fez um gesto de contrariedade e Leonília acrescentou:
- Não, de certo, porque, quando uma mulher ama como eu te amo, não pode consentir que o seu amado se case com outra!
- Mas, filha, é preciso ser razoável!... Querias então que eu fosse eternamente o teu amant de coeur?... querias que eu não tivesse outras aspirações, outros ideais, senão representar a indigna e falsa posição que represento aqui nesta casa, que não é paga só por mim?...
Oh! Já tive ocasião de provar-te que não ligo importância a tudo isto !.
- Sim, mas não compreendes que tenho aspirações e prezo o meu futuro? não vês que seria loucura de tua parte contar comigo para toda a vida?... Oh! às vezes nem me pareces uma mulher de espírito!
- E amas tua noiva?
- Se não a amasse, não desejaria casar com ela.
- Dize antes que lhe cobiças o dote; serias, ao menos, mais delicado para comigo.
- Bem sabes que eu não minto..
- Quando não te faz conta!...
- Desafio-te a citares uma mentira minha!
- Ora! não tens feito outra coisa até agora, escondendo de mim os teus projetos de casamento.
- Não! Isso seria falta de franqueza, mas nunca mentira.
- E mentir fazer acreditar em um amor que não existe.
- Eu nunca fiz semelhante coisa! Não fui eu quem te iludiu, foste tu própria!
- Confessas então que nunca me amaste, não é assim?
- A que vem esta pergunta?... Amar! amar! Oh! como tal palavrão me enjoa e apoquenta!
- É porque és um cínico!
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O coruja. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7406 . Acesso em: 18 mar. 2026.