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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

E Teresinha continuava de olhos imóveis, quase a chorar.

— Não! insistia o rapaz com a voz cada vez mais doce; a senhora sofre qualquer coisa. Não me diz o que é, porque não lhe mereço confiança, mas sofre...

E afagava-lhe os cabelos e o pescoço. Teresinha sentia-lhe o tremor nervoso da mão e percebia-lhe a comoção da voz.

— Não é feliz com o comendador?... perguntou Portela em voz baixa, chegando a boca ao ouvido dela.

— Foi uma asneira este casamento! respondeu Teresa. Eu passo uma vida de viúva. Ele, por bem dizer, não é meu marido. Entretanto, juro-lhe que desejava ser a esposa mais fiel e dedicada deste mundo!...

E começou a chorar aflita.

— É mesmo desgraça de cada um! acrescentou soluçando.

— Não se aflija dessa forma! disse o rapaz, puxando a cabeça de Teresinha para o seu ombro. Tenha uma pouco de resignação!...

— Mas não acha que devo passar uma vida estúpida e aborrecida?! Ando nervosa, sem apetite, tenho vertigens! tenho coisas de que nunca sofri até agora! Além disso, ele, porque já aborreceu os divertimentos, entende que os mais também não se devem divertir! Eu não vou a um baile, não vou a um teatro, não apareço a ninguém... Que diabo! eu tenho apenas vinte seis anos!

Portela dava-lhe toda a razão, e pedia-lhe que não se mortificasse.

— E você ainda pensa em casar... continuou ela, já em outro tom, não caia nessa! É uma asneira! É um engano! Se quiser aceitar o meu conselho, fique solteiro toda a vida! Ah! se eu fosse homem!...

E Teresinha suspirou de novo, e sacudiu a cabeça com um gesto cheio de intenções.

— Se fosse homem não se casaria? perguntou ele.

— Eu?! exclamou a rapariga, apertando os olhos, nunca!

— E a velhice depois, o abandono, as moléstias?...

— Ora! eu sei que não chegaria à velhice!... Além de que há muito quem cuide da gente, sem ser preciso casar.

— Mas também a vida assim, sem termos uma companheira constante ao nosso lado...

E, passando o braço na cintura de Teresinha, concluiu:

— Não pode ser grande coisa!

Ela continuou a queixar-se, falou amargamente da sua vida; disse que naquela casa representava o papel de um "dois de paus"; a verdadeira senhora era Olímpia!

— Já tenho medo de dar qualquer ordem aos criados, acrescentou com um gesto desabrido; porque posso ser desmoralizada mais uma vez. Isto é vida!? Como senhora não tenho força moral, como mulher não tenho marido! Não tenho nada!

E as recriminações recrudesciam, acompanhadas de soluços. Portela, todas as vezes que lhe puxava a cabeça para junto dele, sentia-lhe o nariz frio e os lábios trêmulos.

Quando o comendador voltou, daí a uma hora, encontrou-os já dentro de casa; Teresinha a costurar na sala de jantar, e Portela a fazer escrituração mercantil no gabinete.

Desde esse dia, a mulher do comendador principiou a melhorar dos nervos; em breve não se queixava mais das tais vertigens, comia com apetite, dormia muito bem e cantarolava durante a costura. Só quatro meses depois que o Portela se hospedara em casa do comendador, conseguiu este arranjá-lo em uma empresa comercial que se acabava de criar. Tal fato veio alterar um pouco a vida do caixeiro e enchê-lo de enormes saudades pelas horas sobressaltadas e felizes que conseguia passar ao lado da amante. O amor de Teresa constituíra-se para ele em hábito, em necessidade, sem todavia perder o encanto dos primeiros tempos, graças às circunstâncias que o dificultavam e que faziam dele um objeto proibido.

No dia em que se lhe cortassem as dificuldades e lhe suprimissem o perfume do mistério, Portela haveria de aborrecer-se e de enfastiar-se da amante, como sucede fatalmente em todos os casos idênticos.

Mas, nem ele, nem ela, se lembraram de fazer semelhante reflexão, pois se a fizessem, não cometeriam a leviandade de praticar o que vamos expor no capítulo seguinte.

CAPÍTULO XXI

A BEIRA DO PRECIPÍCIO

O comendador principiava a sarar das suas mortificações; voltava pouco a pouco aos seus antigos hábitos; ia-se finalmente restituindo ao amor pela vida e aos gozos tranqüilos que lhe permitiam os anos.

A dura morte das suas duas adoradas filhinhas anuviara-lhe o semblante, azedara-lhe o gênio, mas não lograra quebrar-lhe a linha.

Nas crises do seu mais fundo desgosto jamais desmanchara o penteado ou amarrotara os punhos. Chorou sempre engravatado e limpo; as lágrimas correramlhe livremente pelo rosto escanhoado, e os suspiros saíram-lhe da boca impregnados de cheiroso dentifrício. Por triste e magoado não esqueceu ele nenhum dos requisitos do cavalheirismo com as pessoas que lhe foram dar pêsames; e, no meio da grande opressão, encontrou galanterias sutis para oferecer às damas que o acompanharam naquele inconsolável transe.

Não perdeu o prumo, o que ele perdeu foi o apego da esposa, porque entre os dois cônjuges se havia intrometido a pujante figura do Portela.

(continua...)

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